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25/03/2020 Dione Afonso Edição 3922 Brumadinho, um ano e dois meses depois Entrevista com Dom Vicente
F/ Facebook/Domvicente
"Brumadinho deve nos despertar num um assunto de pauta, mas uma causa nobre do coração"

 

Frt. Dione Afonso, SDN

dafonsohp@outlook.com

 25 de janeiro de 2019: o estado de Minas Gerais sofre mais uma vez com o mais trágico crime ambiental já visto em todo o país. A barragem da VALE no Córrego do Feijão se rompeu espalhando dejetos químicos das mineradoras afetando rios, nascentes, toda a natureza e povos. Quilombolas, indígenas, homens e mulheres da cidade, agricultores perderam tudo, perderam casa e família.

Em 27 de maio de 2017, a arquidiocese de Belo Horizonte celebraça a cerimônia na qual sagrava bispo o missionário redentorista, Dom Vicente de Paula Ferreira. Após sua nomeação, Dom Walmor o destinou para o Vicariato da Ação Missionária do Vale do Paraopeba, além de outras atribuições. Mais tarde esse vicariato transformou-se na Região Episcopal Nossa Senhora do Rosário – RENSER –, e sua sede regional situa-se em Brumadinho. Dom Vicente acompanhou o drama de Brumadinho de perto mesmo antes da tragédia acontecer. A Revista O Lutador ao se sensibilizar e demostrar seu apoio conversou com Dom Vicente sobre Brumadinho pautando, sobretudo, esse primeiro ano após o 25 de janeiro. Confira:

 

Inserção e Missão

O Lutador: Dom Vicente como foi sua inserção a Brumadinho e que trabalho tem sido realizado lá?

Dom Vicente: Com o VEAM (Vicariato Episcopal para Ação Missionária) no Vale do Paraopeba e a instituição da RENSER (Região Episcopal Nossa Senhora do Rosário) com sede em Brumadinho, não demorou muito para que eu me instalasse em residência numa das paróquias em Brumadinho. Por esse motivo eu já tinha um trabalho naquela região. São quase 2 anos que eu trabalho com os padres, leigos e com as comunidades naquela região. São 12 paróquias, com quase 150 comunidades. E, levamos o projeto arquidiocesano “Proclamar a Palavra” para essa região. Uma região muito rica com suas culturas religiosas e culturais, povos quilombolas e indígenas, famílias da agricultura. Povo muito rico. No dia 25 de janeiro de 2019 há o rompimento da barragem. É preciso que a gente deixe bem claro que é um crime, uma tragédia da VALE (Companhia Vale do Rio Doce) no Córrego do Feijão que está em Brumadinho. Eu estava com minha família no estado do Espírito Santo, retornando para BH eu recebi o comunicado de que houve uma tragédia em Brumadinho. Terminei de chegar em BH e fui me inteirar dos fatos. Cancelei todos os meus compromissos daqueles próximos dias e imediatamente eu fui pra Brumadinho e passei a residir lá. Com a ruptura e as 272 mortes, a questão do meio ambiente, a poluição do rio, fez com que a nossa igreja se organizasse ainda mais fortemente, sobretudo com a presença no local. No primeiro momento foi um caos, sem possibilidades de se organizar. A Igreja se abriu como um colo misericordioso, pelos abraços, conforto, sepultamentos, doações... Esse primeiro momento do 25 de janeiro trouxe pra nós um mundo de questões, de desafios e, por isso, minha presença ali, de articulação com os padres e alguns leigos. Todos estavam e foram atingidos. Todos. Um padre que mora lá há sete anos, por exemplo, perdeu muitos amigos de suas comunidades.

 

O Lutador: No dia 25 de janeiro, após a tragédia, o que o senhor encontrou em Brumadinho? Como foi o primeiro contato com o lugar?

Dom Vicente: Assim que eu cheguei da minha família, minhas bolsas ficaram em BH e imediatamente fiz contatos em Brumadinho. Agora, minha ida foi como de uma preparação para um cenário de guerra. Passamos por uma estrada de chão, pois a ponte da via principal estava interditada. Era umas seis horas da tarde quando cheguei lá na nossa casa e a primeira imagem que eu vi foi a de uma cidade desolada e imediatamente comecei a visitar todos que eu encontrava. Lembro-me que já passava da meia-noite e a gente ainda estava trabalhando e via as pessoas reunidas naquele desespero, liga e ninguém atende, ninguém informa. Será que está foragido? Será que morreu? Será que escapou pelas matas? Então minha primeira ação foi essa de visitar as casas, e de abrir as portas da igreja, onde se tornou um ponto de refúgio e de apoio para os sobreviventes. A Igreja ficava cheia 24 horas por dia.

