Formação Juventude
20/10/2020 Ir. Dione Afonso, SDN Edição 3929 DNJ 2020: “Ouviu e junto com eles caminhou” (Lc 24, 15-17)
F/ DNJ 2020
"A exemplo de Jesus, precisamos dominar a arte de “puxar conversa”, descompromissada, livre de intenções e sem receitas prontas"

DNJ 2020: “Ouviu e junto com eles caminhou” (Lc 24, 15-17)

 Com inspiração na Campanha da Fraternidade, este ano o Dia Nacional da Juventude mais uma vez olha pros rostos jovens de nosso país e os convida a celebrar a vida enquanto Dom e Compromisso: Dom porque veio de Deus; Compromisso porque d’Ele recebemos um chamado, uma missão, uma tarefa a realizar. A vida do jovem é Dom e é Compromisso. Não há vida mais valiosa e bela que a vida de cada jovem com seus sonhos e a criatividade. Junto de cada jovem somos chamados a anunciar a beleza da Criação e a graça do Pai.

 A vida do jovem é Dom

Neste ano, o DNJ traz a proposta envolvida com um compromisso cada vez mais urgente e caro para nós: olhar, ouvir, aproximar, cuidar, zelar e amar a vida de cada jovem com suas dores, lamentos, gritos e solidão. Quando somos convidados desde a CF-2020 a refletir a vida enquanto dom, somos provocados a coloca-la no primeiro plano de nosso compromisso cristão: independente de quaisquer empreitada que assumimos, a vida é primordial e compromisso primeiro de todos nós.

A vida anda a cada dia mais ameaçada. E a vida do jovem é a que mais sofre essas ameaças. Vidas a cada dia são tiradas de nós sem nenhum motivo e da forma mais brutal que podemos assistir. Segundo o quadro da violência de 2019, no Brasil, 59,1% dos óbitos por homicídios são de jovens entre os 15 e 19 anos. “A juventude perdida é considerada um problema de primeira importância para o desenvolvimento social do país e vem aumentando numa velocidade maior nos estados do Norte. Os dados do Atlas da Violência também trazem evidências de outra tendência preocupante: o aumento, nos últimos anos, da violência letal contra públicos específicos, incluindo negros, população LGBTI+ e mulheres, nos casos de feminicídio” (Fonte: Atlas da Violência, 2019).

Segundo o Ipea e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, outro número preocupante é o crescimento da taxa de homicídio entre as mulheres que aumentou 4,2% em um ano. 28,5% dessas mortes de mulheres acontecerem dentro de casa, o que o Ipea levanta o dado de ser possíveis casos de feminicídio e/ou violência doméstica. Quando se trata de mulheres negras, a taxa aumenta em 29,9%.

Segundo o site da BBC, quando comparado a taxa de homicídio dos jovens do Brasil com outros países, “o dado às taxas gerais dos países, o ‘Brasil dos jovens’ fica atrás apenas de nações de extrema pobreza e crise, como Honduras (85,7 mortes por 100 mil habitantes em 2015) e Venezuela (81,4 por 100 mil habitantes em 2018, segundo o Observatório Venezuelano da Violência)”.

 Iluminação bíblica

Para este ano, o DNJ se inspira na caminhada dos discípulos de Emaús para iluminar a caminhada dos jovens e de toda a Igreja. Vejamos que naquele trecho do evangelho, dois homens se encontram retornando para casa tristes, pois não encontraram em Jerusalém algo que atendesse as suas expectativas. No caminho, eis que um terceiro peregrino começa a caminhas com eles e “puxa conversa”. Esse gesto faz a proximidade tornar-se concreta, pois ao iniciar um bate-papo, experiências são trocadas e a vida dos três começa a ser compartilhada.

Podemos imaginar que a tristeza estampada nos rosto deles torna-se objeto de preocupação, “porque andam tão tristes pelo caminho?”, é uma pergunta desafiadora e corajosa. É preciso que nós emprestemos nossos ouvidos para entender e ouvir a dor da tristeza do outro. É preciso ouvi-los e junto com eles pôr-se a caminho. Percebam que nem mesmo o próprio Jesus os induz a ir por um outro caminho. Ele simplesmente caminha com eles. Na nossa vida, no nosso dia a dia, também precisamos ter a sensibilidade de caminhar, fazer o caminho do jovem, entender a estrada dele. Muitas vezes caímos na tentação de tira-los do caminho que estão percorrendo e encaixamos eles num caminho novo, as vezes no nosso caminho. Isso nos impede de entende-los e até mesmo de compreender a dor que o chão da estrada deles provoca.

Vamos, iluminados pelo evangelho, caminhar com eles, na estrada deles, com as dificuldades que eles enfrentam, sendo desafiados e entender o porquê daquele caminho e daquela estrada. Juntos, no mesmo caminho (e que seja o caminho deles), podemos entrar na conversa e na vida deles e aos poucos ir percebendo onde Deus está naquela história que o jovem nos conta.

 Estenda a mão para o jovem e caminhe com ele

Por conta da pandemia, muitas paróquias e dioceses irão celebrar o DNJ no formato de live, encontros virtuais. Mesmo nessas experiências, que possamos adentrar nessas novas estradas que, por sinal, eles têm mais traquejo para caminhar. Juntos deles possamos entender as maravilhas e curiosidades que esse universo digital proporciona.

A exemplo de Jesus, precisamos dominar a arte de “puxar conversa”, uma conversa descompromissada, livre de intenções e sem receitas prontas para as dores deles. Uma conversa jovem, alegre, motivacional. Assim, iremos, aos poucos criando aquela coragem e oportunidade de também perguntar “porque andam tão tristes pelo caminho?”, uma vez a pergunta feita, temos a sensibilidade de ouvi-los. Ouvir com liberdade e sem julgamentos sobre suas vidas, suas dores, suas indagações e revoltas.

Que todos nós possamos nesse DNJ, celebrado no último domingo de outubro, caminhar junto dos nossos jovens. O próprio Atlas da Violência indica que o caminho obscuro e perdido dos jovens os levam à violência da morte. Isso está matando nossos jovens a cada dia sem termos a oportunidade de fazer essa pergunta a eles e sem que caminhemos com eles. É hora de estender a mão e caminhar...

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