Destaques Capa
07/08/2019 Ir. Telma Missionária Edição 3914 A migração dos Venezuelanos Entrevista com Ir. Telma Missionária em Pacaraima-RR.
F/facebook.com/CMDHRR
"Toda essa realidade é uma luta pelo poder entre os poderosos. As farpas dessa luta caem nos pobres."

A migração dos Venezuelanos e a acolhida da Igreja

Entrevista com Ir. Telma Missionária em Pacaraima-RR.

 

O Lutador: Irmã Telma, o que a levou a trabalhar com os migrantes no norte do Brasil?

Ir. Telma: Sou Missionária de Nossa Senhora das Dores. Estou em Roraima desde 2013, que é um marco do primeiro centenário da nossa congregação. Ao ir para lá, fomos com os olhos mais voltados para a juventude. Em 2015 eu era acadêmica de Direito. E Roraima, um estado de uma só diocese, com várias realidades diferentes, o que representa um grande desafio. Dom Roque, então bispo de Roraima, em 2015 me convidou para assumir o CMDH – Centro de Migrações e de Direitos Humanos – da diocese. Atendendo a esse apelo de Dom Roque, iniciamos um trabalho que, no início era o atendimento a 10 famílias por mês, na sua maioria indígenas ou pessoas com problemas de habitação, tendo pequenas propriedades no interior. Ainda neste ano começaram a surgir os primeiros venezuelanos que eram os indígenas Waral.

 

O Lutador: Como se deu o início deste trabalho?

Ir. Telma: As primeiras que começaram a chegar foram as mulheres e as crianças. Elas se alojavam nos sinais de trânsito pedindo. Começamos a acompanhar e era muito difícil ver tanta criança numa situação de absoluta miséria. Durante o dia ficavam nos sinais do trânsito e à noite iam pra um mercadão que havia em Boa Vista onde faziam suas necessidades. Tinham acesso a uma torneia de água e por ali tentavam sobreviver. Uma realidade difícil de ver e ficar quieto. Chamamos a Universidade Federal e outras entidades para serem parceiros nossos para podermos sentar, nos reunir e discutir sobre essa realidade e se inteirar em relação a essa situação migratória. No ano seguinte, 2016, começaram a chegar os não-indígenas. Uma caminhada de mais de 200 km no asfalto e no sol, sem estrutura nenhuma para que as pessoas chegassem em Boa Vista. Uma situação muito sofrida por conta do sol quente, pois o bioma de Roraima não é um bioma que se aproxima da Amazônia com grandes árvores. A vegetação é mais baixa, muito próxima ao cerrado, então, não havia nem mesmo uma árvore para que esses migrantes pudessem se esconder do sol quente, era uma caminhada de mais de 200 km.

 

O Lutador: Como se dava o atendimento aos migrantes diante de situação real na qual chegavam a Pacaraima-RR?

Ir. Telma: Em 2017, tem um marco nesse meu trabalho com a migração. Uma senhora de 60 morrendo de desnutrição. Até então eu nunca tinha visto um adulto morrendo de fome. Essas coisas marcam a gente. A gente lida com a dor do povo diariamente. Em 2016 nem a Polícia Federal (PF) tinha a estrutura necessária para atender essas pessoas. No primeiro semestre de 2016 havia pessoas agendadas para atendimento em 2018. Então, juntos com eles começamos a ajudar os migrantes fazendo um pré-atendimento. Fazemos isso até hoje para ajudar com os atendimentos. Nós, o CMDH, a Universidade Federal, com as irmãs Scalabrinianas e a Pastoral Universitária junto com a PF fazendo esse trabalho de preenchimento de fichas, tirando as fotos, facilitando o processo. Hoje são 107 instituições diferentes que nos ajudam nesse pré-atendimento.

 

O Lutador: Para nós aqui no Brasil é difícil nos posicionarmos em relação ao que acontece na trama política da Venezuela. Numa rápida visão, como que poderíamos enxergar melhor o drama que gera toda essa situação?

Ir. Telma: Toda essa realidade é uma luta pelo poder entre os poderosos. As farpas dessa luta caem nos pobres. No começo, somente nos pobres. Agora até o salário mínimo não atinge o valor de uma cesta básica. Não é uma questão de quem está certo ou errado. Os dois lados estão errados, pois nada justifica o que o povo está passando. Recebi fotos de um supermercado. Tem poucos ingredientes lá e um quilo de arroz está custando 85,00 reais. A moeda venezuelana é muito desvalorizada. Uma inflação muito alta e a crise de abastecimento, visto que o país não produz alimentos, a Venezuela só importa. Nisso tem o problema do embargo norte-americano que dificulta a importação de alimentos. Nos últimos dias parece que o Maduro resolveu aceitar ajuda humanitária que fosse levada pela Cruz Vermelha. Isso é um sinal positivo, pois antes de se preocupar com a política ou com quem governa, temos que nos preocupar com as pessoas que são nossos irmãos, independente da língua que falam, não importa de que raça são, se estão do lado de cá ou de lá da fronteira, são nossos irmãos. São pessoas, e às vezes nós temos a dificuldade de ver a dignidade dessas pessoas, de resgatar a dignidade delas.