 

Perigos e ameaças

O Lutador: Por se tratar de um crime ambiental, houve alguma ação contra os responsáveis?

Dom Vicente: Infelizmente essa é uma coisa muito perversa no nosso sistema atual capitalista. Hoje, citar a palavra crime é correr riscos, até de vida, pois vão nos cobrar provas. Como você prova que é um crime? Mas nós vimos todo esse cenário de destruição e morte, todos os depoimentos, teve uma CPI que denominou como crime, teve laudos, audiências públicas, para que um saber prévio da possibilidade de rompimento, as falas das pessoas, as ações anteriores ao 25 de janeiro... Tudo estava ciente. Tudo foi previsto de que esse risco havia. Depois, não foi soado uma sirene, houve comentários de que já sabiam, caso rompesse, sabiam quantas pessoas seriam atingidas. Nós não temos condições de processar algo dessa magnitude. O Estado é que deveria fazer, e tem que fazer, mas, um ano depois vemos que nada foi feito ainda. Isso mostra o cinismo do nosso sistema, assim como aconteceu em Mariana. Não é uma situação isolada, tem uma sequência, tem Mariana, teve Brumadinho, quem me garante que não vai acontecer outro? Isso é um sistema cínico e perverso. É um sistema criminoso. Percebemos que, quando estamos trabalhando no território, as doações são feitas de forma desrespeitosas, ou seja quem mata decide o que deve fazer, ou até mesmo dialogando na mesa, um criminoso dialogando com as vítimas. Você não tem o poder de erguer a voz e dizer que o outro é um criminoso. Uma empresa que mata 272 pessoas está diante de você, na mesma mesa, negociando com você. Como assim? Isso é muito cruel e desumano. No entanto, a igreja não pode recuar. Nós não decidimos a situação, mas nós somos uma voz profética. E temos que dizer. A igreja marca o seu território. Ela marca presença. Isso é contra a vida. É contra o evangelho. Isso atrasa a construção do Reino de Deus. É um absurdo se não fizermos assim. É como ver um tecido socioambiental totalmente dilacerado e dizer que “isso acontece”. Não! Isso não pode acontecer! É errado que tenha acontecido! É um crime o que aconteceu! É um pecado socioambiental, ecológico gravíssimo!

 

O Lutador: A presença da Igreja chegou a enfrentar ameaças ou algum tipo de resistência e indiferença?

Dom Vicente: Eu fiz um discernimento pessoal. Eu poderia não ter estado lá. Mas, é muito diferente você morar no local e ter o contato das pessoas. Que Brumadinho não seja somente um assunto de pautas, mas que seja algo do coração da gente. Não só a cidade de Brumadinho, mas a causa de Brumadinho. Não chegamos a receber ameaças explícitas, mas há um desconforto porque você tem toda uma cidade que é minerária e quem não morreu na mineração, trabalha e tira seu sustento na mineração. Então você corre um risco, inclusive de não ser entendido. Pois, como vamos propor um “passo pós-minerário”, que é o que estamos propondo? Uma alternativa pós-mineração se todo o sistema é viciado na rotina minerária? Por parte das organizações de defesa, da igreja, Movimentos Sociais temos uma acolhida maravilhosa, mas, por outro lado, percebemos uma distância do Poder Público que raramente procura a gente, então percebemos uma exclusão da parte deles porque eles sabem que nós somos pauta de denúncia. E ações do tipo que, enquanto você constrói uma rede de apoio, de incentivo, de ajuda, você se debate com o outro lado, em que a empresa também monta a sua tenda oferecendo outras garantias como um salário maior, mais condições de trabalho. E isso é desleal, pois trata-se mais do que uma ameaça física, pois você tenta construir um grupo de trabalho e eles competem com você o tempo todo com propagandas bonitas, dizendo que tudo está sendo feito. Aí uma pessoa te liga dizendo que tem uma comunidade que está precisando de água potável. Como que tudo está sendo feito se tem pessoas sem acesso a água? Uma comunidade quilombola que perdeu sua água potável estava passando sede. Uma tribo, comunidade Pataxó, onde as crianças brincavam no rio, hoje estão lá sofrendo pois não podem nem tocar na água. Lá a igreja é tratada com descaso pelo poder. Nos olham com indiferença e é aquele olhar desprezível, pois eles sabem o que estamos falando e defendendo.

 

A missão e seus desafios

O Lutador: Dom Vicente que ações estão sendo realizadas hoje na região?

