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12/06/2020 Joan Planellas Edição 3925 Coronavírus, apelo a novos métodos pastorais Arcebispo Metropolitano de Tarragona – Espanha
F/ d.arede
"Diante da pandemia: o que temos de fazer? Como podemos ajudar? Como cristãos, estamos fazendo o que é correto?"

Joan Planellas*

 O corona vírus perturbou nossas vidas. Ficamos com uma dose de incerteza, preocupação e angústia, especialmente quando percebemos a grave crise de saúde que ela implica. Como um cavalo de Tróia da Eneida de Virgílio, ele se infiltrou em nossas paredes de bem-estar e em nossas fortalezas aparentemente intransponíveis. Neste ano, a natureza nos obriga a uma espécie de Quaresma imposta a todos, e também com a incerteza de não saber quando a alegria da Páscoa realmente chegará.

 Forçados a buscar alternativas

Eu me apoio em uma reflexão que circulou atualmente na Itália de uma psicóloga chamada Francesca Morelli. O universo veio nos dizer que ele tem o seu jeito de recuperar o equilíbrio das coisas de acordo com suas próprias leis, especialmente quando elas são alteradas. Numa época em que as mudanças climáticas atingem níveis preocupantes, em uma era baseada na produtividade e no consumo, somos forçados a ficar em quarentena, à necessária reclusão, a permanecer quietos.

Em um momento em que certas políticas e ideologias discriminatórias pretendem nos fazer voltar a um passado vergonhoso, aparece um vírus que nos faz experimentar que num piscar de olhos podemos converter nós mesmos, em discriminados, naqueles que podem viajar, cruzar fronteiras, naqueles que, precisamente, são os transmissores de doenças.

Em uma época em que a educação dos filhos foi entregue a outras figuras e instituições, somos forçados a fechar as escolas, a interromper a catequese e somos forçados a buscar soluções alternativas, retornar ao pai e à mãe, retornar ao ser família. Numa época em que o pensamento individual converteu-se em uma norma, nos é dito que a única saída do atoleiro é nos unirmos, acordar em nós o sentimento de ajudar os outros, fazer parte de um grupo, ser coresponsáveis uns com os outros.

É preciso refletir sobre o que de bom podemos obter de toda essa situação. Parece que a humanidade está em dívida com o universo e suas leis. É o que essa pandemia nos vem nos dizer, embora a um preço muito alto. O que podemos aprender com este evento que está abalando a nossa vida? Certamente, pelo que estamos passando nestes dias, pelo que somos obrigados a fazer, podemos aprender uma lição de austeridade. O fato de estamos confinados, com muitas atividades suspensas, pode se tornar um apelo para buscar a riqueza de uma verdadeira sobriedade, que nos leve ao mais profundo e autêntico de nós mesmos e dos outros.

 Um outro modo de viver

Há uma outra maneira de viver, é o que ela vem nos dizer. Um modo de vida mais simples, mais sóbrio e mais austero. A pobreza e a fragilidade do nosso planeta, não são duas faces da mesma realidade que pode ser chamada de insolidariedade? É o que o Papa Francisco afirma em sua carta encíclica Laudato Si´, que em maio fez cinco anos: "O desafio urgente proteger nossa casa comum inclui preocupação de unir toda a família humana na busca pelo desenvolvimento sustentável e integral. O Criador não nos abandona, nunca voltou atrás em seu projeto de amor, não se arrepende de nos ter criado” (nº 13). Por isso, o Papa faz "um convite urgente para um novo diálogo sobre a maneira como estamos construindo o futuro do planeta. Precisamos de um diálogo que nos una a todos. Precisamos de uma nova solidariedade universal” (nº 14).

Contudo, no momento, além de uma reflexão mais profunda sobre a pandemia que nos atingiu, nos invadem muitas outras perguntas mais diretas que se encontram, realmente, no meio ambiente, no coração dos próprios cidadãos: o que temos de fazer? Como podemos ajudar? Como cristãos, estamos fazendo o que é correto?

A pastoral sacramental foi modificada em diferentes dioceses enquanto durar a atual situação de grave crise de saúde: o preceito da missa dominical foi dispensado, foram suspensas as celebrações da Eucaristia com a participação dos fiéis, as exéquias estão sendo celebradas de forma simplificada, deixando os funerais para mais tarde e outras celebrações estão sendo adiadas como as de batismo e casamento.

 Novas iniciativas pastorais

Mas não podemos simplesmente ficar parados com essas disposições, a situação deve nos servir para criar novas iniciativas pastorais:

1. É possível oferecer a missa pelas redes sociais, ainda que celebrada de portas fechadas, bem como comentários à Palavra de Deus ou outras várias formas de orações.

2. É um momento oportuno para estar perto daqueles que sofrem ou têm alguma dificuldade, mesmo que seja apenas porque se sentem sozinhos e angustiados. Você pode fazer uma ligação para os doentes, os idosos que não podem sair de casa ou para aqueles infectados pela doença. Às vezes, basta escutar ou dar uma palavra de conforto e de ânimo. As novas tecnologias são de grande ajuda para isso e são úteis para continuar acolhendo e servindo a todos.

3. É conveniente ter igrejas abertas para que as pessoas que desejarem possam orar, respeitando sempre as recomendações das autoridades de saúde. Uma boa oração, feita na igreja ou no mesmo em casa, pode ser a "comunhão espiritual" que, de alguma maneira, supre a ausência do pão eucarístico.

4. Ter ainda um cuidado especial com os mais fracos, sem ignorar o apelo para “não deixar abandonados os "amigos" sem-teto. Ter uma atenção especial para com eles, buscando soluções mais adequadas às suas necessidades.

5. Criar novas iniciativas catequéticas, buscar propostas destinadas aos meninos e meninas da catequese, bem como a seus pais e família. Elas podem ser baseadas no Evangelho de domingo. Seria uma boa maneira de rezar juntos e compartilhar a fé na família e ao mesmo tempo estar em comunhão com toda a Igreja.

6. A oração do Angelus (Anjo do Senhor) todos os dias às 18 horas. Os sinos da igreja tocando para convidar as pessoas a orar, é uma demonstração de solidariedade com todos aqueles confinados em sua casas e de agradecimento à generosa doação de todos aqueles que trabalham para cuidar e combater a epidemia de “Corona vírus”.

Nestes dias de dolorosa provação, a Igreja Católica quer oferecer oração e esperança, em favor das pessoas afetadas, e assim tornar sensível a presença do Senhor que salva e acompanha seu povo. O Senhor que anima a todos os cristãos a perseverarem em oração de súplica, para que logo esse terrível medo seja superado. Que a reclusão em casa possa ser um bom momento para o recolhimento e a oração. É também um momento ideal para a leitura da Palavra de Deus.

Que este isolamento social nos leve a uma maior conversão ao Deus de Jesus Cristo e nos dê um olhar mais atento aos irmãos, especialmente aos pobres e enfermos, que se convertem em presenças vivas de Cristo entre nós.

 

Arcebispo Metropolitano de Tarragona – Espanha

 

Fonte: PHASE: Revista de Pastoral Litúrgica, Barcelona: Espanha. n. 356 - Extra 2020, p. 295-299. (Trad. DMS)

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