Formação Leigos
22/12/2020 Edward Guimarães Edição 3931 Aposta na formação de um laicato maduro João Resende: um missionário visionário que apostou decisivamente na formação de um laicato adulto na fé e na vida cristã
F/ Arquivo O Lutador
"Um homem sensível, capaz de ouvir e perceber o sofrimento no rosto das pessoas. “tem a arte do garimpeiro: onde alguns só veem cascalho, ele ajuda a encontrar o ouro”. Suas palavras aquecem o coração, ensinam a discernir os sinais de Deus e a tirar lições positivas do pior cenário eclesial ou social."

 

Por Edward Guimarães

Tive a oportunidade de um primeiro conhecimento da pessoa de João Resende e de seu trabalho de formação missionária de leigos e leigas pelo Movimento da Boa Nova – MOBON, no ano de 1986. Na ocasião, eu morava em Manhumirim, tinha acabado de ingressar no Instituto dos Missionários Sacramentinos de Nossa Senhora, e, como seminarista, pude participar junto com lideranças e agentes de pastoral das comunidades de fé, de um Curso de preparação para a Semana Santa dinamizado por ele.

Eu era jovem, mas confesso, fiquei profundamente impactado com a sua linguagem encarnada na realidade da vida das pessoas, com o seu bom humor e alegria contagiantes, e, sobretudo, com a sua metodologia envolvente e participativa.

As pessoas no centro da atenção

Os participantes, depois de ouvirem uma apresentação criativa do conteúdo estruturante organizado para cada dia, eram convidados, em pequenos grupos, a fazerem a leitura do texto-base, aprofundar o conteúdo e, por meio de pequenas chaves de leitura, a interpretar, seja os textos bíblicos indicados, ou o conteúdo escutado no esquema criativo inculturado. Tudo isso diante do estudo feito no texto lido, no espelho da vida concreta, com os conflitos, desafios e urgências da caminhada vivida no seio da família, da comunidade de fé e da vida em sociedade.

As discussões e partilhas feitas nestas rodas de conversa, visitadas uma a uma por João Resende, eram preciosas. Tinham um poder extraordinário de destravamento da língua e apropriação da palavra, de superação da timidez inicial e de qualquer indiferença, de empoderamento popular... A vida concreta de cada um era o grande elo de ligação. A presença de João Resende não puxava a atenção para si e nem calava os participantes. Ao contrário, sua postura de escuta atenta, estimulava a partilha e o aprofundamento. As pessoas iam sendo conhecidas pelo nome, eram acolhidas, escutadas e suas situações vividas compartilhadas eram incluídas, como exemplo vivo, na apresentação criativa do conteúdo do dia seguinte. Notava-se, imediatamente, que o curso havia sido preparado, de fato, para o crescimento na fé e o despertar missionário e cidadão dos participantes. Estes ocupavam o centro e não o conteúdo que lhes era transmitido.

Sensibilidade e escuta atenta

Com o passar dos anos pude aprofundar este conhecimento primeiro. Nas conversas rápidas ou aquelas com mais vagar, dava gosto escutar a pessoa do missionário João Resende. Revelava-nos uma pessoa apaixonada e que fazia apaixonar pela Igreja. Mas não qualquer Igreja. A Igreja Povo de Deus, centrada na igual dignidade batismal, atenta a situação e ao grito dos pobres. João se mostrava alguém sintonizado com os acontecimentos sociopolíticos e eclesiais, preocupado com a inclusão social e eclesial de quem se encontrava marginalizado, com o crescimento do Reino de Deus. João não perdia tempo com conversas vazias – “não corria atrás de cotia”, com ele era “paca e tatu, cutia não”, risos – conversas que não despertassem o senso da consciência crítica, o senso do compromisso com a missão na Igreja e na sociedade, o senso de urgência com as causas do Evangelho.

