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17/01/2020 Pe. Rodrigo Ferreira da Costa, SDN Edição 3919 A revolução da ternura
F/ Silvania Ferreira Pintrest
"Fazendo uma retrospectiva do ano de 2019 talvez tenhamos o mesmo sentimento de Jesus quando se aproximou de Jerusalém, viu a cidade e chorou sobre ela "

 

 

É natal. Nasceu o Messias esperado. Os anjos se rejubilam de alegria. Os pastores se alegram com a boa notícia. Os reis querem visitá-lo e trazem presentes. Uma luz brilha nas trevas. A esperança dos pobres se renova. Os corações de Maria e José ficam saltitantes de alegria, mesmo sem compreender tal acontecimento. O velho Simeão profetiza o destino do menino, porque percebe naquela criança tão frágil o cumprimento das promessas de Deus. Ana põe-se a louvar ao Senhor, que para realizar o seu eterno plano de amor e abrir-nos o caminho da salvação, assumiu a nossa condição humana. O Natal de Jesus é uma verdadeira revolução da ternura.

Com a encarnação da Palavra Eterna do Pai em nossa humanidade, em nossa história, estas se tornaram sacramento de salvação, epifania de Deus. “No momento em que o Filho de Deus assume nossa fraqueza, a natureza humana recebe uma incomparável dignidade: ao tornar-se ele um de nós, nós nos tornamos eternos” (Prefácio do Natal). Assim sendo, a nossa história tornou-se sacramento vivo, porque na história da humanidade Deus se autocomunica, voltando para nós o seu rosto amoroso e compassivo.

 

A esperança profética do Natal

Em cada Natal a esperança se refaz. A promessa de Deus feita a Abraão e anunciada pelos profetas se cumpre (cf. Lc 1, 46-55). Mas o Natal de Jesus não é um acontecimento preso ao passado, ele está presente em cada criança que nasce e reabre o futuro para o mundo. Em virtude do nascimento, adentramos no mundo e somos aptos a iniciar algo novo. Sem o fato do nascimento jamais saberíamos o que é a novidade, e toda “ação” seria ou mero comportamento ou preservação da ordem existente. Somente a natalidade traz a esperança do início novo. Como escreve Hannah Arendt, “em cada nascimento a novidade irrompe no mundo e esta suprema capacidade do ser humano de começar equivale à sua liberdade”.

Ao chegarmos ao final de mais um ano, somos convidados a olhar para trás e avaliar o caminho percorrido. Não se trata de focar nos problemas como se estivéssemos mergulhados “num vale de lágrimas”, nem tampouco de mascarar os conflitos como se não existissem. Nossa melhor atitude diante da história é a de gratidão pelo passado, paixão no presente e esperança de futuro. Haja vista que um olhar agradecido não falseia a realidade nem esconde os dramas da comédia humana, mas procura perceber, mesmo em meio às sombras da existência, a luz da esperança.

Fazendo uma retrospectiva do ano de 2019 talvez tenhamos o mesmo sentimento de Jesus quando se aproximou de Jerusalém, viu a cidade e chorou sobre ela (cf. Lc 19,41). É quase impossível vê o nosso país sendo jogado de um lado para o outro como um barco à deriva em alto mar e não chorarmos sobre a nossa dura realidade política, social e ambiental. Diante de tantos desafios somos tentados a cair no fatalismo que nos faz perder a esperança do novo, transformando-nos muitas vezes em juízes sombrios que se comprazem em detectar qualquer perigo ou desvio, sem perceber que “mesmo no tempo mais sombrio temos direito de esperar alguma iluminação, e que tal iluminação pode bem provir, menos das teorias e conceitos, e mais da luz incerta, bruxuleante e frequentemente fraca que alguns homens e mulheres, nas suas vidas e obras, farão brilhar em quase todas as circunstâncias e irradiarão pelo tempo que lhes foi dado na Terra” (Hannah Arendt).

Nossos olhos, muitas vezes, habituados às sombras têm dificuldade de ver a luz. Porém, assim como as trevas não conseguiram apagar o Sol resplandecente (Jesus Cristo) que nasceu para nós (cf. Jo 1, 5), somos também convidados a perceber, mesmo nos momentos mais sombrios, os vestígios de Deus em nossa vida, em nossa história.  Não é em vão que na entrada do Inferno de Dante está escrita a sentença: “Abandonem toda esperança os que entram aqui”. Sem esperança não permanecemos vivos. “É na esperança que fomos salvos” (Rm 8,24).

Não uma esperança futurística que nos tira do mundo real à espera de um mundo ideal, mas uma esperança ativa, ou melhor, performativa, que molda o nosso existir, que nos faz acreditar que novo céu e nova terra onde não haverá mais morte, nem luto, nem angústias, nem lamentos, nem medos, nem dor, porque tudo isso deixará de ser (Ap 21, 4) é possível.

 

A revolução da ternura

Segundo o Dicionário de Língua Portuguesa, a palavra revolução significa ato ou efeito de revolver o que estava sereno, ou ainda, revolta e sublevação. Parece que a revolução tem sempre um sentido de revolta, indignação. Por outro lado, quando falamos de ternura vem logo à mente carinho, meiguice, afeto. Então como falar de revolução da ternura? Será que é possível pensar numa ternura revolucionária?

O nascimento do Deus menino é uma verdadeira “revolução da ternura”. Ele nos faz acreditar na força dos pequenos, pois Deus “derruba do trono os poderosos e exalta os humildes; cumula de bens os famintos e despede os ricos de mãos vazias” (Lc 1, 52-53). Como nos recorda o Papa Francisco: “na sua encarnação, o Filho de Deus convidou-nos à revolução da ternura” (EG, 88). O Natal é, pois, a celebração da confiança de Deus no ser humano, Ele não desiste de nós, e da esperança do ser humano neste Deus-Conosco que quis está tão próximo de nós que se fez criança. Como escreve Fernando Pessoa: “Ele é a Eterna Criança, o Deus que faltava. Ele é humano que é natural. Ele é o divino que sorri e que brinca. E por isso é que eu sei com toda certeza que ele é o Menino Jesus verdadeiro. É a criança tão humana que é divina”.

Diante de tanta violência, ameaças de guerras e destruição, a vivência do Natal nos interpela à cultura do encontro, do cuidado e da ternura. Pela encarnação, Deus nos ensina a não nos fazermos indiferentes aos outros, mas, ao contrário, a Natal nos convida a nos deixar interpelar pelo rosto, pelo sofrimento e a miséria do outro. Pois, “a Palavra de Deus nos ensina que, no irmão, está o prolongamento permanente da Encarnação para cada um de nós: ‘Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes’ (Mt 25,40)” (Papa Francisco, EG, 179).

Que a celebração do Natal de Jesus nos ajude a fazer uma verdadeira revolução da ternura, que esse Deus de rosto humano que vem ao nosso encontro nos ensine a cuidar uns dos outros e renovar a nossa esperança na humanidade que a cada nascimento pode começar algo novo no mundo.

 

* Pe. Rodrigo, SDN é licenciado em Filosofia, bacharel em Teologia, com especialização em formação para Seminários e Casa de Formação. Mora atualmente na paróquia São Bernardo, Belo Horizonte – MG.

 

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