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27/03/2019 Jesús Urteaga* Edição 3908 A ruptura entre a religião e a vida Páginas que não passam

Jesús Urteaga*

Os homens de Cristo quase não têm hoje afã de santidade. Dir-te-ei que os cristãos não entenderam o que é o Cristianismo. O Cristianismo não se apoderou de nossas vidas, não nos ganhou inteiramente. Há um abismo profundo entre as relações que um cristão fomenta com o seu Deus na igreja e as que mantém com o seu semelhante no caminho.

Contamos com Cristo somente nos “apertos”. Isso faz com que levemos uma vida dupla, sem unidade, um vida de trabalho e uma vida de piedade, díspares, sem união; cada uma assenta em princípios diversos. E daí que a nossa piedade seja mentira, e mentira o nosso trabalho. São duas frentes de luta que acabam por desalentar o mais esforçado. Uma religião morta e uma vida sem Deus... Não nos repugna semelhante contraste?

Compreendemos perfeitamente um Cristianismo de meia hora semanal, o que dura o preceito de assistir à missa, mas não um Cristianismo que exerça influência na vida pública e privada dos homens.

Compreendemos os cristãos mais zelosos que frequentam diariamente o templo de Deus, mas dificilmente concebemos esses mesmos homens condimentando com sentido católico a política, o ensino, a economia do país.

Compreendemos um Cristianismo despojado de relações sociais, isolado das profissões, limitado a “interioridades”, como escola de formação para menores e para consolo da velhice no momento da morte.

Mais vergonhoso ainda é encontrar pessoas que utilizam os privilégios da vida sobrenatural para se dispensarem das obrigações do convívio humano. O mundo está já um pouco farto – com muita, muitíssima razão – desses homens que ostentam pomposamente o título de filhos fiéis da Igreja, em beneficio de interesses pessoais.

Apoiar-se na Igreja para subir um degrau na vida civil! Que vergonha! Que nojo!... Como por si mesmos não têm prestígio nem autoridade, lançam mão de nomes e coisas de Deus para se fazerem respeitar. Não veem, não querem ver que estão a desprestigiar a mais santa das sociedades.

Os católicos hão de servir à Igreja, mas nunca servir-se dela. [...]

Esta é a cunha que temos de meter no mundo antes que desmorone. Religião e Vida! Fazer da nossa vida corrente uma vida em face de Deus. Do nosso trabalho, um tesouro no céu. Da nossa dor, uma alegria no mais além. Das nossas orações, um sorriso nos lábios de Cristo. (Do livro “O Valor Divino do Humano, Ed. Quadrante, SP, 1961.)

 

* JESÚS URTEAGA LOIDI [1921-2009] nasceu em San Sebastián, Espanha. Doutor em direito pela Universidade de Madri, ordenado sacerdote em 1948, foi representante da Santa Sé no Congresso da União dos Organismos Familiares, em 1961. Teve intenso trabalho na TV espanhola, cujo Prêmio Nacional lhe foi concedido em 1965. Fundador da revista “Mundo Cristiano”, é autor de numerosos artigos e livros, entre os quais se destacam: O Valor Divino do Humano (traduzido para cinco idiomas), Deus e os Filhos, Ahora Comienzo, Cartas a los Hombres.

 

 

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