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08/01/2020 Enrico Casale Edição 3918 Cristãos do Egito Religião
F/ Omnis Terra
"A história dos cristãos do Egito é antiquíssima. "

 

 

Os coptas representam a minoria cristã que Há século vive ao longo das margens do Rio Nilo e que, apesar das discriminações, dos direitos civis negados (em todo ou parcialmente), construiu o Egito moderno. Herdeiros da pregação de São Marcos, sua história é ainda mais antiga e se enraíza no antigo Egito.

 

Uma história de discriminações

A história dos cristãos do Egito é antiquíssima. De fato, os coptas são os herdeiros dos antigos egípcios que se converteram ao cristianismo a partir do século I, graças à pregação de São Marcos. Até o século VII, a comunidade foi majoritária no Egito. Com a chegada dos árabes e do Islã, iniciou-se para os coptas uma difícil convivência, feita de períodos de relativa liberdade, alternados com anos de duras repressões.

A situação não melhorou com a independência do Egito. Sob os governos de Anwar Sadat e Hosni Mubarak, a Igreja viveu um período particularmente difícil. Foi Anwar Sadat que inseriu na Constituição a Sharia (lei islâmica) como fonte do direito egípcio. Foi uma jogada para atrair as graças dos grupos mais extremados do Islã político (que, no entanto, não o pouparam, matando-o em um atentado no ano de 1981) e que penalizava os coptas.

Com a chegada de Hosni Mubarak, sua situação não melhorou. Mubarak fechou todas as portas aos fundamentalistas, dedicando os primeiros anos de sua presidência, até os anos 90, a persegui-los. Ao contrário, mantinha-se a porta aberta em relação à fé islâmica comum, e para os coptas a vida não era simples. Era difícil, senão impossível, construir ou mesmo restaurar uma igreja, porque era necessário o “nada consta” da polícia, que não o emitia facilmente.

A própria polícia prendia os muçulmanos que se convertiam. Muitos policiais estavam envolvidos no rapto de moças coptas, organizados para convertê-las (indo contra a lei, que previa e prevê que qualquer conversão só possa ocorrer depois dos 18 anos de idade). Os muçulmanos que atacavam as igrejas ficavam impunes. “O presidente - observa Girgis, um expoente da Igreja Copta que pede para ser mantido no anonimato – deixava mesmo que os coptas sofressem as opressões e discriminações mais evidentes, sobretudo em nível social. Foram anos muito duros.”

 

Esperança e desilusão

A Primavera Árabe que explodiu em 2011 representou uma grande esperança para a comunidade e para a Igreja Copta ortodoxa. Quando explodiram os protestos contra o presidente Hosni Mubarak, os cristãos foram a campo junto com os muçulmanos. Ambos os grupos pediam a queda do raiss. “A melhor parte do mundo muçulmano e do mundo cristão - recorda Awad, jornalista cristão – lutava por uma mudança real da sociedade egípcia. Queriam um país em que os grupos religiosos convivessem sem conflitos, juntos, como cidadãos de um único pais, o Egito. Mas logo veio a ducha fria.” Em 2011, as forças policiais reprimiram duramente uma manifestação de cristãos no bairro Maspero, matando 26 manifestantes. Naquela repressão, muitos perceberam uma tentativa das autoridades militares de sufocar o protagonismo dos egípcios de fé cristã.

Mas foi com a chegada de Mohammed Morsi que os coptas correram os maiores riscos. O projeto da reforma constitucional promovida pelo presidente deixava-os em uma posição de inferioridade em relação aos muçulmanos, mas também punia os leigos e os muçulmanos que não se reconheciam na visão totalizante do Islã proposta pela Fraternidade Muçulmana, que apoiava Morsi. Assim os coptas se uniram aos numerosos egípcios descontentes que saíram às ruas para contestar Morsi.

 

O amigo Sisi

A chegada ao poder de Abd al-Fattah al-Sisi representou um momento de mudança. Prontamente o general estendeu a mão aos coptas. Na noite da deposição de Morsi, ele se apresentou na televisão tendo ao lado Ahmad al Tayyib, Imã de al-Ahzar, a máxima instituição do mundo islâmico sunita, e de Tawadros II, Patriarca de Alexandria e guia da Igreja Copta ortodoxa. Era como se al-Sisi quisesse dizer que pretendia unir o país, e que não queria discriminações entre cristãos e muçulmanos.

