Destaques Capa
10/06/2020 Antônio Carlos Santini Edição 3925 Do papel para a telinha: 28 anos n’O Lutador
F/ SDN
"Pode ser que o leitor se entristeça com a mudança. Pode ser. Mas eu o convido a se renovar, aderir às novas mídias e fazer contato."

Do papel para a telinha: 28 anos n’O Lutador

Antônio Carlos Santini

 Em 20 de dezembro de 2013, o jornal mais antigo do mundo ainda em circulação acabava com sua versão impressa e passou a existir apenas na web, a rede mundial na Internet. Trata-se do Lloyd’s List, nascido em Londres, em 1734.

Não foi um caso isolado, mas é uma tendência mundial. Em março de 2016, outro jornal britânico, The Independent, dizia adeus à edição impressa. No mesmo mês, a tradicional revista Newsweek fazia a mesma opção pelo formato digital. E logo seria acompanhada pelo jornal The Guardian.

No Brasil não é diferente. Periódicos de tradição em nossa imprensa também se viram forçados a trocar o papel pelas telinhas: a Gazeta do Povo (Paraná, 2017), o Jornal do Brasil (Rio, 2019), o Hoje em Dia (Belo Horizonte, 2019), O Progresso (Mato Grosso do Sul, 2019, após 68 anos de circulação).

Agora, chegou a vez de nosso querido O Lutador. Com 91 anos de serviços prestados à Igreja e à sociedade brasileira, também ele precisa adaptar-se à nova realidade. Existe toda uma constelação de fatos que explicam a decisão. São tempos de profundas transformações sociais e econômicas, envolvendo novos hábitos, novas mídias, questões ambientais e, com destaque, a ineficiência e os preços abusivos dos correios no Brasil.

 

Uma escola de jornalismo

Minha primeira participação nO Lutador aconteceu em 1992, com um artigo sobre os 500 anos de evangelização nas Américas. Dom Marcos Barbosa, OSB, reproduziu a matéria em sua coluna do Jornal do Brasil, intitulada “Encontro Marcado”. Houve uma significativa ressonância. Um amigo, sacerdote das Escolas Pias, depois de ler o artigo escreveu-me: “Pelo menos um de seus dons está debaixo do caixote”.

Ele tinha razão. Desde 1984 eu deixara de lado minha participação na imprensa. Vi nessa carta um chamado a recomeçar. Mostrei ao editor do jornal, Pe. Paschoal Rangel, SDN, que dava um curso sobre a Doutrina Social da Igreja em nossa comunidade, umas crônicas que giravam em torno de um pároco espanhol. Ele gostou e abriu-me um espaço semanal n’O Lutador, o mesmo espaço antes ocupado por meu xará, o conhecido escritor Antônio Carlos Vilaça. Começavam ali as “Histórias de Frei Boanerges”.

Ao lado do Pe. Paschoal, aprendi a admirar seu amor à Igreja, sua devoção ao legítimo depósito da fé, seu gosto pela literatura. Em época de escassos recursos de informação, Pe. Paschoal escrevia quase o jornal inteiro, mal disfarçando sua pena com outras assinaturas: P.P.R., P. Selitti etc.

Quando o peso da idade superou suas forças, Pe. Paschoal cedeu, com pesar, seu posto de editor. Em seguida, eu iria conviver com vários editores que se sucederam à frente da publicação. Pe. Sebastião Sant’Anna teve o mérito de informatizar o jornal, abrindo acesso a novas fontes, além de procurar por novos colaboradores. Pe. Wilson Cabral estimulou experiências e provocava nossa criatividade; chegamos a adotar o verbo “desengessar”. Pe. Heleno da Silva veio depois e imprimiu ao jornal um rosto mais ligado à Congregação dos Sacramentinos de Nossa Senhora. Por fim, convivo há alguns anos como o atual editor, Ir. Denilson Mariano, que teve a feliz ousadia de transformar o jornal em revista mensal, com notável upgrade gráfico.

