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15/05/2020 Wilson Augusto Costa Cabral* Edição 3924 Covid-19: Tempos de Amar. Mas como?
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"O novo mundo criado pela realidade do Covid-19 trouxe à tona dilemas que precisam sem superados. O maior e mais forte deles é o dilema ECONOMIA versus SAÚDE, ou ECONOMIA versus VIDA. "

 

 Os albores de 2020 trouxeram consigo aquela que já pode ser considerada a maior crise humanitária do mundo contemporâneo. Muitos podem dizer o contrário invocando as grandes guerras; a gripe espanhola; as epidemias crônicas, como dengue, malária, cólera... Contudo um vírus da família dos coronavírus, surgido na china, mais precisamente na província de Wuhan no final de 2019, rapidamente atingiu o mundo inteiro, tornando-se uma ameaça para a humanidade.

Mesmo em tempos de comunicação instantânea, da rapidez da internet e da fácil interação mundial através das redes sociais, as primeiras notícias findavam perdidas em local de menor destaque nos portais de notícias, ou dentre aos muitos assuntos dos telejornais. Certamente um menosprezo. Mais um vírus em outro continente, distante de nós que ceifará algumas vidas. Algo dentro da normalidade do curso normal da vida. No entanto os casos foram aumentando... rapidamente outros países asiáticos notificaram a doença, seguidos depois da Europa, onde a Itália tornou-se seu novo epicentro. Depois Espanha, Estados Unidos, Brasil...

Na perplexidade da ausência de uma vacina, na escassez de equipamentos, sobretudo respiradores, necessários para salvar vidas, no esgotamento das EPIs – Equipamentos de Proteção Individual – para os profissionais de saúde, paralelo a um crescimento vertiginoso do número de infectados, o mundo se viu diante de um imperativo: o isolamento. Em questão de semanas, as pessoas foram confrontadas com um novo mundo. As medidas de isolamento tardiamente aplicadas em alguns países com consequências terríveis para sua população, tornaram-se a única possibilidade de salvação para milhões de vidas. A OMS – Organização Mundial da Saúde – conhecedora dos sistemas de saúde de todo o mundo entendeu rapidamente que o melhor caminho para que se evitasse o colapso desses sistemas, que implicaria no não atendimento às pessoas e às perdas de vidas humanas era o isolamento. No Brasil não foi diferente.

 Amar em tempos de Covid-19

O novo mundo criado pelo Covid-19 trouxe um elemento de revelação dos corações. Estávamos já habituados pelo amor “à la Instagram” ou “à la Facebook”, no qual as declarações muito elaboradas de amor se mostravam vazias de sentido e de atitudes de verdadeiro amor. Muitos dos idosos, agonizantes na solidão de seus lares na Itália povoavam perfis de filhos e netos, com declarações de amor, mas viviam solitários, e assim permaneceram até o fim.

O mundo do caos do Covid-19 obrigou, portanto, a humanidade a recriar o amor em novas atitudes, em novas formas de amar. Isolar-se tornou-se uma atitude de amor. Fazer-se presente de outros modos, tornou-se uma atitude de amor. Ir ao mercado ou à farmácia para alguém que se encontra em grupo de risco é uma atitude de amor.

A Igreja do Brasil, este ano, está em plena Campanha da Fraternidade com o tema: “Fraternidade e vida: dom e compromisso” e o lema: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10,33-34). Também ela, a Igreja teve de recriar seu agir. A própria defesa da vida exigiu esvaziar templos. As celebrações, inclusive da Semana Santa, foram em templos vazios. Tornou-se necessário buscar novas formas de evangelização. Uma nova realidade exigiu novas formas de ver, de sentir compaixão e de cuidar!

 Como amar? Como agir?

O novo mundo criado pela realidade do Covid-19 trouxe à tona dilemas que precisam sem superados. O maior e mais forte deles é o dilema ECONOMIA versus SAÚDE, ou ECONOMIA versus VIDA. As medidas de isolamento têm um grande impacto sobre as atividades do mercado. Este revelou-se imediatamente com sua faceta mais perversa, colocando seus soldados da morte a insuflar discursos quanto à normalidade, mais uma vez, da necessidade do sacrifício de muitas vidas para o bem da economia. Mais uma vez Moloc exigindo o sangue inocente. Por outro lado, a defesa da vida exige atitudes simples. Ficar em casa! Abrigar os sem-teto! Cuidar dos que são abandonados!

Para muitos o ficar em casa pode parecer um remédio simples demais. Será eficiente? O Segundo livro de Reis – 2Rs 5,1-27 – narra a história de Naamã, poderoso general do exército da Síria. Ele havia contraído lepra, ao saber da fama de Eliseu ele vai até o profeta para ser curado. Para sua surpresa, Eliseu ordena que se banhe no Jordão. O “remédio” pareceu simples demais para Naamã e ele se recusava a entrar no rio. Somente diante da insistência de seu servo que ele o fez e se curou. Como no caso de Naamã, ficar em casa pode parecer simples demais... o passar do tempo pode tornar esse gesto ainda mais difícil. Mas faz-se necessário! O cuidado com os idosos e enfermos, a atenção às suas necessidades, como resolver suas necessidades de sair, manifestar-se-á como gesto de profundo amor.

Também será por amor que temos que nos opor a quaisquer manifestações de defesa da economia que não respeite e cuide da vida. Verifica-se pessoas com boas condições de vida, automóveis caros, redes de comércio em sua propriedade alegando que passarão fome caso as medidas de isolamento durem mais tempo.

Todos perderão! Isso é um fato! Mas cada vida, cada pessoa é mais importante que fortunas que serão perdidas. Cabe ao Estado, cabe aos governos, cabe a cada cidadão em sua responsabilidade ético-política defender a vida. E assim o faremos como “bons soldados de Cristo” (2Tm 2,3), amando e agindo na compaixão e no cuidado com os irmãos.

 

* Doutorando em Ciências da Educação. Professor no IFES de Ibatiba-ES

 

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