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15/05/2020 Antônio Carlos Santini Edição 3924 Envelhecer longe dos filhos
F/ visualhunt
"Cada vez mais a família se dispersa. Os filhos distantes darão proteção aos pais idosos?"

 

 A busca pelo emprego e a luta pela sobrevivência afasta cada vez os filhos de seus pais. O fenômeno é mais acentuado nas cidades pequenas, onde as oportunidades de trabalho são reduzidas. Casais idosos ficam seriamente expostos a dificuldades de todo tipo. Depois de terem dedicado esforço e tempo para educar os filhos, podem acabar relativamente abandonados em sua velhice.

Reportagem do jornal católico La Croix registra o depoimento de um homem de 94 anos: “Paguei longos estudos para meus filhos, estágios no estrangeiro etc. Hoje eles têm postos de responsabilidade em cidades grandes. Minha mulher e eu envelhecemos longe de nossos filhos, que deixaram o interior”.

 Quem cuidará de nós?

Esta é a interrogação de muitos idosos. Apesar das rápidas transformações sociais e familiares, os mais velhos ainda acham normal que os filhos cuidem de seus pais quando chega a velhice. Quando os filhos têm recursos financeiros, ainda podem pagar pelo trabalho de cuidadores, mas isto não ocorre na maioria dos casos, restando o extremo recurso das “casas de repouso”, como hoje são chamados os asilos, onde o idoso vive em relativa solidão.

O problema se agrava quando a idade vem acompanhada de sérias reduções das capacidades cognitivas, quando já é difícil controlar os medicamentos de uso permanente, quando se perdem as chaves da casa e se tornam frequentes as quedas ao andar.

O sofrimento do idoso se agrava quando a situação o obriga a deixar a casa onde viveu por longos anos. Deixar o seu “cantinho” significa enfrentar a adaptação a novos espaços e abandonar o lugar que tem uma história, perder contato com os vizinhos, deixar suas plantas e até mesmo o “cheirinho” ao qual já se acostumou. A casa própria representa sempre um estatuto de independência, que o idoso não quer perder.

 À espera do Natal

Quando chega o Natal, os velhos pais não querem presentes. O único presente desejado é a presença dos filhos e dos netos. Nem sempre o recebem, pois os “programas” e interesses dos mais jovens costumam apontar em outra direção. Pesa também nesse quadro a dificuldade representada pelo custo financeiro das viagens, pois muitas famílias já têm sua contabilidade no vermelho.

Quando os filhos comparecem, os velhos se sentem renascer. Reaparecem antigas louças e toalhas ciosamente conservadas para ocasiões especiais. Lágrimas na chegada e lágrimas na partida.

A situação se agrava pela indesculpável ausência do Estado na proteção dos idosos. As recentes políticas visam à redução das aposentadorias e cortam boa parte da pensão que o idoso falecido deixaria para seu cônjuge. Mesmo as comunidades religiosas não parecem ter acordado para o calvário dos idosos.

Eles não querem muito. Se puderem, querem morrer em casa, com a presença daqueles a quem dedicaram sua vida.(ACS)

 

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