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20/11/2020 Travis Knoll Edição 3930 Contra o racismo, a favor da vida para todos João Carlos Pio de Souza - um testemunho.
F/ Youtube AFRODOM
"Diariamente, vemos outros "Georges Floyds" se tornarem vítimas de um forte racismo, ainda presente no Brasil e no mundo. Os que negam a existência do racismo terminam por fortalecê-lo, até mesmo a incentivá-lo... "

Travis Knoll*

Críticos nesta revista têm lamentado os religiosos que vão para Roma e voltam mais romanos do que brasileiros. É um risco real, mas nem todos que passam por essa trajetória se clericalizam. Exemplo disso é João Carlos Pio de Souza, que ao lado de outros, voltam ao país de origem, vão estudar nas periferias e depois se casam e se tornam pontos de apoio e estímulo para os movimentos sociais locais e nacionais.

Eu entrevistei o João Pio em maio de 2019 para conhecer sua extraordinária trajetória. Encontrei-me com ele na Baixada Fluminense, onde realizei a maior parte da minha pesquisa durante a estadia no Brasil, ele ainda é referência no congado local da Comunidade dos Arturos. Sua trajetória lembra o grande arco da história pelo qual passou o Brasil, no último meio século. Nasceu no fatídico ano 1964, em uma família de sindicalistas que viveu no aglomerado da Serra. Seu pai era tesoureiro do Sindicato de Metalúrgicos, em Belo Horizonte. Ele não lembrou a discriminação referente à questão racial na sua família, enfocou mais os assuntos operários – embora tenha tocado no tema mediante conflitos com pessoas do bairro.

Das periferias para Roma

Ele lembra, sim, do despertar de sua consciência nos cantos alheios da biblioteca escolar. “Pedia a bibliotecária e via lá Luther King, Malcom X. Foi quando pedimos uma publicação famosa de mil novecentos e setenta ou setenta e dois, sobre Zumbi dos Palmares que tava lá no fundo da biblioteca[?]. E em sala de aula a gente começava, dentro do que era possível, a questionar os professores.” Depois lembra da militância nas Comunidades Eclesiais de Base, no Grupo União e Consciência Negra, formado depois da reunião dos bispos latino-americanos em Puebla, no México (1979) e a aprovação na Assembleia Geral do CNBB das diretrizes, nesse mesmo ano, sobre a necessidade dos bispos brasileiros entenderem melhor a realidade do negro no Brasil (Resolução da XVII Assembleia Geral da CNBB (abril 1979; “O Lutador” 10-16/11/1985, p. 12).

João Pio começou a atuar como Agente da Pastoral Negro (APN) em 1985, depois de uma reunião nacional coordenada pelo padre Antônio Aparecido da Silva (Pe. Toninho), então diretor da Faculdade da Teologia da Assunção em São Paulo. Nesse congresso também conheceu pessoas que se tornariam importantes filósofos, como Helena Teodoro Lopes. Também em 1985  assistiria um evento dos APNs na  Paróquia Nossa Senhora do Loreto, no Rio, onde conheceria   jovens negros  e negras, católicos militantes desse estado como: Silvia Regina da Lima Silva, Frei David Raimundo dos Santos, Sebastião de Oliveira e José Geraldo da Rocha. Tudo isso enfrentando resistência do Arcebispo Dom Eugênio Sales, que não acolheu o tema, já estabelecido, da Campanha de Fraternidade de 1988, “A Fraternidade e o Negro.” No seu lugar, colocaria: “Muitas cores, um só povo". João Pio acabou sendo coordenador dos APNs na virada do século, presenciando os primeiros debates de como implementar ações afirmativas no ensino básico e médio público, assim como no ensino superior.

Entrando no seminário, João Pio acolheu rapidamente a religiosidade popular e se envolveu ainda mais na Comunidade de Arturos. Mediante um convocatório aoss seminaristas para irem a Roma estudar, ele foi para a Pontifícia Universidade Gregoriana. Aí estudou de 1989 a 1992. Ele lembra que os estudantes e professores dessa instituição ficaram de olho nos jovens seminaristas brasileiros, devido à fama que tinham, na época, de abraçar a Teologia da Libertação. Não era preocupação alheia. Leitores desse jornal talvez lembrassem do ceticismo do antigo editor Pe. Paschoal Rangel para com essa corrente. João Pio não completou sua formação religiosa e veio a casar-se com Anaíse Souza, também líder dos Agentes de Pastoral Negro em Minas Gerais (Cf. “Cadernos da Cidadania” 21-30/11/03, p. 3; Cf. Jornal de Opinião 13-19/02/95, p.7).