De fato, o novo presidente começou a ditar numerosas leis, decretos e regulamentos para favorecer a construção de igrejas e locais de reunião. “Recentemente – explica Alessia Melcangi, docente de História Contemporânea do Norte de África e do Oriente Médio na Universidade Sapienza, em Roma – al-Sisi autorizou a construção de dezenas de igrejas cristãs. Um fato extraordinário, até pouco tempo impensável. Este é o sinal claro de sua vontade de aproximar relações de amizade com os coptas. Assim como sua presença na missa do Natal, coisa que jamais acontecera com seus predecessores.”

Al Sisi interveio também no plano cultural, procurando eliminar a visão wahabita do Islã, estranha à tradição egípcia e portadora de intolerância e violência. A seguir, favoreceu os estudos teológicos islâmicos, fazendo pressão sobre al-Azhar para que fossem aprofundados os aspectos mais abertos e tolerantes do Islã.

Mas a violência em relação aos cristãos não foi interrompida. As igrejas continuaram a ser atacadas, queimadas ou demolidas. Em 11 de dezembro de 2016, um atentado contra a catedral do Cairo teve 25 mortos. Em 9 de abril de 2017, dois atentados, o primeiro diante da igreja de Mar Grigis, em Tanta, e o segundo à frente da igreja de São Marcos, em Alexandria, provocaram 45 vítimas.

“Isto mostra – observa Awad – que a violência em nossas relações não desapareceu. E que, embora al-Sisi tenha prometido maior controle e mais proteção, nós ainda estamos na mira dos fundamentalistas.”

 

Os coptas em transformação

A Igreja Copta, porém, está passando por uma profunda transformação em seus próprios fiéis. Desde sempre, os coptas são ligados à sua hierarquia (bispos, monges, sacerdotes). “É um vínculo sólido, às vezes até excessivo – sublinha Yousseh. No passado, para os fiéis o clero era tudo. Dependiam do clero para qualquer coisa: pediam ajuda material, conselhos e escuta nos momentos difíceis, orientações no campo político e econômico. Hoje, essa “confiança total” vai-se reduzindo. Os coptas ainda participam em massa das funções religiosas, mas muitos estão cortando o cordão umbilical com a hierarquia.”

Em especial os mais jovens começam a ser indiferentes às orientações eclesiásticas no campo político e econômico. Movem-se por conta própria, reivindicando sua condição de cidadãos egípcios que trabalham na sociedade para fazê-la crescer. Inspiram-se nos valores cristãos, mas sem ligações vinculantes com a Igreja.

“Antigamente – observa Alessia Melcnagi – a parte mais jovem e ativa da comunidade pedia à hierarquia que limitasse seu raio de ação à dimensão espiritual e se desinteressasse das questões políticas. A subida de al-Sisi ao poder, porém, embaralhou as cartas. Tawadros II, o Patriarca de Alexandria, apoiou e apoia o general, e tomou para si o papel político que sempre foi assumido pelos Papas coptas. Em al-Sisi, Tawadros e a hierarquia veem uma proteção diante do mundo muçulmano mais extremista.”

Neste posicionamento, a Igreja Copta ortodoxa não é muito diferente das outras Igrejas cristãs no Oriente Médio e no Norte da África. O líder político, seja ele democrático ou não, é considerado como uma garantia contra o desaparecimento do cristianismo na região. Os jovens coptas, porém, querem libertar-se desta condição de proteção. Veem no vínculo direto com o raiss uma reedição moderna da condição dos “dhimmi”, isto é, cidadãos de classe B em uma sociedade islâmica.

“Os jovens coptas – conclui Alessia Melcangi – têm como prospectiva futura a afirmação de um Estado de direito no qual os cristãos, muçulmanos e judeus possam viver juntos com direitos iguais. O próprio fato de que a Constituição assegure à minoria copta alguns postos no Parlamento é visto como uma agressão ao conceito de Estado de direito. Terão sucesso em sua tentativa? É difícil. O status quo agrada a todos. As hierarquias eclesiásticas se sentem seguras. O presidente oferece amizade, mas não ousa realizar profundas reformas democráticas.”

Fonte: Omnis Terra

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