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31/12/2019 Yves Raguin   Edição 3918 Em busca de Deus
F/ plumeschretiennes.com
"Deseja conhecê-lo com toda a capacidade de seu espírito e amá-lo com toda a força de seu amor?!"

Se você quer partir em busca de Deus, seguindo o caminho da contemplação, não pense que você se lança ao encalço do inatingível. Deus já o espera. Este desejo que está em você de partir à sua procura é dele que vem. É um apelo seu. Talvez ainda não lhe tenha revelado, mas, creia-me, este desejo vem dele. Deu-lhe o anseio de procurá-lo e com a própria mão preparou-lhe o viático. Previu as etapas. Quer se mostre ou não, pouco importa; você saberá que seu amor atento tudo preparou e abriu-lhe as portas. Talvez aqui ou ali você o reconhecerá na fração do pão. Talvez percorra mesmo com você um trecho do caminho...

O que você procura alcançar é o seu Deus. Deseja conhecê-lo com toda a capacidade de seu espírito e amá-lo com toda a força de seu amor. Foi o que os santos também procuraram antes de você e encontraram. Você deseja ver seu Deus, ouvi-lo, amá-lo não mais numa percepção de fé que, em sua grandeza, deixa o homem com o seu desejo, mas com um conhecimento novo do qual os patriarcas, os profetas e os santos fizeram a experiência. Você gostaria de poder dizer: “eu vi Deus...”

Ninguém pode ver a Deus neste mundo sem morrer e, no entanto, somente aquele que o vir poderá viver. É verdade. As duas acepções são exatas. Você não pode ver a Deus, mas Deus, entretanto, faz-se ver. Outros o procuraram antes de você e o encontraram. Não o encontraram devido ao seu esforço; no entanto, sem esse esforço não o teriam achado. Sim, vem de Deus esse desejo de o encontrar que reside em você, desejo que jorra do seu âmago, desejo que você possui e que seu vizinho não tem, desejo que é seu, em sua origem mais profunda.

Esse desejo o impele para Deus. Deus quer que o desejo que ele lhe inspira torne-se de tal forma pessoal, que seja realmente o desejo de todo o seu ser, para depois dar-se a você. Não é você que o persegue, que o capta, que o força a dar-se. Ah! Não! Deus não se deixa catar assim. É ele que se faz pressentir, que se mostra, que se dá a você... Para recebê-lo e captá-lo, você ainda precisa da força que dele emana, pois a sua não será jamais suficientemente poderosa. [...]

Você parte à procura de Deus. Não sabe sob que fisionomia ele se mostrará a você. Não terá, provavelmente, nenhum rosto, não terá nome, você não poderá encontrar nenhuma definição que possa aplicar a ele quando o encontrar... Parta repleto de um desejo imenso, mas livre de todos esses nomes: representações, definições, visões... Deus é Deus, transcende tudo o que se pode dele dizer ou pensar, supera tudo quanto se pode ver. Chamamo-lo Deus, mas, na verdade, não tem nome. Quando Moisés perguntou-lhe como se chamava, não deu o seu nome, simplesmente respondeu: “Eu sou”.

Se ele é, você também é dele e por ele... Nesse elo do ser é que o captará... Acima do que se pode conceber e dizer, no ser, na comunicação que ele lhe faz de seu próprio ser.

(Do livro “Caminhos da Contemplação”, Paulinas, S. Paulo, 1979.)

 

YVES RAGUIN [1912-1998], sacerdote jesuíta, estudou línguas orientais em Harvard e viveu no Oriente desde 1949, até sua morte em Taipé, Taiwan, onde dirigia o Instituto Ricci, centro de estudos chineses da Companhia de Jesus. Especializado no budismo, foi o editor do dicionário sino-europeu. Entre seus livros, há traduções para o português: Caminhos da contemplação, A profundeza de Deus e O Espírito Santo sobre o mundo – todos eles nas Ed. Paulinas.

 

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