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09/07/2020 Antônio Carlos Santini Edição 3926 Eu, mortal
F/ EBC
"Em tempos de Coronavirus, descobrimos algo novo: agora, não somos “mortais” porque a morte ronda à nossa volta; somos mortais porque podemos transmitir ao próximo o vírus da morte!"

Antônio Carlos Santini

 Não é novidade lembrar que somos mortais. A própria liturgia da Quaresma se encarregava de nos lembrar, ano após ano: “Memento, homo!” “Lembra-te de que és pó, e ao pó tu voltarás!”

Desde tempos imemoriais, os místicos e os poetas pressionavam sempre a mesma tecla, recordando o lado efêmero de nossa existência: “E voa o tempo irrevogável!” Os santos de aspecto hierático eram pintados a contemplar uma caveira. E o antigo salmista falava de nossa vida como a erva que brota pela manhã e já está murcha ao pôr do sol (cf. Sl 90,5-6).

Famoso filósofo chegou a definir o homem como um ser-para-a-morte. Para Martin Heidegger, “a morte não é de fato uma simples presença que ainda não foi atuada, não é um faltar último reduzido ad minimum, mas é, antes de tudo, uma iminência que ameaça”.

E enquanto alguns românticos desesperados diante da vida se afogavam em copos de absinto no barzinho de Montmartre, a grande mística espanhola, olhando além das nuvens, aspirava por sua partida: “Muero, porque no muero!”

Mas as coisas mudam... Em tempos de Coronavirus, descobrimos algo novo: agora, não somos “mortais” porque a morte ronda à nossa volta; somos mortais porque podemos transmitir ao próximo o vírus da morte!

Por trás da minha máscara, oculta-se um transmissor mortal. Assustados, os homens da lei determinam meu isolamento. O pedestre passa para a calçada oposta. Apesar de mim, eu transporto o terror. Eu sou mortal.

*   *   *

Ora, também não chega a ser novidade. Sempre fomos mortais nos dois sentidos. O ditador que tortura seus oponentes sempre foi... mortal. O jornalista que usa a pena para difamar também irradia a morte. Os filhos rotulados pelos pais respiram no seio do lar um vírus fatal. O empresário que polui o ambiente em sua sede de lucro é pior que o vírus. O governante que antepõe a economia à saúde, o que é? O catedrático que abandona o programa de sua disciplina para zombar da fé dos alunos, não é também um semeador da morte? E que dizer do motorista embriagado? Que pensar do médico abortista?

Então, a morte não trabalha sozinha... Sempre pensamos nela como uma figura descarnada, des-encarnada: um esqueleto sem carne, sob a negra batina, empunhando a foice afiada. Pura ilusão. A morte precisa de nós para atuar. A morte precisa de vetores, como a malária precisa do Anopheles.

Batizados, devíamos ser transmissores da vida. Devíamos irradiar à nossa volta a Luz divina em nós investida: “Assim brilhe a vossa luz diante dos homens”. (Mt 5,16) Mas tantas vezes falhamos em nossa missão e nos tornamos um buraco negro no cosmo. Deixamos de ser fonte de vida para destruir e matar.

E o teólogo alemão, a respirar pessimismo, nos define: “Homem, câncer da terra”...

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