Dom Vicente: Nos primeiros meses foi só doações e articulações, doações e articulações... não deixando as comunidades se desorganizarem. Hoje o mais importante é marcar a nossa presença lá, integral. Uma grande conquista é o trabalho coletivo. Temos um grupo de 30 pessoas que estão articulando as pessoas da cidade com os agricultores, a comunidade quilombola, indígenas. Através de associações e da igreja estamos com um trabalho muito forte, apesar de termos poucos braços, pois temos poucas lideranças leigas, mas estamos progredindo numa evangelização integral que leva em conta toda a realidade da pessoa. Todo mês dia 25 temos a celebração eucarística, pois a data se tornou um marco. Ano que vem estamos organizando a primeira Romaria em Defesa de uma Ecologia Integral. Toda a arquidiocese estará sendo mobilizada a ir até Brumadinho em romaria. Será um marco forte de conscientização em nome da Ecologia Integral.

 

O Lutador: O que ainda precisa ser feito?

Dom Vicente: Precisamos manter a chama da esperança e não desanimar e nem se cansar. Não abandonar a pauta e ir pro próximo assunto como geralmente a mídia faz. Precisamos formar novas gerações, novas consciências, não é um trabalho que se faz de um dia pra noite. Queremos criar um espaço de desenvolvimento integral das pessoas: espiritualidade, memória das vítimas, formação ecológica integral, pautas de sustentabilidade diferentes da mineração, valorização à cultura, sustentabilidade, recuperação de rios, nascentes, matas. Nós temos condições de sair desse sistema de morte. Para isso queremos construir um Santuário de Nossa Senhora do Rosário, uma modalidade nova de Santuário que englobe todas essas lutas e trabalhos. Um centro de formação e espiritualidade.

 

O Lutador: Alguns desses pontos chegou a ser pauta da VI APD?

Dom Vicente: Graças a Deus! Não entrou a palavra Brumadinho, mas entrou a palavra ecologia integral a partir dos dramas que Minas gerais vive. Mariana, Brumadinho, Serra da Piedade com a mineração, Mineração em Ibirité que ameaça a nascente local, as mineradoras, a Vargem das Flores que concentra uma lagoa e um espaço verde em Contagem e que sofre ameaças da construção civil... São pautas que entraram nas Diretrizes da Ação Evangelizadora de Belo Horizonte na VI APD – Assembleia do Povo de Deus.

 

O Lutador: Dom Vicente, diante de uma situação de tragédia, marcada pela dor, sofrimento, perdas irreparáveis, é possível falar de Deus? De esperança?

Dom Vicente: Quero te responder lhe dando uma imagem que não sai do meu coração: “num dia um jovem me deu uma bíblia que encontrou na lama”. Onde está Deus? Deus num se encarnou na nossa história? Deus está lá. Literalmente a Palavra de Deus está lá. Está lá na lama. Deus não nos abandona em momento algum. O pensamento que fica é que não há a possibilidade de fazer uma leitura de um Deus crucificado outra vez. Claro que há uma morte que é um sacramento absoluto da doação do Cristo histórico e isso não se repete, é único esse mistério salvífico. Mas esse mistério se atualiza quando a vida humana e ambiental é sacrificada porque quando a gente olha as 272 mortes, falamos em números de pessoas, mas, temos que lembrar também dos animais, da água, são seres vivos. Onde está Deus? Deus está imerso com essa Palavra encarnada na lama também. Me veio uma atitude missionária, pois, já que Deus nos constitui, nos colocou diante dessa atitude e ação missionária nesse lugar eu penso que, em muitos momentos nós precisamos escavar profundamente para encontrar o próprio Deus, salvá-lo daquilo que ainda é possível ser salvo. É um trabalho cotidiano, é um resgate de Deus na lama. Não é um Deus abstrato, é aquele que se encarna e habita o coração das pessoas e habita a própria criatura. Ali Ele está. Quando a gente teve essa missão de estar ali, é o grito d’Ele que está se fazendo. É o grito do nosso povo, das pessoas, e agora com essa consciência mais viva, é o grito da ecologia, pois a natureza também sofre. No fundo, essa tragédia é a conclusão da história humana que toma um caminho idolátrico, nesse caso idolatria do dinheiro, o maior ídolo hoje. O caminho idolátrico é a morte. O Deus do amor está onde? Está na consciência que outra vez nos diz que não é isso que queremos. Queremos mudar essa situação. É a força de nossos novos mártires de tantos crimes ecológicos que também nos dá a segurança pra defender esse sangue. Esse sangue virou semente. É um mistério, e foi sempre assim. Os mártires, à luz de Cristo que derramou todo o seu sangue virou a Páscoa da sua vida. Os mártires também são assim: eles morrem mas deixam uma causa viva. Brumadinho mantém a memória viva desses que morreram que deixam uma missão para o mundo: Deus sofre com o que morre e, ao mesmo tempo reacende a chama de amor em nós para lutarmos por caminhos novos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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