Retorno às periferias e engajamento contra o racismo

Atualmente João Pio é praticante do Candomblé. Ele pensa que mesmo a  proposta de inculturação por parte da Igreja não consegue libertar o catolicismo do seu foco europeu. Participante ativo no Congado de Arturos, não é pouca a sua contribuição à fé. Assistindo à comemoração do 13 de maio em 2019 eu notava variações em canções edificantes, tradicionalmente católicas como: "A Barca” e "Meu coração é só de Jesús". João pio continuou sua formação em instituições católicas, fez o mestrado pela PUC-Minas, escreveu sobre a aplicação da Lei  10.639/2003 em duas escolas municipais de Contagem. Na dedicatória de sua dissertação destacou: "Dedico essa dissertação[...] a todos os  malungos  e  as  malungas  APNs de  todo  o  Brasil,  com  os  quais  na  raça  e  na  fé caminho na certeza da construção do grande Quilombo Brasil". Além do engajamento plurireligioso, ele tem uma trajetória notável no serviço público. É professor e atua na Coordenadoria de políticas para a Igualdade Racial na Secretaria de Direitos e Cidadania de Contagem.

João Pio tem esperança que as novas gerações discutam, mais abertamente, as questões de raça, mas lamenta que a fé popular, ainda em nossos dias, gere preconceitos. “Em todos os Congados há conflitos, a comunidade não participa, é coisa do povo, é coisa de negro então é macumba, né, toda visão do preconceito do racismo, está instalado.” Eu mesmo notei esse tipo de visão em relação às celebrações do congado de 13 de maio nos anos 2018 e 2019. Lembro primeiro a resistência da paróquia mais próxima de permitir a celebração dentro da Igreja. Ouvi algumas queixas sobre os foguetes lançados em cada parada que levantava um novo mastro. Essa queixa não era só desse ano, pois apareceu num post público no site da comunidade. A pessoa queixava-se do “barulho” dizendo que tinha família e que não conseguia dormir. Eu duvido muito que teria reclamado da mesma forma caso fosse uma comemoração de um time de futebol. Ainda que não fosse fã, teria aguentado em silêncio.

Anseios e esperanças

Espero um mundo em que as pessoas celebrem os foguetes do festejo dos congados, com a mesma liberdade das comemorações do futebol. Pois, esses primeiros não são apenas reserva da fé do povo cristão brasileiro, mas uma lembrança da luta e libertação (ainda incompleta) de um povo. Espero um mundo em que as missas comemorando o Dia da Consciência Negra, com licença do Vaticano, não sejam canceladas simplesmente porque intolerantes não as entendem. As "missas afro" merecem o mesmo respeito que o Te Deum,  que também aborda questões de política e de governança.

O testemunho de João Pio, na luta contra o racismo e na busca do despertar da consciência pela valorização da vida, da raça, da cultura e da religiosidade negras se tornam ainda mais evidentes diante do brutal assassinato de um negro de 40 anos - João Alberto Silveira Freitas - ocorrido na véspera do Dia da Consciência Negra (19/11/2020), em uma das lojas do Carrefour, em um Shopping de Porto Alegre - RS. Diariamente, vemos outros "Georges Floyds" se tornarem vítimas de um forte racismo, ainda presente no Brasil e no mundo. Os que negam a existência do racismo terminam por fortalecê-lo, até mesmo a incentivá-lo...  Quem tiver olhos e ouvidos, que veja e ouça o que a realidade escancara à nossa frente... Nosso anseio e esperança é que todos, sem distinção, sem preconceitos, “tenham vida e vida em abundância”.

Doutorando em história pela Duke University – EUA. Concentração na área da História da Igreja, Cultura e Política.

F/ Travis Knoll

 

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