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01/12/2021 Antônio Carlos Santini   Edição 3943 Cassino Brasil
F/ El Pais
"Enquanto isso, fica a evidência de que uma sociedade está perdendo a capacidade de apostar no trabalho e no esforço pessoal para construir a sua vida, e prefere apostar na sorte, sempre ingrata. Para alegria dos “banqueiros”."

 

Não é novidade. Há muito tempo que nossa terra é um grande cassino: todos apostando seus trocados na esperança de um golpe de sorte. Sem falar no folclórico “jogo do bicho”, onde a fauna é explorada para o conforto dos “bicheiros”, já tínhamos a loteria federal, a loteria estadual e o leque sempre crescente das ofertas da Caixa Econômica: loteca, quina, sena, dupla sena, megassena, loto fácil, loto mania, dia de sorte, super sete...

Como se não bastasse essa triste arapuca a “captar’ os caraminguás dos pobres e drenar a esperança para alguma caverna de Ali Babá, agora temos uma súbita invasão de empresas de apostas que se multiplicam como vírus chineses. Basta assistir a uma transmissão esportiva para ser atropelado pelas siglas insinuantes: sportbet / betcris / betfair / dafabet / betano / 1xbet / bet365 / betway / sportingbet / kenominas / casa de apostas / green / bodog e muito mais... Notar que o termo “bet” vem do inglês “betting” = aposta.

Segundo matéria publicada no “El País” [25/09/2021], a atividade é legalizada há três anos, mas uma legislação precária faz com que empresas operem com sede no exterior. Sua popularização levanta debate sobre consequências psicológicas como a dependência.

Apenas três anos após sua entrada no “mercado” de ilusões, já são cerca de 450 sites ativos no país, movimentando em torno de 12 bilhões de reais anualmente. Tais “empresas” do capital alheio patrocinam 19 dos 20 clubes mais importantes do futebol nacional. Como essa atividade ainda não é protegida pelalegislação brasileira,os operadores no Brasil estão sediados no exterior. Deste modo não precisam pagar impostos, e ainda oferecem jogos de azar - ilegais no país -, por não responderem à legislação brasileira.

Mas a jogada não ocorre só no Brasil. Na Inglaterra, são vários os clubes da Premier League que contam com esses patrocínios:Brentford, Burnley, Crystal Palace, Leeds United, Newcastle, Southampton, Watford, West Ham United e Wolverhampton Wanderers. O valor do patrocínio do West Ham foi revelado pela imprensa: nada menos que 10 milhões de libras por temporada, com contrato válido até 2025.

De fato, há algo estranho quando se vê um clube patrocinado por uma casa de apostas, pois não é remota a tentação de acomodar resultados das competições... Uma questão ética que tem apelos para os legisladores. Como o código de ética da Fifa não permite que atletas ou outras pessoas envolvidas com futebol tenham interesses financeiros em casas de apostas, já se prevê uma proibição oficial de tais patrocínios.

Enquanto isso, fica a evidência de que uma sociedade está perdendo a capacidade de apostar no trabalho e no esforço pessoal para construir a sua vida, e prefere apostar na sorte, sempre ingrata. Para alegria dos “banqueiros”.

 

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