Formação Catequese
15/06/2019 Víctor Codina Edição 3913 A igreja queimada
f-observador.pt
"A Igreja Europeia deve purificar-se e pedir perdão por seus pecados: cruzadas, inquisição, colonialismo, patriarcalismo e clericalismo, divisão entre cristãos, abusos sexuais, aliança com os ricos, etc."

Víctor Codina*

Ainda estamos chocados e emocionados com o terrível incêndio de Notre Dame em Paris, símbolo da arte, da cultura, da história e da fé cristã da França e da Europa, um fogo devorador que teve um eco global. Era impressionante ver a torre cair enquanto o povo parisiense contemplava horrorizado a catedral em chamas, alguns chorando, outros ajoelhados rezando e cantando.

A reação de condolência e solidariedade global e o interesse em sua reconstrução é muito compreensível. Porém, além das questões técnicas de arquitetura e as críticas dos setores populares, vendo que grandes fortunas rapidamente fizeram grandes doações, enquanto eles têm sido insensíveis a outras questões sociais ..., aparecem algumas questões fundamentais.

A igreja de Notre Dame queimada simboliza um tipo de sociedade e de Igreja medieval francesa e de uma Europa com profundas raízes cristãs que já desapareceram. Hoje a situação mudou radicalmente: a França é agora um país de missão e a Europa Ocidental vive um rápido processo de secularização, exculturação da fé cristã, pluralismo religioso, indiferença, agnosticismo e um ateísmo pós-moderno.

 Reconstruir a Igreja ou fé?

Reconstruir Notre Dame não representa um problema puramente arquitetônico, mas nos obriga a nos perguntar se queremos apenas reconstruir um monumento do passado medieval da Igreja de Cristandade do segundo milênio, ou se, nesta ocasião, é necessário que os cristãos nos interroguemos sobre o sentido da fé cristã na Europa de hoje, uma Europa de grande bem-estar econômico, mas ao mesmo tempo mantendo grandes diferenças sociais; uma Europa com um passado colonial e um presente que fecha portos e portas para o imigrante e vende armas para países em guerra, armas que matam crianças; uma Europa responsável pela mudança climática, mas que não age com firmeza para defender a terra, etc.

Reconstruir Notre Dame, em parte, é adequado porque todo sentimento cultural e religioso necessita de símbolos concretos e visíveis de transcendência, mas não podemos esquecer que a Igreja não é formada por templos de pedra, mas pelas pedras vivas das comunidades cristãs seguidoras de Jesus de Nazaré, que é o único e verdadeiro templo de Deus. A nova Notre Dame não deveria se reduzir a converter-se em um histórico museu de arte e de cultura para os turistas de todo o mundo.

E a imagem de Notre Dame em chamas me fez pensar, e me trouxe à lembrança outras igrejas incendiadas em tempos de perseguição ou revolução política e social. Concretamente eu me lembrei das reflexões Joan Maragall diante da igreja queimada durante a semana trágica em Barcelona, no ano de 1909. Sem querer entrar nas causas e implicações sócio-políticas da Semana Trágica (Cf. Pregó, Suplemento de verano de 2009), eu gostaria de trazer presente algumas intuições do artigo de Maragall que ainda hoje me parecem atuais. 

Nunca tive uma missa como aquela

Quando o poeta e crente vai a uma igreja incendiada e queimada no domingo, provavelmente do bairro de Gracia, ele escreve: "Eu nunca tinha ouvido uma missa como aquela. A nave da igreja descoerta, as paredes queimadas e descascadas, os altares destruídos, ausentes, sobretudo do grande vazio negro onde estava o altar principal, o chão invisível sob a poeira dos escombros, nenhum banco para sentar, e todos em pé ou de joelhos diante de uma mesa de madeira com um crucifixo em cima, e uma torrente de sol que vem através do buraco no cofre, com uma multidão de moscas dançando na luz crua que iluminava toda a igreja e fazia parecer que ouvíamos a Missa em plena rua ...

"Para Maragall, aquela missa depois da violência anticlerical da Semana Trágica parece nova para ele, um canto das catacumbas dos primeiros cristãos. Ele acha que a missa deve ser sempre assim: porta aberta para os pobres, os oprimidos, os desesperados, os odiados, para aqueles a quem foi fundada a Igreja, e não uma igreja fechada, nem "enriquecida por dentro amparada pelos ricos e poderosos que vêm para adormecer seu coração na paz das trevas ".  

O fogo purificou a Igreja

O fogo purificou a Igreja, restaurou o Cristo em sua casa. Entrando nesta igreja queimada se pode encontrar a Cristo, que é verdade e vida. Não é necessário reedificá-la, nem colocar portas bem forradas de ferro, nem pedir a proteção do Estado ...

É preciso ler todo o artigo de Maragall, que recebeu os parabéns e a aprovação do Dr. Torres y Bages, bispo de Vic, que o exortou a não ficar em silêncio.Não se pode fazer um paralelismo fácil entre Notre Dame queimada e a igreja queimada na Semana trágica em Barcelona, porém, é válica a intuição de Maragall intuição de não reconstruir a Igreja anterior, mas aproveitar a oportunidade não para restaurar a Igreja, mas para reformá-la.

A Igreja Europeia deve purificar-se e pedir perdão por seus pecados: cruzadas, inquisição, colonialismo, patriarcalismo e clericalismo, divisão entre cristãos, abusos sexuais, aliança com os ricos, etc., e converter-se na Igreja do Evangelho, na Igreja de Jesus de Nazaré, na Igreja do povo de Deus e na Igreja comunidade do Vaticano II, a Igreja de Francisco: uma Igreja pobre e com os pobres, em saída, hospital de campanha, alegre e pascal, misericordiosa, que cuida da terra e comunica a todos a alegria do Evangelho. Fonte: cristianismeijusticia.net

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