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18/05/2020 JOÃO MANUEL DUQUE Edição 3924 Eu, o outro e a máscara
F/ Pixabay
"Ao sair à rua, de máscara, estou mostrando, sem me esconder por detrás da máscara, que me preocupo com a vida do outro concreto que está na minha frente. E mostro-me, na medida em que o faço; e ao faze-lo, torno-me naquilo que sou."

JOÃO MANUEL DUQUE

Aproximam-se tempos em que andaremos todos mascarados. Coisa inédita, nos nossos hábitos humanos. As circunstâncias o exigem – não apenas as autoridades, que essas também obedecem às circunstâncias – e nós temos que obedecer. Não o faríamos apenas por gosto, porque nunca o fizemos.

1. De facto, o rosto tem sido talvez a única parte do corpo que a história e as culturas não nos taparam. Porque o rosto deve andar nu. É nele que se revela, da forma mais transparente possível, a nossa identidade e o nosso estado de espírito. Conhecemos os outros sobretudo pelo rosto; conseguimos ver e sentir o que sentem, precisamente pela expressão do rosto, pelos olhos, mas sobretudo pela boca – sorridente ou séria, a cantar ou a chorar, zangada ou benevolente. O rosto é a nossa alma virada para o exterior; e a alma é tudo aquilo que somos e que nos torna sujeitos únicos. Se queremos verdadeiramente viver com os outros, precisamos de mostrar e nosso rosto e de ver o dos outros – o de cada outro concreto, um de cada vez, para percebermos o que a sua nudez nos mostra. E, até agora, conseguimos manter o rosto nu – com exceção dos olhos, que muitas vezes já são filtrados pela prótese de uns óculos mais ou menos sofisticados.

Para além disso, o rosto nu do outro humano, perante mim, significa uma interpelação incondicional. A sua nudez representa a humanidade não manipulada. A interpelação que me dirige depende apenas do facto de perante mim estar um ser humano, seja ele quem for, antes de que a condição social o tenha marcado com as suas distinções, presentes sobretudo nas roupas que o vestem e que provocam sempre algum modo de discriminação – como acontece com muitas mulheres muçulmanas, precisamente no rosto. O rosto nu é anterior e livre em relação a tudo isso; e o que me é exigido perante o humano presente nesse rosto nu é também anterior e livre de todas as roupagens.

2. Os antigos atores gregos usavam máscara no teatro. Essa máscara chamava-se prosopon e teve relação com o conceito latino de persona, a nossa pessoa. Hoje, relacionamos diretamente o conceito de pessoa com o conceito de identidade pessoal. Que tem a máscara a ver com a nossa identidade pessoal? Uma leitura unilateral poderia considerar que, uma vez que a máscara esconde as nossas expressões faciais, às vezes construindo outras, esconderia a nossa verdadeira identidade. Mas, tal como no teatro grego, as diversas máscaras usadas significam também os diversos papéis sociais que representamos. E esses, indiscutivelmente, fazem parte da nossa identidade: sou pai, sou professor, sou amigo, sou membro de uma associação, etc. Não sou simplesmente alguém escondido por detrás destas máscaras. Nesse sentido, as máscaras fazem parte de nós, por que nos tornam naquilo que somos na medida em que nos representam; e nós somos complexamente diversificados.

3. Vamos passar a usar máscara, uma máscara sanitária. Também ela passará a fazer parte de nós e a representar-nos perante os outros. Esta máscara possui, contudo, uma especificidade: não protege quem a usa, mas aquele que está perante quem a usa. Por isso, esta máscara não vai representar o meu medo nem me vai esconder perante um mundo adverso. Esta máscara representa, precisamente, o meu cuidado e a minha preocupação com o outro, pelo menos com a saúde do outro – eventualmente, quem sabe, com a sua vida. Não é, por isso, uma máscara egoísta, defensiva; é uma máscara responsável, solidária, proactiva. 

É certo que não deixa de encobrir os rostos e, dessa maneira, dificultar uma relação transparente e aberta; contra toda a nossa tradição, acaba por vestir o rosto que tínhamos conseguido manter nu – esperemos que seja, por isso, passageira, para voltarmos a ver e sentir o sorriso e o choro uns dos outros. Mas, ao mesmo tempo, representa um importante elemento da nossa identidade: a capacidade de, em liberdade, assumirmos a responsabilidade e o cuidado do outro.Ao sair à rua, de máscara, estou mostrando, sem me esconder por detrás da máscara, que me preocupo com a vida do outro concreto que está na minha frente. E mostro-me, na medida em que o faço; e ao faze-lo, torno-me naquilo que sou. 

Interessante polissemia das coisas! É importante reconhece-la, para não sermos unilaterais.

Fonte: https://www.diariodominho.pt/2020/05/17/eu-o-outro-e-a-mascara/

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