 

O Lutador: Quem são os migrantes que chegam da Venezuela?

Ir. Telma: A gente faz, nesse sentido umas experiências muito duras: uma mulher que me disse, “olha irmã, na Venezuela eu sou uma advogada. Aqui eu sou uma indigente”. É uma quebra muito forte, a pessoa não se reconhece mais como uma pessoa em potencial. Às vezes o trabalho vai ficando duro demais para nós também. Em meados do ano passado (2018) eu já me sentia desgastada. E eu tinha sido convidada pelo professor da Universidade Federal para realizar um trabalho numa localidade rural, numa escola, para poder mudar um pouco de foco. Fui lá pra ver um pouco os jovens e os adolescentes de lá e ter um respiro novo. Quando estávamos saindo de Boa Vista, vimos uma família que estava caminhando no acostamento, em direção de Pacaraima-RR. Paramos, acolhemos a família: pai, mãe e um filho de uns quatro anos. E, no caminho fomos conversando. E eles estavam na direção contrária, pois a maioria vem, e eles estavam indo. E o senhor me disse: “olha, meus parentes estão passando fome e a gente conseguiu muito arroz aqui e estamos levando pra eles”. Eu perguntei a eles quanto de arroz estavam levando, e ele me mostrou: ele estava carregando dois fardos de arroz, a esposa estava com um fardo e a criança de quatro anos com dois pacotes. E aquilo me impactou. Se uma criança pode carregar o seu fardinho de arroz eu também posso carregar o meu. Essa cena me deu uma renovada! É muita gente na rua em situação absoluta de rua.

 

O Lutador: Em que esse trabalho mais marcou sua vida?

Ir. Telma: Há poucos dias eu dei pra uma menina de uns quatro anos, na rua, uma maçã. E ela começou a brincar com a fruta como se fosse uma bola. A mãe se desculpou comigo e disse que ela não sabia o que era uma maçã. Quantas crianças nossas hoje nas escolas dão uma mordida na maçã e jogam o resto fora. E essa criança de quatro anos não sabia o que era uma maçã. Então, essas coisas me provocam. Esse trabalho veio pra minha conversão, porque não tem outro caminho para a conversão do que a convivência com quem não tem nada, nem esperança. A gente começa a se questionar das coisas menores que a gente não responde como deveria e que é tão possível. Certo dia, com uma mulher lá no CMDH, eu dei a ela comida e dei um sabonete, um creme dental, desodorante, shampoo, condicionador e um creme para pele. Eram sete itens. Eu nunca vou me esquecer isso. A mulher, de uns 30 e poucos anos caiu num choro convulsivo. Aquela mulher me disse que tinha mais de seis meses que ela não sabia o que era usar esses produtos de higiene. Eu nunca consegui me colocar no lugar dessa mulher. Nunca consegui me imaginar em lavar o cabelo sem shampoo, tomar banho sem sabonete. É algo tão inerente pra mim. E essas pessoas não têm o mínimo. É esse contato com o outro que transforma a gente.

 

O Lutador: O seu próprio testemunho já é um apelo. Mas, diante disso que apelo você deixaria para aqueles que se colocam num seguimento a Jesus, hoje?

Ir. Telma: Primeira coisa é rezar. O que sustenta a gente de pé, é a oração de quem está longe. Depois: muitos desses venezuelanos que chegam lá estão sendo interiorizados. Minas Gerais já acolheu, Rio de Janeiro, São Paulo, Goiás... Tem o programa de interiorização do governo em parceria com agências da ONU. Tem o programa da Caritas e o Serviço dos Jesuítas que também fazem esse trabalho. Ás vezes temos medo do diferente. São pessoas que não falam muito o português. Mas são pessoas que precisam ser acolhidas, respeitas e amadas como pessoas, são nossos irmãos e irmãos. Um gesto muito importante é você defender o migrante, sobretudo, onde ele é mal falado. Ninguém sai da sua terra, de sua família, de sua cultura se não for obrigado a fazer isso. Eu tenho, você tem um alicerce que nos sustenta. Essas pessoas não têm...

 

O Lutador: Como você experimenta Deus nessas realidades?

Ir. Telma: Eu sempre tive dificuldades em identificar a providência divina nessas realidades. Eu fui educada a sempre identificar um problema e a buscar resolvê-lo. Eu fui educada pra isso. E às vezes a gente fala que tem que acreditar que Deus vai fazer o caminho. Que Deus provém, Deus cuida. No início do trabalho era muito assim. Até que chegou uma proporção que eu não tinha mais como dar jeito. Aí é que experimentamos, de fato, a providência divina. E ter que fazer essa experiência de que Deus cuida da gente... A missão é de Deus, nós somos só instrumento. Não é por mérito, é por graça!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Compartilhe este artigo:
Nome:
E-mail:
E-mail do amigo:
DEIXE UM COMENTÁRIO
TAGS
ÚLTIMAS NOTÍCIAS