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18/11/2020 Jorge Costadoat Carrasco SJ Edição 3930 Existem padres na Amazônia?
F/ Pixabay
"E se o atual cristianismo amazônico, sem clero, estivesse à nossa frente? Não pedir o "viri probati", não pedir mulheres comprovadas também, talvez não seja tão ruim..."

 Jorge Costadoat Carrasco, SJ

Na Amazônia há muitos cristãos, embora apenas 30% das comunidades tenham padres para celebrar a Eucaristia. Os padres estão faltando, obviamente. Óbvio? A Eucaristia é indispensável para que haja Cristianismo? Deixemos em aberto uma questão que daria uma maior reflexão teológica, mas o fato de um cristianismo sem sacerdotes ministros nos faz pensar.

Fui motivado a escrever esta coluna pela carta de José Ignacio González-Faus ao Papa por não permitir, em sua Exortação Apostólica sobre a Amazônia, que se ordenassem os viri probati. O teólogo brinca: propõe que os padres romanos celibatários deixem a Cúria e se dirijam à América do Sul para prestar serviço pastoral. Seus empregos em Roma poderiam ser assumidos por leigos. Por outro lado, eles poderiam ir aos diversos países amazônicos para realizar uma tarefa que atualmente não cumprem.

Eu levo a piada González-Faus a sério. Não estou brincando: alguém imagina o Cardeal Sarah, Prefeito da Liturgia, celebrando a Eucaristia no Brasil, virando as costas para as pessoas e oferecendo-lhes a comunhão apenas na boca? Seria um ultraje pastoral. Mas ele mesmo, como sabemos que o criou, entende o sacerdócio dessa maneira.

Na Amazônia existe cristianismo sem padres. Qual qualidade? Somente o Pai Eterno sabe. Mas, pelo que nós, seres humanos, podemos saber, um cristianismo com padres romanos provavelmente seria distorcido. Esses tipos de padres são aqueles que ainda estão sendo formados em seminários que os arrancam de suas culturas e de suas comunidades e os clericalizam. São pessoas que vieram para a Europa depois de receber uma formação sacerdotal bem européia e voltaram para a América Latina ainda mais européia. Roma está cheia de casas de formação e universidades que romanizam os sacerdotes e os tornam ministros do sacrifício eucarístico pela remissão dos pecados. Esta restritiva ideia pré-conciliar de padre não desapareceu, foi revigorada e constitui a forja do clericalismo que o catolicismo atual em toda parte lamenta.

A Amazônia não precisa de padres, mas de padres comprovados por suas comunidades por tê-los ajudado a viver o Evangelho e por ter cuidado das divisões que os ameaçavam. O único sacrifício de que essas comunidades precisam é o amor de quem se priva em favor de seus irmãos. Podem viri probati, não padres, cumprir esta missão? Parece que sim. Freiras e mulheres em geral podem fazer isso? Não sabemos, mas talvez eles possam fazer melhor do que os meninos. A Amazônia não precisa, aliás, do tipo de padre ressacralizado que nos últimos cinquenta anos acabou destruindo as comunidades eclesiais de base (CEBs) da América Latina, a melhor das recepções do Vaticano II.

Hoje em dia, uma interpretação benigna da Querida Amazônia foi oferecida. Esta Exortação Apostólica não teria excluído a possibilidade de ordenar os viri probati, mas teria passado a decisão às igrejas locais. O Papa certamente aprecia as conclusões do Sínodo que abordou este assunto. “Não pretendo substituir ou repetir” (QA 2), diz. Com este novo documento, Francisco quer completar seu ensino e apresentar oficialmente o resultado do trabalho sinodal. Mas, foi necessário mais uma volta do parafuso para convencer os cardeais de que eles trancam seu ensino? Ou vencer o jogo com uma estratégia que os desalojar? Não acredito. Nem creio que seja bom entregar a decisão de Amoris Laetitia de oferecer a Eucaristia aos divorciados e recasados aos episcopados locais. As conferências episcopais mundiais, como fui informado, exceto algumas poucas, não tiveram a coragem de fazê-lo. Os bispos do Brasil vão pedir viri probati? Eles o farão em aliança com os alemães em busca de mudanças ministeriais semelhantes?

Dê um passo ou não, o cristianismo na Amazônia é uma realidade com ou sem padres. Além disso, nas comunidades onde não há, é sempre possível desenvolver outros tipos de ações de graças a Deus por Jesus Cristo. Não seriam as refeições eucarísticas com mandioca e água de coco? No Chile, Argentina e Uruguai isso pode ser feito com pão com mate. Karl Rahner imaginou o desenvolvimento de um Cristianismo mundial, aberto a essas inovações. Ele se pergunta: “É necessário celebrar a Eucaristia com vinho de uva também no Alasca” (1980)? Outras formas de ação de graças poderiam ser feitas por pessoas comuns, homens e mulheres, idealmente líderes comunitários preparados para facilitar a interpretação da Palavra e capazes de guiar, reconciliar e encorajar suas comunidades. Esse serviço, na verdade, é realizado por esse tipo de pessoa.

Concluo: e se o atual cristianismo amazônico, sem clero, estivesse à nossa frente? Não pedir viri probati, não pedir mulheres comprovadas também, talvez não seja tão ruim. Em qualquer circunstância, o verdadeiro e maior perigo pode sempre ser os padres clericais existentes ou que devam ser enviados a uma região latino-americana que não os necessite.

Fonte Padre Jorge Costadoat, sj

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