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11/03/2021 Denilson Mariano Edição 3934 Cristo é nossa paz e caminho de unidade (CFE 2021 3/3)
F/ CNBB / Conic
"Diante de tantos muros torna-se ainda mais urgente o nosso testemunho cristão para, a exemplo de Cristo, sermos sinal de unidade. Nossa missão é ser instrumentos da paz de Cristo. E não basta a paz interior, nos corações, é preciso construir a paz, a unidade, a fraternidade social, em socorro das vítimas, dos pobres, dos excluídos (cf. FT 85)."

Denilson Mariano

Jesus evita tornar-se um mero fazedor de milagres. Ao sair da Galileia,  na direção de um território pagão, Tiro e Sidônia, Jesus busca ocultar-se. Porém, uma mulher sírio-fenícia, pagã e considerada impura, busca socorro para sua filha que é duplamente impura, por ser pagã e, ao mesmo tempo, por estar possessa de um espírito impuro. A princípio, Jesus assume o papel típico do judaísmo oficial que defendia que a salvação viria apenas para o povo judeu. Na versão de Mateus 15,21-28, Jesus não responde a mulher, seus discípulos propõem a expulsão dela, sem compaixão.

Abrir-se ao diálogo: uma necessidade

O diálogo entre Jesus e a mulher é ainda pouco amistoso, na resposta de Jesus (Mc 7,27), os filhos são os judeus, os cachorrinhos os pagãos e o pão é Cristo. De modo inesperado, a mulher refaz a comparação utilizada por Jesus. Ela ajuda a direcionar a atenção para os que estão debaixo da mesa. Ajuda a examinar a situação, de outro ponto de vista: não o dos filhos, mas dos cachorrinhos. Com delicadeza, aponta para a necessidade de estender a salvação a todos. Por meio da mulher estrangeira, no diálogo com Jesus, nasce uma nova compreensão do Reino. Ele é para todos.

Aparece aqui a importância do diálogo que abre novas possibilidades de comunhão e de unidade. Temos aqui um convite à comunidade cristã, para assumir uma atitude nova de reciprocidade e receptividade para além do seu próprio povo e para além de suas convicções religiosas. Uma maior abertura para a dimensão ecumênica da nossa fé, de verdadeira busca de comunhão. A divisão dos cristãos permanece como uma grande chaga no cristianismo e enfraquece o nosso testemunho missionário na sociedade, no mundo. O Evangelho nos convida para uma abertura à fraternidade humana, tão em falta ultimamente. Para a capacidade de diálogo com o diferente. Marcos 7,24-30 nos lembra que o Reino anunciado por Jesus é para todos. Para todas as raças, línguas e nações, afim de que possam se sentar à mesa, tornando-se filhas e filhos de Deus.

A CFE quer nos abrir ao diálogo

Faz parte dos objetivos desta CFE 2021 estimular o diálogo e a convivência fraterna como experiências humanas irrenunciáveis, em meio a crenças, ideologias e concepções, num mundo cada vez mais plural; compartilhar experiências concretas de diálogo e convívio fraterno (TB 3). Mais recentemente, as disputas ideológicas ao redor da vacina indicam que o acesso ao imunizante também será marcado por grandes dificuldades, sobretudo para a população mais carente. A “volta ao normal”, tão desejada por tantas pessoas, não pode, porém, ser um retorno à maneira antiga de viver e de se relacionar com o mundo e as pessoas. Precisamos aprender a dialogar, sabendo que o diálogo abre novas possibilidades, leva a enxergar com outros olhos os que estão “debaixo da mesa”. Definitivamente, o diálogo é nosso melhor testemunho.

A CFE 2021 quer reforçar para todos nós que: “Em Cristo, a Boa Nova de paz é  oferecida para todas as pessoas  a fim de se construir uma nova humanidade, que não esteja dividida e nem orientada pela violência e pelas divisões, mas  animada e alicerçada no amor, na graça de Deus e na unidade que se realiza pelo Espírito Santo (Ef. 2,18). A paz em Cristo tem seu fundamento na garantia das condições de vida para todas as pessoas [...]. Esta transformação é a esperança de que uma nova humanidade é possível” (TB 136).

Não tem sentido celebrar uma CF Ecumênica reunindo apenas os que já são católicos. Somos desafiados a buscar maior proximidade com nossos irmãos de outras igrejas, bem como de outras religiões. Que tal começarmos com uma visita aos vizinhos de outras Igrejas, pela promoção de ações comuns de enfrentamento da pandemia, de socorro aos que estão doentes, de amparo aos desempregados e necessitados!? Precisamos aprender a olhar nossos irmãos com outro olhar, mais acolhedor, humano e fraterno. Afinal, Jesus anunciou um Reino que é para todos e nos fez, a todos, irmãos e irmãs.

