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15/04/2021 Luis Miguel Modino Edição 3935 Colocar as mãos a serviço... “Não adianta levantar as mãos, eu rezar para Deus, mas eu não colocar as mãos a serviço”, afirma Dom Guilherme Werlang
F/ CNBB
"Precisamos “coragem de colocar no centro a pessoa humana, num estilo de vida que rejeita a cultura do descarte”, seguindo a proposta do Papa Francisco. Ele denunciava que o mercado tem sido o critério principal para educar em muitos ambientes."

No dia 7 de abril de 2020, seis entidades brasileiras, dentre elas a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, assinavam o “Pacto pela Vida e pelo Brasil”, visando, naquelas primeiras semanas da pandemia, amenizar os impactos da pandemia e a defesa do Sistema Único de Saúde – SUS, que garante saúde pública, universal e gratuita para todos os brasileiros.

Políticas públicas sendo desmanteladas

Dom Guilherme Werlang, na coletiva de imprensa da 58ª Assembleia Geral da CNBB, que acontecia nesta quarta-feira, denunciava que “nos últimos anos as políticas públicas, que foram alcançadas com tanta luta popular brasileira e devagarzinho estão sendo desmanteladas, desacreditadas, estão sendo tirados os recursos básicos, fundamentais, para que eles possam cumprir com a sua função a sua finalidade”.

Segundo o presidente do Grupo de Trabalho do Pacto pela Vida e pelo Brasil, a vida deve ser entendida como algo interligado que vai além da vida humana. Desde o Pacto se defende a necessidade de garantir o auxílio emergencial, o atendimento pelo SUS e a segurança alimentar, uma questão fundamental num momento em que o Brasil está voltando ao Mapa Mundial da Fome. Trata-se de defender a vida e as políticas públicas que, segundo o bispo de Lages – SC, “estão sendo desmontadas”, denunciando que existe dinheiro para salvar bancos e a bolsa de valores, mas não para o auxílio emergencial, afirmando que não é possível chamar de auxilio emergencial a quantidade que está sendo destinada pelo governo. Ele fazia um chamado a lutar pelo Brasil, algo que não é possível sem defender os mais pobres.

Em 2022, a Campanha da Fraternidade, que acompanha a vida da Igreja do Brasil no tempo da Quaresma desde a década de 60, vai ter como tema “Fraternidade e Educação”. Dom João Justino de Medeiros Silva, ao apresenta-la destacava que ela tem sido pensada em sua relação mais ampla com a sociedade, pensando em todos os atores que fazem parte da educação. O lema da Campanha está inspirado no Livro dos Provérbios: “Fala com sabedoria e ensina com amor”, tendo como objetivo “Promover um diálogo sobre a realidade educativa no Brasil”.

Campanha da Fraternidade 2022

Dom Leomar Antônio Brustolin destacava a transversalidade da Campanha da Fraternidade 2022, em torno a três aspectos: pandemia, 20 milhões de brasileiros ficaram sem escola em 2020; as pedagogias de Francisco, a pedagogia da escuta, do diálogo, da proximidade e do encontro; o Pacto Educativo Global, que parte de Laudato Si´ 215, mostrando necessidade de difundir um novo modelo relativo ao ser humano, à vida, à sociedade e à relação coma natureza. O bispo auxiliar de Porto Alegre – RS fazia um chamado a se questionar sobre “a cultura e a civilização que está sendo construída neste momento de pandemia, onde até usar a máscara se torna motivo de polêmica”. Ele insistia, desde a proposta do Pacto Educativo Global, em promover “uma educação mais aberta, inclusive, capaz de escuta paciente, diálogo construtivo e mutua compreensão”.

Tudo isso, segundo o bispo, precisa “coragem de colocar no centro a pessoa humana, num estilo de vida que rejeita a cultura do descarte”, seguindo a proposta do Papa Francisco. Ele denunciava que o mercado tem sido o critério principal para educar em muitos ambientes. Também fazia um chamado a “investir nos muitos talentos que temos”, denunciando que muito talento brasileiro é acolhido no exterior e ignorado no Brasil. Ao mesmo tempo destacava a necessidade de “uma educação ao serviço da comunidade, que leve a preparar não apenas para o trabalho e sim para a vida comunitária, social, com senso de comunhão e comprometimento com a realidade”. Por isso, ele espera que a Campanha da Fraternidade de 2022 seja “uma contribuição que possa ajudar a transformar a realidade”.

