Variedades Crônica
21/06/2019 Maria Edição 3911 Curso grátis
F/ Elo7
"Vovó, quem pôs pavio na mandioca? Perdi uns minutos com uma crise de riso que me pegou de surpresa..."

Curso grátis

Maria

 

Antes eu não tivesse ido!

Mas, não conseguia parar de pensar na tragédia de Brumadinho. Meu coração não se aquietava.

- O que posso fazer por eles? Só posso rezar! Vou acender uma vela... Meu Deus, não sobrou um toquinho de vela. Vou ter que arranjar uma...

Olho mil gavetas, encontro velas antigas de Primeira Eucaristia dos filhos, uma vela vermelha, não sei pra quê... Mil velas de aniversários antigos e já esfareladas no tempo...

E Brumadinho? Tenho de acender uma vela, senão nem vou dar conta de fazer o almoço hoje! E limpava os olhos e suspirava: que horror, Deus meu!

- Vamos ao armazém com a vovó, meu bem?

Minha neta correu comigo.

Olhei em volta, o pessoal que me atende sempre não aparecia. Apareceu um moço, vindo lá de dentro...

- O que a senhora deseja?

Um rapaz (acho a palavra desusada, mas dava certinho com o tipo do moço, todo prestativo. Reparei bem... Camisa de mangas compridas, muito bem passada, dobrada até o meio do braço, mãos finas, cabelo muito bem penteado, sapatos brilhantes de graxa... Pensei: o que será que um moço alinhado assim está fazendo aqui?)...

- Em que posso servi-la?

- Eu estou querendo velas...

O rapaz se levantou, esfregou as mãos, numa alegria antecipada...

- A senhora é a primeira freguesa que atendo... Com todo o prazer!

Fiquei desconfiada, dei uma ajeitada na minha roupa de todo dia, pensei que entrara no lugar errado, passei a mão nos cabelos, um completo mal-estar.

- Você está trabalhando aqui?

Nova esfregada de mãos... uma limpada de garganta prenunciava a prosa fiada...

- Não, estou aqui fazendo um favor para meu primo... Eles foram a um velório, os funcionários estão em horário de almoço e os outros dois estão fazendo entrega... Não me custa nada...

(Sobrou pra mim! A carne vai queimar, a máquina vai ficar rodando, Deus meu, que rapaz mais chato! Logo hoje que a Vani não veio trabalhar...)

- Moço, vê as velas pra mim, estou com um pouquinho de pressa...

- A senhora deseja vela grossa, ou fina?

- Das comuns...

- De que tamanho?

Caí das nuvens...

- Das comuns - repeti...

Ele limpou a garganta de novo e prosseguiu... (Prosseguiu é a cara dele!) E voltou animadíssimo! E eu, com o dinheiro na mão, doidinha pra voltar pra casa... mas...

- A senhora sabe, há velas e velas, por isso estou perguntando. Há velas de embarcações...

(Nossa! Pedro Álvares Cabral deve ter esquecido esta múmia aqui!)

- Não, moço, eu quero é vela...

Ele se abaixou para brincar com minha neta:

- Sua não sabe comprar velas, petite fleur...

(Deus meu, só pode ser brincadeira! Ainda esbanja um francês, será de onde saiu essa peça?)

Minha neta aproveitou a deixa e quis tirar uma dúvida, naquela hora desesperadora para a avó:

- Vovó, quem pôs pavio na mandioca?

Perdi uns minutos com uma crise de riso que me pegou de surpresa.

- Quem, , quem pôs o pavio dentro da mandioca?

- Depois a vovó te conta, agora estamos com pressa...

Apertei a mãozinha dela, virei de costas para sufocar o riso... Ela entendeu, mas o rapaz continuou:

- Há velas do verbo velar...antigamente, havia velas para vigiar os namorados...

(Meu Deus, vou desmaiar , nem que seja de mentirinha, é o único recurso de fazer esse aborrecido fechar a boca...)

- Moço, por favor, me dê as velas, estou com pressa... Desculpa, mas estou mesmo com pressa...

- Sabe, minha senhora, tenho curso de ceromancia, e é um assunto que aprecio muito... já que a senhora falou em velas...

- Curso de quê?

(Graças a Deus, chegou mais um freguês e ele vai se esquecer do tal curso...)

- Como eu ia dizendo, há vários significados para a cor da chama da vela, sua direção, sua intenção, seu oráculo...

Minha neta já estava fufucando as prateleiras. Eu não sabia pra onde olhar...

- Para com isso!

O moço me olhou surpreso...

- A SENHORA ESTÁ FALANDO COMIGO?!!!

- Não... Nãão... Estou falando com minha neta, para ela parar de mexer nas coisas...

- Deixa a criança...Vou só terminar nosso assunto e vou atender aquele senhor...

(Nosso assunto, vírgula, seu assunto, pensei...)

- Só pra terminar, há velas de motor de carro, velas de filtro, que eu penso que é o que a senhora está querendo...

- Oi, D. Branca, ainda bem que meu primo ficou aqui pra gente ir ao velório de um conhecido... Lembra-se dele?

(Balbuciei umas palavras engroladas e...)

- Ele estuda em Paris, veio passar férias aqui. Trabalha na Embaixada do Brasil lá na França, acho que é isso mesmo, ele é um crânio! Gostou da prosa dele? Ele é cultíssimo!

(Percebi a cara de satisfação do rapaz que esfregava as mãos na maior alegria...)

- A noiva dele é de lá, veio conhecer Minas Gerais e o interior...

- Sim, vamos nos casar em breve... Aproveitei férias do trabalho na França...

Antes que ele complicasse mais, implorei:

- Quero velas! Desculpa, estou com pressa...

A dona do armazém foi rápida. Peguei o maço de velas e, já no passeio, ouvi o rapaz se explicando, voltando às origens mineiras...

- Ah, se a senhora tivesse falado vela de rezar, eu entenderia na hora.

Zuni pra casa, puxando minha neta pela mão. Antes de tudo, desliguei a carne e fui acender velas, rezar pelas vítimas de Brumadinho... Rezei com fervor e ofereci a Deus o Curso Grátis que fiz, sem querer, curso de ceromancia...

Imagino que valeu! Minha intenção foi essa... Deus seja louvado.

- Vovó, o quê que aquele moço bonito falou pra mim?

E, antes que começasse outra conversa comprida, respondi pra minha neta:

- Ah, ele falou que foi um anjo que pôs o pavio na mandioca...

- Ah, só ele que sabe disso! Toda vez que pergunto, o povo começa a rir e...

Pode? Não sei se pode, mas com a Maria acontece cada uma!

 

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