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20/11/2020 Pe Nelito Dornelas Edição 3930 Consciência negra Com Dom José Maria Pires
F/ Arquivo O Lutador
"Eu me honro de ser negro. Sou negro no corpo e na alma."

Pe Nelito Dornelas

 Ao celebrarmos o Dia da Consciência Negra neste 20 de novembro, voltemos nossas atenções para Dom José Maria Pires, destacado arcebispo da Paraíba por três décadas. Carinhosamente conhecido como Dom Pelé e Dom Zumbi, mas preferia ser identificado como Dom Zumbi, designação que lhe fora dada por Dom Pedro Casaldáliga, quando da celebração do centenário da Abolição da Escravatura em 1988, na Serra da Barriga, em União dos Palmares, em Alagoas. Nesta ocasião fora celebrada a Missa dos Quilombos com participação de Milton Nascimento.

Quando ainda jovem padre, Dom José trabalhou como educador em Governador Valadares-MG de 1946 a 1953, cidade que nestes dias tornou-se epicentro de uma situação vexatória de racismo numa loja do shopping.

Dom José tornou-se o patriarca da Paraíba e grande defensor dos direitos humanos, da democracia e se empenhou na luta pela superação do racismo e de toda discriminação, vistos por ele como uma tortura institucionalizada, aceita socialmente. Contou-me certa vez que no seminário em Diamantina, pisou no cadarço do sapato de um colega branco, filho de família nobre. Isso foi motivo suficiente para descobrir qual era o seu lugar. O colega o ameaçou, ele reagiu, chegou o regente, separou a briga e os colocou de castigo. Os dois foram conduzidos ao diretor, e lá o regente disse: “este menino aqui é de boa família, o branco; este, o negro aqui é que não presta”. Dom José dizia ter sofrido, várias vezes, preconceito e discriminação no seminário, bem como padre e como bispo.

Contava que certa vez uma senhora lhe disse: “O senhor é um bispo de alma branca!”  Ao que Dom José respondeu: “Eu me honro de ser negro. Sou negro no corpo e na alma. Olha meu cabelo, meu nariz, meu coração só podiam ser de negro. Eu amo com coração e com alma negra. Eu me orgulho de minha cor, de mina raça”.

A Igreja, as confrarias e as ordens religiosas foram grandes proprietárias de escravos durante a colônia e o império. Enquanto os abolicionistas lutaram pelo fim da escravidão desde a Independência do Brasil, em 1822, a Igreja Católica só divulgou a encíclica do Papa Leão XIII condenando a escravidão em junho de 1888, um mês depois da Abolição.

A discriminação nos seminários brasileiros somente ocorreu após a aprovação da Lei Afonso Arinos, em 1951, a qual punia todas as atitudes de discriminação racial. Daí então as congregações religiosas retiraram oficialmente de seus estatutos e normas internas a proibição de acesso para os negros.

O número de afrodescendentes sempre foi muito pequeno no episcopado, nos altos escalões das Forças Armadas, no governo e nas universidades. Muitos na Igreja tinham dificuldades de se assumirem como afrodescendentes por medo de preconceito.

A política racista de branqueamento implantada no Brasil permitiu que um italiano, alemão, polonês pudessem formar seu grupo de danças, mas quando um grupo de negros se reúne e quer fazer suas danças, vira um escândalo. Pior ainda, é visto como bruxaria, feitiçaria.

E para terminar, uma homenagem a todos os negros e negras desta terra, com a música Orquídea negra de Jorge Mautner e Zé Ramalho.

Atenção artilheiro/ Três salvas de tiros de canhão/ Em honra aos mortos da Ilha da Ilusão/
Durante a última revolução do coração e da paixão/ Apontar a estibordo… Fogo!

Você é a orquídea negra/ Que brotou da máquina selvagem/ E o anjo do impossível/ Plantou como nova paisagem/ Você é a dor do dia a dia/ Você é a dor da noite à noite/ Você é a flor da agonia/ A chibata, o chicote e o açoite/ Lá fora ecoa a ventania/ E os ventos arrastam vendavais/ Do que foi, do que seria/ Do que nunca volta jamais/ Parece até a própria tragédia grega/ Da mais profunda melancolia/ Parece a bandeira negra/ Da loucura e da pirataria/ Atenção, artilheiro…

 

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