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14/06/2020 Robson Ribeiro de Oliveira Castro Edição 3925 COVID-19 e a banalização da morte
F/ Pixabay
"Não podemos nos acostumar com as mortes, nem ignorar as vítimas desta pandemia."

Robson Ribeiro de Oliveira Castro*

 A cada dia vem crescendo o número de mortos pelo novo “Corona Vírus”. O Brasil já tem mais de 1000 mortos por dia, Os corpos vitimados pelo vírus vão se avolumando e a contagem chega a índices alarmantes.  O número de mortos denuncia a fragilidade do ser humano. É impossível ignorar a notícia de que chegamos a uma morte por minuto. Nesta realidade o termo “banalidade do mal” da filósofa política alemã, de origem judaica, Hannah Arendt, é imprescindível para que possamos entender o que acontece com a nossa sociedade. Não são apenas números, são vidas humanas, histórias de vida, família, trabalho... Quem são essas pessoas? Como elas serão lembradas?

 

Pela valorização da vida

Hannah Arendt, cunhou o termo “banalidade do mal” e nos propõe um debate ético e moral a respeito do mal. Em nosso contexto, mais do que nunca, esse termo é propício para analisar o enfrentamento ao “Corona Vírus”, sobretudo pelo descaso diante das mortes que aumentam a cada dia.

Nosso caminho deveria ser trilhado na direção do desenvolvimento com os outros, na abertura ao próximo, na acolhida da sua dor. Pois, é na trajetória da sua vida, partilhada e compartilhada no mundo, que o homem estabelece relações e constrói sua história. Entretanto, muitas pessoas se encontram fechadas em seu individualismo e egoísmo.

O Brasil tem se mostrado despreparado para enfrentar essa realidade do “Corona Vírus”. Apesar dos esforços de muitos profissionais da saúde e da parte mais consciente e responsável das autoridades públicas, ao invés de medidas efetivas de prevenção nos deparamos com a postura euivocada que ignora a gravidade dos problemas e se esforça para escondê-lo, maquiando os números de mortos. A leitura atenta de Hannah Arendt nos ajuda a refletir sobre as dificuldades que enfrentamos e o caminho para a exaltação da violência em detrimento à vida humana.

Não podemos nos acostumar com as mortes, nem ignorar as vítimas desta pandemia. As dores dos que perderam algum membro da família na atual pandemia e as injustiças, corroboram para um aumento da agonia. Não podemos negar os fatos e é preciso ter presente a dignidade da vida humana: as vidas importam. Ela está sendo desprezada diante do descaso a que está sendo submetida. Não é possível viver e agir, com dignidade, sem antes refletir sobre a nossa existência e dar a devida importância à vida diante da ameaça que enfrentamos.

A vida é o dom mais precioso que nos foi doado. Hoje, diante dessa pandemia, temos de lutar por pela vida. Ela não pode ser tratada como uma mercadoria, como algo descartável diante da lógica capitalista. A vida não pode ser reduzida a uma moeda de troca, não pode ser instrumentalizada pela visão consumista, antiética, de um capitalismo que só visa o lucro e negligencia os direitos humanos.

 

A responsabilidade moral de nossos atos

O Documento de Aparecida, no seu número 44, nos apresenta uma realidade importante: “vivemos uma mudança de época, e seu nível mais profundo é o cultural. Dissolve-se a concepção integral do ser humano, sua relação com o mundo e com Deus”. Mas, estamos atentos a esta realidade e certos de vivermos uma mudança estrutural e cultural? Pois, o descaso para com as mortes pelo novo “Corona Vírus” denuncia uma sociedade brasileira fria e calculista, que não se incomoda com os milhares de mortos.

A exclusão, por qualquer que seja a categoria, não condiz com o respeito e ao amor anunciado por Cristo. É importante ter presente a realidade da vida e nossa condição humana. Somos interdependentes, nosso destino no mundo é comum, somos desafiados a aprender a viver e conviver como irmãos, alargar a solidariedade humana, na busca da dignidade de vida para todos. Aprender a olhar para todos os que sofrem com misericórdia, ser capaz de sentir por dentro a dor do outro e descobrir formas de sermos solidários. Para uma mudança é preciso vencer individualismo, não fechar-se em si mesmo, mas abrir-se solidariamente aos sofredores.

A parábola do Filho Pródigo revela o rosto de um Deus misericordioso. Um pai que espera filho chegar, independente da sua condição e dos atos que tenha praticado no passado. A parábola é um apelo a rever nossas relações humanas e sociais para que sejam pautadas no caminho da ética, como cristãos autênticos e não somente por uma aparência superficial, fruto de uma fé que já se mostra morta, pois carece de atitudes de defesa e preservação da vida. Assim, as políticas públicas e demais iniciativas devem buscar soluções para os problemas que vão surgindo, ou seja, a preservação da vida deveria ser o primeiro objetivo político do Estado e da sua gestão.

Nossas obras devem falar por nós e nos colocar na linha de frente de defesa da vida em qualquer situação em que ela esteja ameaçada. Deve fazer-nos solidários diante do sofrimento de homens e mulheres ameaçados de morte pelo “Corona Vírus”. Que as mortes não sejam tratadas apenas como números, são vidas humanas, pessoas que tiveram suas vidas abrevidas pela pandemia. Que esta triste realidade acenda em nós a atitude ética e solidária de socorro aos ameaçados. Não sejamos indiferentes diante da morte. Se somos filhos de Deus, somos irmãos. A liberdade e a responsabilidade de nossos atos tem que ser pautada no amor. A solidariedade é que dirá se, fato, somos irmãos.

 * Mestre em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); Professor do Instituto Teológico Franciscano (ITF); Professor do Instituto Teológico Arquidiocesano Santo Antônio (ITASA); Editor-gerente da Revista RHEMA, Revista de Filosofia e Teologia do Instituto Teológico Arquidiocesano Santo Antônio.

Veja também: O corona vírus e a ética da responsabilidade

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