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22/01/2021 Luis Miguel Modino Edição 3932 A pandemia da especulação
F/ Pixabay
"O silêncio nos torna cúmplices de um sistema que mata os pobres, uma situação que é contrária ao projeto de Deus, que nos chama a fazer realidade na vida de toda pessoa, o pão nosso de cada dia"

 Luis Miguel Modino

Tem gente que só quer ganhar dinheiro, mesmo diante do sofrimento alheio, mesmo diante de uma pandemia que está matando muita gente. O que está acontecendo nos últimos dias e a avareza daqueles que estão se aproveitando da falta de produtos básicos, sobretudo o oxigênio, deveria nos levar a refletir como sociedade. O Papa Francisco sempre nos adverte contra uma economia que mata. Na sua última encíclica, Fratelli tutti, falando sobre uma nova cultura ao serviço dos mais poderosos, ele nos adverte que “disto tiram vantagem o oportunismo da especulação financeira e a exploração, onde aqueles que sempre ficam a perder são os pobres”. Ele nos diz que “a especulação financeira, tendo a ganância de lucro fácil como objetivo fundamental, continua a fazer estragos”.

Ver os pobres vender o pouco que eles têm para comprar um cilindro de oxigênio é algo de doer o coração. Gente que se apega à última esperança diante de uma situação de morte presente na vida de muitas famílias da nossa cidade de Manaus nos últimos dias. Diante da escassez do produto, a gente tem visto que o preço tem mais do que triplicado, algo que só pode ser entendido como uma amostra de pouca vergonha da parte de quem está enchendo o bolso diante do sofrimento do povo.

A mesma coisa pode ser dita dos remédios, dos alimentos, inclusive os mais básicos. O Papa Francisco, também em Fratelli tutti, ele nos diz que “quando a especulação financeira condiciona o preço dos alimentos, tratando-os como uma mercadoria qualquer, milhões de pessoas sofrem e morrem de fome”. Estamos vivendo momentos de grande sofrimento, que podem marcar o futuro da sociedade manauara e mundial. Pobres cada vez mais pobres, e ricos cada vez mais ricos, fruto de uma especulação que pode ser considerada como um gravíssimo pecado social. O pior de tudo é que a gente já acostumou com isso, aceitando que quem não tiver recursos, a única saída é a morte, uma morte cruel, pois morrer sufocado pela falta de oxigênio é uma das maiores crueldades que pode enfrentar o ser humano.

Será que não vamos nos indignar diante disso? Será que vamos continuar impassíveis vendo como uns poucos engordam suas contas bancarias enquanto uma multidão está ficando sem nada, inclusive sem a própria vida? O silêncio nos torna cúmplices de um sistema que mata os pobres, uma situação que é contrária ao projeto de Deus, que nos chama a fazer realidade na vida de toda pessoa, o pão nosso de cada dia.

Não podemos negar, e essa deve ser nossa esperança, que diante daqueles que especulam, também tem gente solidária. Como nos dizia nosso arcebispo Dom Leonardo, diante da resposta à campanha organizada pela Igreja católica do Amazonas e Roraima, “nós ficamos muito surpresos e agradecidos pela solidariedade, existe muita solidariedade em Manaus, existe muita solidariedade no Amazonas, existe muita solidariedade no Brasil, existe muita solidariedade internacional”. Ele destaca “os pequenos gestos, essas pequenas contribuições”, de tantas pessoas anónimas que estão ajudando nos últimos dias. Nessa solidariedade, em palavras do nosso arcebispo, “nós percebemos como nós formamos uma grande fraternidade, e como gostamos de nos ajudar e nos consolar através desses pequenos gestos”.

Sejamos conscientes que somos nós quem devemos ajudar a entender a vida desde uma perspectiva diferente. Ser solidários, compassivos, caridosos se torna uma necessidade urgente. Só assim a gente vai acabar com a pandemia da especulação, mostrando que partilhar é bem melhor do que explorar, sobretudo os mais pobres.

 * Assessor de Comunicação Regional Norte 1 CNBB - Editorial Rádio Rio Mar de Manaus

Fonte: CNBB Norte 1

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