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24/05/2021 Emerson Sbardelotti Edição 3936 Alegria e tristeza
F/ arquivo pessoal de Emerson Sbardelotti.
"De certo, daqui pra frente, quando me perguntarem como estou, responderei assim: - 'Vivendo minha sorte, com lutas e guerras!'."

Hoje, 20 de maio de 2021, tomei a primeira dose da vacina da Pfizer, contra a COVID-19, na UBS IV Centenário, na cidade de São Paulo. O retorno para tomar a segunda dose já está marcado para o dia 12 de agosto de 2021. Sou do grupo das pessoas com comorbidades. Viva o SUS!

Deus abençoe todos os dias, os/as profissionais da saúde que estão ali diariamente, na linha de frente. Fui muito bem acolhido. O olhar e o sorriso carinhoso por detrás das máscaras me deixaram mais tranquilo; apesar da minha ansiedade, vi que o cuidado pelo próximo faz toda a diferença; afinal, quem não quer continuar vivendo, não é mesmo? Eu quero!

No momento em que a profissional da saúde aplicava a injeção em mim, meu coração, minha alma, se enchiam de profunda alegria, ao mesmo tempo, de profunda tristeza. Tristeza, pois sei que muitas pessoas ainda não conseguiram ser vacinadas e não há uma previsão exata de quando toda a população brasileira estará vacinada. Enquanto escrevo esta reflexão, penso nas mais de 400 mil mortes que poderiam ter sido evitadas se o governo federal não tivesse levado a cabo seu projeto nazista de governo. É um dos maiores genocídios da história da humanidade.

De pensar nisso tudo, as lágrimas vieram. A aplicação em meu braço não doeu nada; o que doeu, o que dói, é saber que a cada dia aumenta o número de pessoas infectadas, aumenta o número de mortes.

É claro que sempre há mais espaço no meu peito e no meu sorriso para a alegria de viver, de acreditar que todas as pessoas serão vacinadas e chegaremos ao fim desta travessia mudados, mudadas, para melhor.

Por minha cabeça passava uma canção-profecia, anúncio de novos dias:

Todas as coisas são mistérios
Por que tanta dor pela rua
Por que tanta morte no ar
Por que os homens promovem a guerra
Em nome da paz?
Por que o cientista não mostra
Um jeito bem feito afinal
Que seja a vacina do amor
Contra o vírus do mal (ZÉ VICENTE, 2000, p.3).

Esses versos de Zé Vicente me fazem perceber o quanto é longa a estrada rumo ao respeito, ao diálogo, ao encontro. Sem isso, nossa humanidade se vai aos poucos, como areia entre os dedos das mãos.

Todas as coisas são mistérios, pois dentro de cada um, de cada uma de nós, o Mistério habita, se comunica, fortalece nossa personalidade. Cara a cara com o Mistério, todos os nossos mistérios, todas as nossas coisas são reveladas e nos religamos ao Transcendente.

As perguntas feitas por Zé Vicente são hodiernas e inquietantes! Elas não nos deixam dormir em paz. Por isso, procuramos responder através de nossa união, de nossos abraços e beijos virtuais, através de nossas orações por que há tanta dor pelas ruas e tanta morte no ar? Estou buscando uma resposta.

Penso que precisamos deixar de lado o medo e resistirmos como os palestinos, lutarmos como os colombianos e votarmos como os chilenos. Precisamos voltar para as ruas e fazer que a vacina do amor vença, de fato, o vírus do mal, que vem revestido de ódio, fanatismo, fundamentalismo, machismo, racismo, discriminação, etc.

Só haverá paz se houver justiça social.

Estou ainda com a adrenalina nas alturas, pois é a primeira vez que tenho sentimentos divididos por causa de uma vacina. Eu acredito na esperança, sou uma ferramenta da esperança. A vacina, salva vidas, mas, o uso da máscara e do álcool em gel ainda são obrigatórios e necessários. Não podemos dar sorte ao azar!

De certo, daqui pra frente, quando me perguntarem como estou, responderei assim:

- “Vivendo minha sorte, com lutas e guerras!”.

Emerson Sbardelotti - Simplex agricola ego sum in regnum vitae. Doutorando e Mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Agente de Pastoral Leigo e Ministro da Palavra na Paróquia Nossa Senhora da Conceição Aparecida, em Cobilândia, Vila Velha-ES.

Fonte Amerindaenlared

 

NOTAS

1 ZÉ VICENTE. Mistérios. Intérprete: Zé Vicente. In: Babi Fonteles & Zé Vicente. Em Canto. São Paulo: Paulinas COMEP, 2000, 1 CD, faixa 8.

2 ROSA. João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. 22.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2019, p. 174.

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