Formação Catequese
19/12/2021 Marcelo Barros   Edição 3943 Bendito o fruto do teu ventre, do nosso e do universo  
F/ Pixabay
"As duas estão grávidas. Trazem no ventre crianças improváveis ou que ninguém podia imaginar. A gravidez de Maria é subversiva porque ela é jovem, solteira e ainda sozinha. A gravidez da outra também é extraordinária porque Isabel é velha e estéril. Não teria mais idade para engravidar..."

 

Neste 4º domingo do Advento, o evangelho nos revela Maria, como figura da espera messiânica.  Nesse ano C, nos faz retomar a cena da sua visita à prima Isabel (Lucas 1, 39 – 48).

Neste domingo antes do Natal, a antiga liturgia romana celebrava a festa da “expectação do parto da Bem-aventurada Virgem Maria”, ou Nossa Senhora do Bom Parto. Como, nesses dias, a liturgia canta as antífonas maiores que começam por Ó, o povo criou a devoção a Nossa Senhora do Ó. Parece bobagem imaginar uma Maria do Ó, mas o evangelho de hoje diz que sim: Todo o ser de Maria é espanto e admiração. É um Ó permanente. E este ó de espanto e admiração é de Maria e também de Isabel.

Conforme o evangelho, a primeira profecia do Espírito no Novo Testamento vem de duas mulheres que se encontram e cada uma se espanta e se encanta com a outra. As duas formam um diálogo intergeracional. Maria, a jovem, vai ajudar Isabel, sua prima, velha e carente. As duas estão grávidas. Trazem no ventre crianças improváveis ou que ninguém podia imaginar. A gravidez de Maria é subversiva porque ela é jovem, solteira e ainda sozinha. A gravidez da outra também é extraordinária porque Isabel é velha e estéril. Não teria mais idade para engravidar. O primeiro espanto é da velha que se curva diante da jovem e, cheia do Espírito Santo, profetiza: Bendita és tu entre as mulheres. De onde me vem a graça que a mãe do meu Senhor venha me visitar?

Maria, acolhida pela profecia de Isabel, também profetiza. Sua profecia é um cântico de louvor e agradecimento que mostra que o mesmo Deus que provocou a subversão do rotineiro e dos costumes sociais na gravidez das duas mulheres faz toda a humanidade engravidar um mundo novo. Derruba os poderosos e levanta os pobres na luta de libertação.   

É importante ver a esperança messiânica traduzida no gesto simples, cotidiano e essencial do serviço de uma mulher a outra. É na visita de Maria que toma a iniciativa de vir servir a prima que se realiza a primeira manifestação do Espírito no Novo Testamento: uma espécie de primeiro Pentecostes. O Espírito revela à criança que Isabel carrega no ventre o mistério que Maria carrega em si. Aí todos os protagonistas da cena se tornam profetas. João Batista reconhece a presença de Jesus no útero de Maria e dança de alegria no ventre da mãe. Isabel saúda Maria como mãe do Senhor e Maria canta o cântico que não é apenas de alegria pela vinda de Jesus, mas mostra que essa vinda só será acolhida se transforma o mundo em todas as suas estruturas.  Quanta riqueza e que atualidade contém toda essa profecia. O encontro afetuoso de duas primas grávidas faz eclodir ao mundo a alegria da salvação e a manifestação do Espírito em um Pentecostes doméstico transformador. Que boa indicação para o nosso Natal hoje.

Pena que até hoje muitos bispos, padres e pastores da Igreja leem a cena, comentam o evangelho, admiram Maria e Isabel, mas não percebem nelas e na gravidez que elas trazem o sinal de que a nova aliança de Deus conosco tem de ser marcada pelo protagonismo da mulher.

O evangelista Lucas constrói as cenas dos dois primeiros capítulos do evangelho no estilo de contos hebraicos inspirados em textos antigos e para nos ajudar a descobrir um novo sentido na revelação de Deus. O relato da visitação é claramente inspirado no antigo relato da transferência da arca da aliança de Obed Edom a Jerusalém no tempo do rei Davi (2 Samuel 5).

O primeiro testamento diz que a arca da aliança foi levada em procissão às montanhas da Judeia. No relato antigo, o rei Davi sobe a montanha para levar a arca da aliança, sinal importante da união de Deus com o seu povo já que traz dentro se si as tábuas da lei que continham o acordo de Deus com o povo. No evangelho, Lucas diz que Maria, grávida de Jesus, sobe a montanha para visitar Isabel. No relato antigo, o rei Davi dança diante da arca. No evangelho, o profeta João Batista, ainda dentro do útero da mãe,  pula ou dança ao se ver diante de Jesus no ventre de Maria. O evangelho conta que Isabel saúda Maria em tom positivo, quase com as mesmas palavras com as quais Micol, mulher de Davi, protesta, porque o rei dança quase nu diante da arca. Assim, todo o relato da visita de Maria a Isabel mostra como  Maria é a nova arca que traz para nós aquele que vai selar a aliança definitiva de Deus conosco.

Só que o cântico de Maria traz uma novidade: vai além da realidade doméstica e de uma relação religiosa. Diz que Deus derruba os poderosos e liberta os oprimidos. No final dos anos 70, nos tempos duros da ditadura argentina, os generais proibiram que esses versículos fossem cantados nas Igrejas. Hoje, bispos, padres e movimentos carismáticos interpretam esses versos como se se referissem ao mundo do além e nada tivessem a ver com a realidade social e política. Não podemos compactuar com esse Cristianismo domesticado, proposto nas celebrações de Natal.

Que nesse Brasil no qual índios, negros, pobres das ruas e todas as minorias e  oprimidos se sentem ameaçados e desrespeitados, essa profecia do Natal cantada no Magnificat de Maria desperte em nós uma expressão de fé comunitária. Que o nosso modo de viver a fé possa unir, tanto o pentecostalismo do Espírito que desceu na visita de Isabel a Maria, como  o conteúdo revolucionário do Magnificat de Maria. E cada um/uma de nós se sinta chamado/a a colaborar para que, de fato, os poderosos sejam derrubados dos seus tronos e o povo  pobre e oprimido possa ser libertado em uma terra de irmandade e de cuidado com a Mãe Terra. Feliz Natal para todos nós.

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