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16/12/2019 Hébert Roux Edição 3917 Eu, porém, vos digo... (Mt 5)
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"Agora toda a Lei de Deus não pode mais ser considerada fora de MIM."

 A nova justiça do Reino, cujo executor é Jesus, produz em quem a possui como “sua justiça” uma vida nova concretamente manifestada por atos bem precisos. A vida nova do homem cristão é uma vida “real”, isto é, a de um uma pessoa comprometida em toda a complexidade da existência terrestre, carnal, temporal. A palavra de Jesus se dirige ao homem real que eu sou, e não a anjos! (Cf. Hb 2,16.)

Este homem tem um irmão e um adversário (cf. Mt 5,23-25), amigos e inimigos (43-47); ele nada ignora das realidades da vida sexual (27-32); ele fala e discute, se engaja e realiza atividades (33-37); ele vive no mundo onde há tribunais e templos, mulheres provocantes e tipos importunos, bons e maus. No detalhe de sua vida diária, não há um só gesto, uma só palavra, um só olhar, um sentimento que não possa ter, para o destino eterno de cada homem, um alcance e um peso incalculáveis: a cada instante coloca-se para ele a questão última de sua existência; trata-se de saber se ele é lançado no fogo da Geena ou se entra no Reino dos céus.

Em nenhuma outra passagem, senão nesta parte do Sermão da Montanha, percebe-se melhor a que ponto o Evangelho assume a forma de uma moral, ou melhor, de uma moralidade nova, no sentido de que diz respeito à conduta do cristão em todos os domínios de sua existência.

Mas é preciso acrescentar, também, que em nenhum outro lugar Jesus indica mais claramente a origem e o sentido dessa vida nova da qual ele deixa entrever alguns traços. Tudo o que ele diz, ele o diz com sua soberana autoridade, que nada tem a ver com aquela dos escribas e dos fariseus (cf. Mt 7,28) e não é, em grau algum, a de um moralista ou de um filósofo. Seu ensinamento não pode ser recebido de modo independente, como se ele se tratasse de um conjunto de sentenças ou conselhos que fosse possível seguir de maneira autônoma, sem se preocupar também com o Mestre que os dá.

É precisamente para evitar em seus ouvintes o erro, tão fácil, de separar seu ensinamento de sua pessoa, que Jesus introduz cada um de seus ensinamentos pela fórmula seis vezes repetida: “EU, porém, vos digo...” Ele não se apoia em nenhuma outra autoridade, exceto em si mesmo, não porque ele se ponha em lugar da Lei da antiga aliança, mas porque ele veio para cumprir a Lei e, por conseguinte, dar-lhe todo o seu sentido, toda a sua autoridade, toda a sua eficácia.

Jesus não troca por outros os mandamentos que ele cita, mas particulariza e acentua sua amplitude e seu alcance, contrariamente à interpretação dos “antigos”. É contra toda essa atuação dos antigos, isto é, de Israel, ao tratarem os mandamentos como se pudessem separá-los de Deus, que os deu, e buscando estabelecer por si mesmos a sua “própria justiça” (cf. Rm 101,3), que Jesus aqui dirige sua autoridade. Aquele que fala aqui e diz “EU”, é aquele que, no versículo 17, diz: “EU vim...”

A novidade radical dos mandamentos que Jesus enuncia consiste nisto: agora toda a Lei de Deus não pode mais ser considerada fora de MIM. É porque eu vos digo estas coisas que elas são verdadeiras e se realizam! Aquele que fala aqui, é também Aquele cuja palavra é criadora. “Ele diz e a coisa acontece”, “ele dá a vida aos mortos e chama as coisas que não são mais como se elas existissem” (Rm 4,17).

Quando Jesus se dirige ao homem e diz: “Faz isto!”, esse homem que não existe é chamado à existência, o morto ressuscita, o pecador condenado pela Lei de Deus se põe a viver por sua graça. O mandamento que dá a morte torna-se, quando Jesus Cristo o dirige a mim, uma esperança viva: a descrição de minha vida em Jesus Cristo.

(“L’Évangile du Royaume”, Ed. Je Sers, Paris, 1942)

 

HÉBERT ROUX [1902-1980] nasceu em Montauban, França. Licenciado em letras e em teologia, foi consagrado pastor da Igreja Reformada. Identificou-se com a teologia de Karl Barth e realizou estudos bíblicos com seus paroquianos, reunidos no livro “L’Évangile du Royaume”. Foi interlocutor oficial de sua Igreja junto aos católicos e realizou importante atividade ecumênica na Conferência de Oxford. Foi observador no Concílio Vaticano II.

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