Cristo é a paz e caminho de diálogo

No Novo Testamento, quem promove a paz é bem-aventurado, chamado “filho de Deus” (Mt 5,9). A paz é um dom do Cristo ressuscitado (Jo 20,26). A Carta aos Efésios deixa claro que, com sua morte na Cruz, Jesus Cristo derrubou o muro de separação entre judeus e pagãos. A ressurreição de Jesus é um convite aberto para que os povos se unam e passem a formar o Novo Povo de Deus. A participação neste povo não se dá por laços de sangue, mas por laços de fé na pessoa de Jesus Cristo. Pela decisão de responder ao seu chamado e colocar-se no seu seguimento.

Essa paz em Cristo, que une povos diferentes, indica a reconciliação com Deus (Ef 2,15ss), uma “adoção”, uma nova forma relacionar-se com Deus, não como servos, súditos ou escravos, mas como filhos amados de Deus. Por isso carregar o nome de cristão(ã) implica a superação da inimizade e do ódio. Implica aprender a “amar como Jesus amou”. Implica buscar a unidade para além dos conflitos, buscar a paz para além das divergências. Implica superar todas as formas de agressões e a empenhar-se, decididamente contras a violência e a guerra, em suas mais variadas formas: física, verbal, virtual...

Não é sem motivo o puxão de orelhas do autor da Carta recomendando aos cristãos de Éfeso para não permanecerem eternamente crianças na fé. Ele chama a comunidade para amadurecer na fé em Cristo. E isto vai acontecer na medida em que conformamos a nossa vida com a vida de Cristo. Significa aprender a amar sem restrições e sem impor condições: “Então, já não seremos crianças, jogados pelas ondas e levados para cá e para lá por qualquer vento de doutrina, presos pelas artimanhas dos homens e pela astúcia com que eles nos induzem ao erro. Ao contrário, vivendo o amor autêntico, cresceremos sob todos os aspectos em direção a Cristo que é a Cabeça” (Ef 4,14-15).

Jesus, continuamente nos convoca para a prática do amor (Jo 15.12-13; Mt 5. 43-46a), do diálogo (Lc 19.1-10; Mc 7.24-30; Jo 4.1-26), do perdão (Lc 11.1-4; Jo 8.1-11), da compaixão (Lc 13.10-17; Mc 5.25-43), do convívio fraterno (Jo 4. 39-42; Jo 2.1-11). Jesus também ensina que devemos ser resistência profética contra os poderes dominadores que escravizam e subjugam (Lc 4.1-13; Mt 12.1-8; Jo14.13-21). Tendo Cristo derrotado esses poderes, todos somos livres para praticar a equidade, a inclusão e a unidade na diversidade (TB 132).

Construir pontes, destruir muros...

Em nossa sociedade, infelizmente temos visto crescer os muros que separam os povos, como na fronteira dos Estados Unidos com o México. Os muros do racismo que ignoram as raças escravizadas e querem perpetuar a submissão de negros e índios. Os muros da indiferença que geram bolhas sociais em que não se enxerga os empobrecidos, os moradores de rua, os explorados em subempregos e trabalhos semelhantes à escravidão. Os muros do medo e preconceito (xenofobia) contra os imigrantes e estrangeiros. Os muros da discriminação sexual que apelam para a violência e maus tratos contra pessoas LGBTQI+.

Diante de tantos muros torna-se ainda mais urgente o nosso testemunho cristão para, a exemplo de Cristo, sermos sinal de unidade. Se, de fato, Cristo é a nossa paz e, se de fato, agimos em Seu Nome, somos chamados a destruir os muros de divisão. Chamados a construir a unidade. Nossa missão é ser instrumentos da paz de Cristo. E não basta a paz interior, nos corações, é preciso construir a paz, a unidade, a fraternidade social, em socorro das vítimas, dos pobres, dos excluídos. Como o Papa Francisco tanto recomenda na Fratelli Tutti:  “Cristo derramou seu sangue por todos e cada um, pelo qual ninguém fica sem seu amor universal” (FT 85).

Somos convocados a uma mudança global a partir de nossa realidade local. Lutar contra as causas estruturais da pobreza e da desigualdade que é a falta de Trabalho, de Terra e de Teto. A prioridade é vida de todos e não a apropriação de bens de alguns. O amor universal indica o respeito à vida e a toda pessoa humana, iguais em dignidade. Daí a importância da caridade política e social para promover a amizade social (FT Cap. V). E usar de todos os meios para evitar a injustiça da guerra (FT 256-262) e a pena de morte (FT 263-270). Afinal, se Cristo é a nossa paz, temos de ser instrumentos de paz.

APROFUNDAMENTO: Temos usado os meios políticos e sociais para construir pontes ou para reforçar muros entre nós? Em que podemos melhorar?

 

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