 

Nada a lamentar

Já velho, aos 76 anos de idade, minha tentação seria a de lamentar as mudanças e os imprevistos da história. Nada disso! O trabalho realizado não pode ser apagado pelo tempo. Temos uma cidade construída com o material de construção típico da imprensa: ideias, palavras, papel e tinta, imagens e design, tudo orientado para uma vocação: anunciar o Evangelho.

É preciso aceitar o mundo novo que se refaz a cada dia. Hoje mesmo, quando escrevo esta matéria, joguei no lixo minha velha câmera fotográfica, pois já não há filmes para ela. As câmeras digitais tomaram conta do cenário. Meus velhos LPs ainda são ouvidos, mas já não acho agulhas novas para o toca-discos Phillips de procedência alemã. As coisas passam, mas surgem novas, muitas vezes com vantagens...

Nestes 28 anos de minha participação, estendemos pontes em direção aos recantos mais remotos do país. São centenas e centenas de amigos que esperam pela chegada de O Lutador para fazer contato com o articulista e reforçar a empatia gerada ao longo do tempo.

Na mesma sala, por longas temporadas, convivi com profissionais dedicados, estagiários que progrediam rapidamente e logo eram promovidos de colegas para amigos. Não tenho como citar todos eles, mas abro uma exceção para meu amigo Valdinei do Carmo, pintor e artista gráfico, encarregado da diagramação da revista e que deu ares de beleza a muitos de meus livros.

Pode ser que o leitor se entristeça com a mudança. Pode ser. Mas eu o convido a se renovar, aderir às novas mídias e fazer contato. A edição de O Lutador já será digital no mês de julho. Minha crônica, se Deus permitir, ali estará. E daremos um passo adiante em nossa missão. Não acredito que Gutenberg faria objeção...

 

Um até logo...

Eu me sinto honrado em ter participado de momentos notórios e de profunda transformação na linha editorial, e por ter recebido a missão e a confiança dos editores em provocar tais transformações nessa marca “O Lutador”. Aqui, há mais de 20 anos, fui o responsável pelos projetos e diagramação ao lado de pessoas tão iluminadas, religiosas em suas responsabilidades.

Esses companheiros foram numerosos, conforme citou com tamanha sabedoria o meu amigo e revisor de longa data Antônio Carlos Santini, grande mestre, a quem devo profunda gratidão pelas orientações nos caminhos complexos das palavras e das mudanças.

Essas mudanças me levaram cada vez mais aos estudos e ao enriquecimento da minha pequena biblioteca, com títulos voltados exclusivamente ao aprofundamento em projetos de periódicos/editoriais que me proporcionaram a trocar e-mails com Mario Garcia, uma das maiores auto­ridades quando o assunto é design de jornal impresso e digital no mundo.

Quando eu disse que estava redesenhando um jornal no Brasil e precisava me aprofundar em orientações para projetar um jornal alinhado não com algo regional e religioso, mas com uma linguagem global de diagramação, Mario Garcia, com muita fineza, prontamente me disse: “Indico esse que irá conduzi-lo nos momentos de dúvidas: ‘Contemporary newspaper design’”. Com essa orienta­ção, visitei uma livraria on-line e em uma semana o título saiu da cidade de No­va Iorque para minha mesa de trabalho, onde repousa por muitos anos.

Em tempos de matérias de menos, despeço-me des­se veículo e da inesquecível equipe que de maneira ousa­da leva a marca “O Lutador” a alçar outros horizontes.

Vou parafrasear o grande designer, poeta e mul­tidisciplinar Max Portes, que atuou no “O Lutador” de maneira exemplar, e dizia: “Existem dois extremos na vida de um diagramador: matéria demais e matéria de menos”. Sendo assim, estou certo de que, seguindo os ideais do Fundador Pe. Júlio Maria De Lombaerde, o Evangelho continuará che­gando às casas de milhares de pessoas, mas por ora em outras vias.

Desde já, muito grato a todos e, como sempre, até...

Valdinei do Carmo

Compartilhe este artigo:
Nome:
E-mail:
E-mail do amigo:
DEIXE UM COMENTÁRIO
TAGS
ÚLTIMAS NOTÍCIAS