Um homem sensível, capaz de ouvir e perceber o sofrimento no rosto das pessoas. Tem sempre uma palavra jesuânica para animar, alimentar o horizonte da esperança e ajudar a soerguer o caído ou desanimado – “tem a arte do garimpeiro: onde alguns só veem cascalho, ele ajuda a encontrar o ouro”. Suas palavras aquecem o coração, ensinam a discernir os sinais de Deus e a tirar lições positivas do pior cenário eclesial ou social.

A aposta no laicato adulto

O ano de 1992, época da Conferência de Santo Domingo, evento que ajudou a colocar no centro das discussões eclesiais latino-americanas o desafio da inculturação da fé e da evangelização, foi o ano que mais aprofundei o conhecimento da pessoa de João Resende e, com isso, o que está implicado na disposição de ser missionário do Reino.

Neste ano, morei na sede do MOBON, em Dom Cavati - MG, com ele e Alípio. A partir da memória viva vivida no contexto singular deste ano, quando tive a oportunidade de viajar, com João Resende, por três vezes para as missões no Estado do Mato Grosso: Poconé, Cárceres, Rio Branco, Araputanga, Reserva do Cabaçal, Alta Floresta...

Tive oportunidade de entrar na dinâmica criativa de formação missionária dos leigos, de partilhar experiências, alegrias e tristezas, crescimento no aprendizado e conquistas, conflitos e dificuldades, de rezar juntos, sinto-me a vontade para caracterizar a pessoa de João Resende como sintetizei no título desta reflexão, como “um missionário visionário que apostou decisivamente na formação de um laicato adulto na fé e na vida cristã”. Explicito melhor o que aí está implicado.

Hoje percebemos o clericalismo como um verdadeiro câncer na Igreja. Uma das principais lutas internas na Igreja Católica impulsionadas papa Francisco é contra esta deturpação do sacramento do serviço. João Resende eram um missionário anticlericalista. Não meramente por palavras críticas, mas com atitudes: ele procurava valorizar e estimular a centralidade do papel dos leigos e leigas na ação evangelizadora na Igreja e na sociedade; ele despertava lideranças cristãs por onde passava e investia decisivamente em sua formação eclesial cidadã.

João Resende envolve os leigos e leigas diretamente na missão e se alegra, vibra mesmo, com o crescimento missionário e cidadão desses homens e mulheres de fé. João Resende não diminui a importância do papel dos ministros ordenados, vibra com os bispos, presbíteros e diáconos que têm amor ao povo de Deus, que se mostram  verdadeiros pastores e servidores na vida da Igreja.

Ele além de procurar despertar a consciência da dignidade batismal dos leigos e leigas, reconhece e valorizava o seu papel insubstituível na dinâmica corresponsável da fé cristã vivida em rede de comunidades de fé e partilha de vida.

Parabéns pela vida e missão

No marco da celebração dos 80 anos do amigo e irmão do Caminho João Resende, além dos parabéns elevo a Deus Pai uma prece de gratidão, por suscitar,pela vida de seu Filho, Jesus de Nazaré, e pela força criativa de seu Espírito Santo, Deus em nós, profetas da missão na Igreja e na sociedade. João Resende é um destes profetas da missão na Igreja Povo de Deus e na sociedade inclusiva fundada na justiça e na partilha solidária, Igreja e sociedade fecundadas pelos valores do Evangelho do Reino.

 

* Edward Guimarães é mineiro de Tombos.Teólogo leigo, casado e pai. Doutor em Ciências da Religião, pela PUC Minas, e mestre em Teologia, pela FAJE. É professor de teologia do Centro Loyola de Espiritualidade, Fé e Cultura e do Departamento de Ciências da Religião da PUC Minas, onde atua como secretário executivo do Observatório da Evangelização. É assessor das CEBs, movimentos populares, pastorais sociais, das comissões regionaisda CNBB Leste 2 de catequese e de ecumenismo. É membro do Conselho arquidiocesano de pastoral e da comissão permanente de assessoria do Vicariato episcopal para a ação pastoral – VEAP da Arquidiocese de Belo Horizonte e da atual diretoria da Sociedade de Teologia e Ciências da Religião – SOTER.

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