Estamos anestesiados

Nas perguntas dos jornalistas, os bispos abordaram algumas questões importantes como a evasão escolar, o modo de trabalho do Pacto pela Vida, que tenta ser antenas de onde a vida está sendo ameaçada. Também foi refletido sobre questões presentes na sociedade brasileira, sobre a relação entre educação e cultura, que levava Dom Leomar a afirmar que existe um jeitinho brasileiro de ser, uma vontade de querer levar vantagem em tudo, o que “não nos levou a grandes progressos”. Ele denunciava a falta de lei no Brasil, a existência de uma sociedade polarizada, onde o contraponto se torno um inimigo a ser destruído, o uso da violência, que tem se fortalecido muito, a questão do feminicídio, insistindo em que “estamos anestesiados frente a tudo e as nossas iniquidades”, até o ponto de que “estamos nos acostumando com a violência, a corrupção, uma situação de morte”, o que demanda uma educação que defenda a vida e mude a cultura brasileira. O bispo insistia em que a cultura não está promovendo a vida, diante de tanta morte e descarte, insistindo em que a começa na família, onde se aprende o agradecimento, o respeito e a justiça social.

Se faz necessário resgatar a capilaridade da Igreja, em palavras de Dom Guilherme, que fazia um chamado a recuperar o profetismo na Igreja, pois o Brasil está polarizado dentro das igrejas. O bispo de Lages denunciava que os que assumem a verdade do Evangelho, que está fundamentada na justiça, no amor aos pobres, quando assume a Palavra de Deus, são chamados de comunistas, como acontece com o Papa Francisco, que neste domingo lembrava que a defesa dos pobres, isso é puro cristianismo. Segundo o bispo somos desafiados a retomar com radicalidade o seguimento do Jesus histórico, que nasceu na periferia do mundo. Recuperar o espírito do Pacto das Catacumbas, e no Pacto pela Vida, recuperar o direito à segurança alimentar, ao auxilio emergencial.

Em relação com a Campanha da Fraternidade, Dom João Justino, insistia em que “as desigualdades sociais afrontam a própria dignidade da pessoa humana”, e por isso “supera-las, para nós que somos cristãos, passa pela conversão”. O arcebispo de Montes Claros vê a Campanha da Fraternidade, celebrada na quaresma, como um “apelo a construir um mundo mais humano, de fraternidade”. O desafio está em pensar ações, propor atividades, desencadear processos para contribuir na superação das desigualdades sociais, segundo o arcebispo. Nesse sentido, ele coloca a educação como “uma aposta fundamental para superar as desigualdades sociais”.

Educar para a transcendência

Dom Leomar lembrava da figura de Edith Stein, que em seu papel de educadora definia educar como “guiar os outros seres humanos de modo que eles se tornem o que eles devem ser”. Segundo o bispo auxiliar de Porto Alegre, “isso precisa da família, da escola, da igreja, da sociedade”. Se faz necessário hoje “educar os jovens para a transcendência, para o Mistério”, e ao mesmo tempo criar redes, um grande pacto, criar uma aliança, um compromisso comum, algo que está se concretizando no Pacto Educativo Global.

Ao ser perguntado sobre como levar para a vida daqueles que participam da vida da igreja a necessidade de um compromisso profético, Dom Guilherme fazia referência à Conferência de Medellín, que denunciava que “um dos maiores pecados a omissão”, o que “muitas vezes acontece porque ela é mais cômoda e porque as pessoas não querem se comprometer”. Segundo o bispo de Lages, “nós temos omissões porque nós temos os cristãos que nós Igreja educamos ou deixamos de educar”. Segundo Dom Guilherme tem que ter “consciência de que o compromisso, tentarmos mudar esse mundo em Reino de Deus é de todos nós”, fazendo um chamado a ser uma Igreja mais participativa, a descer da arquibancada e entrar no campo de jogo, como cristãos e como cidadãos. O bispo lembrava a Carta de Santiago que diz que “a fé sem obras é morta”, insistindo em que “não adianta levantar as mãos, eu rezar para Deus, mas eu não colocar as mãos a serviço”, insistindo na necessidade de ação, de deixar de ser cristãos assistentes, para nos tornarmos cristãos ativos.

Luis Miguel Modino, assessor de comunicação CNBB Norte 1 

Fonte: CNBB Norte1

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