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21/09/2019 Outras Palavras Edição 3916 Cesarianas: a epidemia que afeta os bebês Um perigo constante
F/ Outras Palavras
"Partos cirúrgicos sujeitam crianças a nascimentos prematuros"

 

Novos estudos revelam: partos cirúrgicos, 55% do total no Brasil, sujeitam crianças a nascimentos prematuros e complicações pós-natais.

 

Artigo assinado por RICARDO ZORZETTO, na Revista Fapesp, registra que o Brasil mantém há uma década uma preocupante posição de liderança mundial em partos cirúrgicos, as cesarianas. Em crescimento desde os anos 1970, a proporção de cesáreas ultrapassou a de partos normais em 2009 e, desde então, não sofreu redução significativa, apesar de tentativas do governo federal e das entidades médicas de fazê-la baixar.

Dos 2.903.716 bebês que nasceram em 2015, em hospitais e maternidades brasileiros, 1.611.788 vieram ao mundo por meio de cesárea. Esse número corresponde a 55,5% dos partos e é excessivamente elevado, inferior apenas ao da República Dominicana, onde 56,4% dos 172 mil bebês nascem a cada ano por meio de cirurgia. Uma proporção elevada de cesáreas brasileiras (48%) pode ser desnecessária, porque é realizada antes do início do trabalho de parto e, portanto, antes de a criança estar pronta para nascer. Essas cesáreas, em muitos casos combinadas com antecedência pelo obstetra e pela gestante, podem colocar em risco a saúde da mulher e da criança em vez de protegê-las.

 

Precocidade arriscada

Em 2015, nasceram no país 1.130.676 bebês (39,9% do total) com menos de 39 semanas, idade a partir da qual especialistas em saúde materna e infantil consideram a criança preparada para a vida fora do útero. Desse batalhão de bebês precoces, 286 mil nasceram com menos de 37 semanas (prematuros), provavelmente por problema de saúde da mãe ou da criança, e 844 mil na 37ª ou 38ª semana de gravidez. Há forte indicação de que um terço desses dois grupos – um total de 370 mil crianças – nasceu antes da hora em decorrência de cesariana desnecessária.

Quem nasce com 37 ou 38 semanas corre um pequeno risco de ter complicações de saúde, que, no entanto, poderiam ser evitadas com o adiamento do parto. Como essas crianças representam uma fração elevada dos nascimentos, seus problemas teriam o potencial de gerar um impacto importante no sistema público de saúde. Pesquisadores do Instituto Karolinska e da Universidade de Uppsala, na Suécia, acompanharam por ao menos 23 anos 550 mil bebês nascidos entre 1973 e 1979. Em estudo publicado em 2010, na Pediatrics, eles afirmam que, em grau menor do que os prematuros, os bebês nascidos na 37a ou 38a semana de gestação apresentavam um risco maior de não concluir a universidade e de precisar de assistência do estado para cuidar da saúde.

“Suspeitávamos que os números seriam mais ou menos esses”, comenta o obstetra José Guilherme Cecatti, professor da Universidade Estadual de Campinas - Unicamp, sobre o nascimento precoce de bebês no Brasil. Cecatti identificou uma taxa mais elevada de prematuros, parte associada à cesárea, em um estudo com 33.740 gestantes do Nordeste, Sul e Sudeste. “O mérito do trabalho atual é mostrar esse fenômeno com números tão altos. Ele nos leva a deduzir que boa parte das cesáreas está sendo indicada antes do momento certo.”

 

Quem mais precisa, menos recebe

Um dado reforça a hipótese de que essas cirurgias foram feitas sem um problema médico que as justificasse, comenta Ricardo Zorzetto. A proporção de cesáreas antes do trabalho de parto cresceu continuamente com o aumento da escolaridade materna, um indicador do nível socioeconômico. Entre as 163 mil mulheres com até quatro anos de estudo, mais pobres e possivelmente com mais problemas de saúde, 13,2% tiveram bebê por cesariana antes do trabalho de parto. A proporção chegou a 49,2% entre as 528 mil mães com nível universitário, em princípio, mais ricas, saudáveis e bem informadas. “É o fenômeno que o epidemiologista britânico Julian Tudor Hart chamou de inversão do cuidado. Quem precisa mais recebe menos”, comenta o pediatra Marco Antonio Barbieri, professor da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto - USP-RP.

