Variedades Crônica
16/02/2020 Maria   Edição 3920 Coração sineiro
F/ doorsabarefieldparish.ie

 

Não adianta.

Tento entrar no redemoinho das mil notícias que me oferecem bons motivos para uma crônica. Não adianta...

Quando penso: oba, vou falar sobre os chegadeiros de outras pátrias, falar do sofrimento deles, do olhar triste das crianças, meu coração reclama:

- Deixa isso para os (des)entendidos de política, você não sabe nada do assunto... Fala do que você viveu, do que você tem certeza...

Aí, eu penso:

- Meu Deus, estou tão fora de moda! Estou tão desusada! Preciso atualizar-me, falar um pouco de inglês, de francês, talvez arranhar um mandarim... Preciso atualizar minhas roupas, tão de vovó, quem sabe, escrever versos...

Mas não adianta...

Meu coração me dá um aviso:

- Já te falei, você não sabe nada disso, para que enfiar os pés pelas mãos? Deu certo até agora, sossega o pito!

Fico com cara de fada, com o coração meninando, com as ideias do Pensamento Azul, o menino-velho lá de Estrela...

Olho pela janela, o céu acabou de tomar banho, há carneirinhos anelados brincando... Imagina se vou pensar em barragens rompidas, em alagamentos e trovões?! Com um céu desses lá fora e eu deixando de contar sobre tanta beleza? É um descompasso total...

Penso no quintal, tão fresquinho, com um povinho tão feliz morando lá! Ainda mais agora que D. Pata chocou oito patinhos! As angolas, com o vestidinho de chita limpinho da chuva, cantando o tofraco em todos os tons...

Os garnizés brigando miudinho com todos os galos do pedaço... Imagina se dá pra escrever sobre os preços abusivos?!

Não dá!

Mas eu preciso escrever modernidades, pra ninguém descobrir que tenho 82 anos e já sou bisavó...

Mil desculpas, leitores e dirigentes da Revista. Culpado é o meu coração antiguinho, que não me deixa tentar o sucesso...

certo, entrego os pontos: vou continuar desusada mesmo, do jeito que sei viver...

Então, apesar das tragédias, raios e enchentes e óleo negro encharcando as praias, o Natal continua eterno: o Jesusinho teima em nascer, a estrela-guia não desiste de brilhar, os Pastores continuam a cuidar das ovelhas...

Apesar das queimadas, apesar da falta de merenda para os meninos da escola, o Natal continua eterno: uma Virgem acalenta o Deusinho no berço de palhas, São José vela o sono dos dois e aquela vaquinha de mais de 300 anos aparece novinha para esquentar o Menino. Até o burrinho que sumiu o ano todo, apareceu para oferecer seus préstimos para a família divina...

Como vou pensar nos golpes modernosos que humilham e envergonham nosso povo, se as latinhas de arroz que plantei estão crescendo para enfeitarem meu presépio? Como vou falar dos netos de todos os avós, que estudam, têm mil diplomas e não têm uma vaga de emprego? Como?

Em vez disso, fico pensando no musgo aveludado que vai atapetar o caminho dos três Reis Magos na minha sala...

Continuo com cara de fada, querendo ser atualizada, falar de notícias tristes, do pré-sal... Mas meu coração prefere continuar menino e esperar a Missa do Galo para cantar “Noite Feliz” com quem ainda vive o Natal...

Pois é. Desculpem a Maria. Bem que ela tenta ser mais "prafrentex", como dizem seus netos, mas há mil belos motivos pra ela continuar a ser desusada e... feliz!

Tudo culpa de um certo coração que carrego no peito, como um sino de Belém...

Ah! Coração sineiro!

 

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