Formação Família
13/06/2020 Pe. Sebastião Sant’Ana, SDN Edição 3925 A Pandemia fez crescer sua espiritualidade conjugal e familiar?
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"Há um ponto em que o amor do casal alcança a máxima libertação: quando cada um descobre que o outro não é seu, mas é do Senhor."

Pe. Sebastião Sant’Ana, SDN

 

Alguns amigos e paroquianos me testemunharam que cresceram na sua experiência de fé a partir dessa pandemia do novo “Corona Vírus” que mudou o mundo. A quase todos recomendei ler e aprofundar a exortação apostólica Amoris Laetitia, sobretudo o capítulo IX. Neste, o Papa Francisco, ao abordar a espiritualidade conjugal e familiar, convida-nos focarmos não a família «ideal», mas a realidade rica e complexa de nossas famílias.

Com o olhar positivo, atentos às famílias que estão lutando para superar o covid-19, vejamos como o Papa acena para os recursos da espiritualidade.

A exortação é densa de motivação espiritual e de sabedoria prática, útil às pessoas que compõem a família. A vulnerabilidade e a fragilidade continuam sendo lugar teológico para trabalharmos o “evangelho da alegria”, sobretudo, junto às famílias que enfrentam sérios desafios. A exortação usa a linguagem da experiência e da esperança.

 

Comunhão familiar, verdadeiro caminho de santificação

O Papa não se limita ao “ideal” mas à realidade rica e complexa da família. “A presença do Senhor habita na família real e concreta, com todos os seus sofrimentos, lutas, alegrias e propósitos diários”. Francisco mostra que “a espiritualidade matrimonial é uma espiritualidade do vínculo habitado pelo amor divino. [...] Se o amor anima esta autenticidade, o Senhor reina nela com a sua alegria e a sua paz” (AL 315).

A comunhão familiar bem vivida é um verdadeiro caminho de santificação na vida ordinária e de crescimento místico, um meio para a união íntima com Deus. Com efeito, as exigências fraternas e comunitárias da vida em família são uma ocasião para abrir cada vez mais o coração, e isto torna possível um encontro sempre mais pleno com o Senhor. Diz-se com clareza que aqueles que têm desejos espirituais profundos não devem sentir que a família os afasta do crescimento na vida do Espírito, mas é um percurso de que o Senhor se serve para os levar às alturas da união mística. (AL 316).

 

Jesus partilha a Ceia com a família

A oração em família é um meio privilegiado para exprimir e reforçar a fé na presença do Senhor. Segundo Francisco, Cristo unifica e ilumina toda a vida familiar: sofrimentos e problemas; “os momentos de alegria, o descanso ou a festa, e mesmo a sexualidade são sentidos como uma participação na vida plena da sua Ressurreição” (AL 317). 

O Papa aponta: “O caminho comunitário de oração atinge o seu ponto culminante ao participarem juntos na Eucaristia, sobretudo no contexto do descanso dominical. Jesus bate à porta da família, para partilhar com ela a Ceia Eucarística. Aqui, os esposos podem voltar incessantemente a selar a aliança pascal que os uniu e reflete a Aliança que Deus selou com a humanidade na Cruz. A Eucaristia é o sacramento da Nova Aliança, em que se atualiza a ação redentora de Cristo. Constatamos, assim, os laços íntimos que existem entre a vida conjugal e a Eucaristia. O alimento da Eucaristia é força e estímulo para viver cada dia a aliança matrimonial como ‘igreja doméstica’” (AL 318).

 

Encontrar no amor de Deus o sentido da vida conjugal

No matrimônio, vive-se também o sentido de pertencer completamente a uma única pessoa. “É uma pertença do coração, lá onde só Deus vê. Cada manhã, quando se levanta, o cônjuge renova diante de Deus esta decisão de fidelidade, suceda o que suceder ao longo do dia. E cada um, quando vai dormir, espera levantar-se para continuar esta aventura, confiando na ajuda do Senhor. Assim, cada cônjuge é para o outro sinal e instrumento da proximidade do Senhor, que não nos deixa sozinhos” (AL 319).

“Há um ponto em que o amor do casal alcança a máxima libertação e se torna um espaço de sã autonomia: quando cada um descobre que o outro não é seu, mas tem um proprietário muito mais importante, o seu único Senhor. (...) Isto exige um despojamento interior. O espaço exclusivo, que cada um dos cônjuges reserva para a sua relação pessoal com Deus, não só permite curar as feridas da convivência, mas possibilita também encontrar no amor de Deus o sentido da própria existência”. (AL 320).

 

Contemplar cada ente querido com os olhos de Deus

O Papa recorda que “os esposos cristãos são cooperadores da graça e testemunhas da fé um para com o outro, para com os filhos e demais familiares”. Convida-os a prestarem-se cuidados, apoiarem-se e estimularem-se mutuamente, e viverem tudo isto como parte da sua espiritualidade familiar. “A vida em casal é uma participação na obra fecunda de Deus, e cada um é para o outro uma permanente provocação do Espírito” (AL 321).

Para Francisco “amar uma pessoa é esperar dela algo indefinível e imprevisível; e é, ao mesmo tempo, proporcionar-lhe de alguma forma os meios para satisfazer tal expectativa. Isto é um culto a Deus, pois foi Ele que semeou muitas coisas boas nos outros, com a esperança de que as façamos crescer”(AL 322).

“É uma experiência espiritual profunda contemplar cada ente querido com os olhos de Deus e reconhecer Cristo nele. Isto exige uma disponibilidade gratuita que permita apreciar a sua dignidade” (AL 323).

 

Famílias, não percamos a esperança!

Ao concluir a exortação Amoris Laetitia, o Papa recorda: “Nenhuma família é uma realidade perfeita e confeccionada duma vez para sempre, mas requer um progressivo amadurecimento da sua capacidade de amar. Há um apelo constante que provém da comunhão plena da Trindade, da união estupenda entre Cristo e a sua Igreja. Todos somos chamados a manter viva a tensão para algo mais além de nós mesmos e dos nossos limites, e cada família deve viver neste estímulo constante. Avancemos, famílias; continuemos a caminhar! Não percamos a esperança por causa dos nossos limites, mas também não renunciemos a procurar a plenitude de amor e comunhão que nos foi prometida” (AL 325).

O Papa Francisco encerra sua mensagem com a belíssima Oração à Sagrada Família. Diante da pandemia, tem criado e disponibilizado outras orações, incentivando o mundo católico a usá-las nos momentos de oração das famílias. Não percamos a esperança!

 

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