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07/07/2021 Francisco de Aquino Júnior Edição 3938 A vida de Lázaro também importa!
F/ Visualhunt - Chaval Brasil
"A banalização da vida e sua eliminação com requintes de crueldade, espetacularização midiática e cumplicidade religiosa é a expressão máxima de desumanização das pessoas e da sociedade, de atentado contra Deus e de hipocrisia religiosa."

Toda vida importa! A vida das vítimas de Lázaro importa! Mas a vida de Lázaro também importa! E para quem realmente crer que a vida é dom de Deus que criou o ser humano à sua imagem e semelhança não há maior ofensa a Deus que atentar contra a vida de sua imagem e semelhança.

A banalização da vida e sua eliminação com requintes de crueldade, espetacularização midiática e cumplicidade religiosa é a expressão máxima de desumanização das pessoas e da sociedade, de atentado contra Deus e de hipocrisia religiosa. Essa é a verdadeira “cristofobia” de nossa sociedade: medo/horror/aversão d’Aquele que veio para que “todos tenham vida” e do seu Evangelho da vida que se manifesta na banalização e eliminação da vida humana.

O assassinato de Lázaro, sua espetacularização midiática e sua eufórica comemoração por policiais, governos e amplos setores da sociedade expressam o grau de desumanização de nossa sociedade, a lógica criminosa/miliciana em amplos setores do Estado e irrelevância do Evangelho de Jesus Cristo na vida das pessoas e da sociedade.

Não é preciso insistir muito no fracasso técnico da mega operação policial: um batalhão de mais de 270 homens com viaturas, helicópteros, drones, cães farejadores, serviço de inteligência durante 20 dias para prender uma pessoa numa região já identificada e demarcada; um “confronto” com a polícia que terminou com a “morte” de Lázaro com pelo menos 38 tiros… Mas é importante fazer algumas perguntas/reflexões sobre o contexto político, social e religioso que torna possível e legítima essa situação.

Antes de tudo, precisamos refletir sobre a operação policial. Foi um mero fracasso técnico ou foi só mais uma expressão da lógica miliciana que tem caracterizado cada vez mais a atuação policial? Aliás, foi mesmo uma “operação policial” ou foi uma “caçada” a modo de “capitão do mato” ou de milícias? A meta era prender ou executar? Além da sociedade amedrontada e aterrorizada, quem mais estava interessado na morte de Lázaro? Quem dava apoio a Lázaro e com que interesse?

Se ele foi morto em confronto policial, porque seu corpo não foi deixado no local para a perícia? Se ele não foi morto no local, por que não recebeu o tratamento adequado no translado do local da operação para o hospital, mas foi arrancado da viatura e literalmente jogado na ambulância? Faz parte da operação policial aquele ritual macabro de comemoração transmitido pela imprensa? E a linguagem miliciana usada pelo Presidente da República sobre o resultado da “operação”: “CPF cancelado”? O Estado tem o dever de combater o crime, mas não pode fazer isso de forma criminosa/miliciana. Isso é o fim do Estado Democrático de Direito.

Mas a banalização da vida e a lógica miliciana que têm caracterizado muitas operações policiais e determinações políticas têm raízes sociais mais amplas e profundas. Remetem à nossa tradição escravocrata com sua lógica “Casa Grande – Senzala” (senhor-escravo) e seu “capitão do mato” (caçar escravo, castigar). Isso está incrustado em nosso imaginário e determina nossa forma de sentir/pensar e é facilmente aguçado e manipulado em contextos de insegurança e medo. O bandido/assassino (geralmente pobre/negro) deve ser “caçado”, “castigado” e “eliminado”. A insegurança gera medo. O medo ativa a agressividade como mecanismo de defesa. A agressividade torna-nos violentos. A violência nos leva a eliminar ou querer a eliminação de quem nos ameaça. Sua eliminação produz sensação de alívio e segurança. E essa sensação extravasa em rituais macabros de euforia e festa pela morte e legitimação de práticas de tortura e requintes de crueldade. É um processo trágico de desumanização das pessoas e da sociedade…

Isso pode chegar ao extremo da perversão religiosa. Seja no sentido de que a fé não interfere em nossa forma de sentir/pensar/agir, não vendo contradição entre a fé e essa lógica violenta/miliciana. Seja no sentido, ainda mais trágico, de justificar religiosamente essa lógica perversa de “bandido bom é bandido morto”. Ouvi relato aqui na região de gente querendo uma missa para comemorar a morte de Lázaro. O que fizemos com o Evangelho de Jesus Cristo? Qual é mesmo o seu poder em nossa vida pessoal, eclesial e social?

Que Deus acolha Lázaro e suas vítimas. Que Deus console os familiares e amigos de Lázaro e de suas vítimas. Que Deus nos liberte dessa lógica violenta/miliciana e nos comprometa com a defesa da vida de todas as pessoas e com o enfrentamento da lógica e do poder miliciano na sociedade e no Estado.

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