Obstetras e pediatras sempre se preocuparam mais com os bebês que nascem com menos de 37 semanas, os prematuros, que correm risco maior de ter problemas de saúde. Mais recentemente, porém, surgiram estudos indicando que os nascidos com 37 e 38 semanas, de gestação a termo precoce, também apresentavam mais risco de ter complicações de saúde nas primeiras semanas de vida e problemas leves no desenvolvimento cognitivo anos mais tarde. Eles se beneficiariam de mais uma ou duas semanas no ventre materno.

 

Riscos e problemas

Um problema comum aos nascidos entre a 34ª e a 37ª semana de gestação é que os pulmões, um dos últimos órgãos a amadurecer, ainda não estão completamente preparados para respirar. Por esse motivo, é maior o risco de a criança apresentar dificuldade respiratória, de precisar de suplementação de oxigênio e até passar algumas horas na unidade de cuidados intensivos, longe da mãe. Segundo a pediatra Maria Augusta Gibelli, chefe da UTI Neonatal do Hospital das Clínicas da USP, esses bebês nem sempre já desenvolveram a habilidade de sugar adequadamente o peito materno e podem apresentar uma redução nos níveis de glicose (açúcar) no sangue, exigindo a administração de formulações à base de leite de vaca ou cabra nos primeiros dias de vida.

A epidemiologista Maria do Carmo Leal, professora da Escola Nacional de Saúde Pública, no Rio de Janeiro, quantificou esses riscos entre os termos precoces a partir de informações de 12.646 crianças nascidas em 2011 e 2012 em 266 hospitais e maternidades brasileiros, e acompanhadas por ao menos 45 dias. Uma ou duas semanas a mais no ventre materno podem fazer uma diferença importante.

Mesmo saudáveis, os bebês que nasceram na 37ª ou 38ª semana de gravidez apresentaram um risco baixo, mas superior ao dos gestados por 39 ou 40 semanas, de complicações nas primeiras horas ou semanas de vida. No primeiro grupo, 3,9% precisaram receber suplementação de oxigênio, ante 2,1% no segundo. Uma proporção semelhante precisou de banho de luz nos três primeiros dias de vida para neutralizar o excesso de bilirrubina, proteína tóxica para o sistema nervoso central. A hipoglicemia, redução importante nos níveis de glicose, foi três vezes mais comum entre os bebês de 37 ou 38 semanas (0,9%) do que entre os nascidos com 39 ou 40 semanas (0,3%).

 

A pele como marcador do tempo
Deve começar em outubro um teste com 790 recém-nascidos brasileiros para avaliar a eficiência de um equipamento que, a partir da luz refletida pela pele, estima a idade gestacional do bebê no parto. Semelhante a uma lanterna pequena, o aparelho desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG usa leds para emitir luz de baixa intensidade e um sensor para captar o que é refletido. Essa informação alimenta um miniprocessador que, levando em conta o peso, calcula quanto tempo a criança permaneceu no útero – quanto mais longa a gestação, mais espessa é a pele e mais luz ela reflete.

Conhecer o tempo de desenvolvimento (idade gestacional) do bebê é essencial para orientar a ação dos médicos após nascimento. “O pediatra se baseia nessa informação, em especial no caso dos prematuros, para decidir se o bebê precisa de suporte respiratório e controle de temperatura ou de internação em uma unidade neonatal”, explica a ginecologista e obstetra Zilma Reis, professora da UFMG que desenvolveu o equipamento, chamado de Skin Age, com o astrofísico Rodney Guimarães. “Mesmo no Brasil, onde o acesso aos serviços de saúde é universal e gratuito, nem sempre há informação confiável sobre a idade gestacional das crianças”, afirma a especialista.

Com verba do Ministério da Saúde, o grupo de Minas deve testar agora o equipamento em 790 crianças de Minas, Rio Grande do Sul, Maranhão e Brasília. “Queremos usar os dados para aprimorar o equipamento e reduzir o erro para 7 dias”, diz Zilma. Um segundo ensaio clínico, financiado pela Grand Challenges Canadá e pela Fiocruz, deverá ser feito no próximo ano com 400 crianças do Brasil, de Portugal e Moçambique.

 

Fonte: Revista Fapesp, apud Outras Palavras

 

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