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16/07/2019 Michel Carlos da Silva Edição 3914 A exploração do trabalho na Amazônia
F/ Pixabay
"É visível o contraste de desigualdade social no solo amazônico."

A exploração do trabalho na Amazônia

Michel Carlos da Silva*

 

A exploração se repete em culturas e tempos diferentes.

No século XIX o Estado do Grão-Pará e o Rio Negro não faziam parte do país, eram subordinados diretamente a Portugal, a realidade da época era a extrema pobreza. Nessa época ocorreu uma revolta popular daqueles que viviam tanto nas margens do rio quanto nas margens da sociedade. Os cabanos, como eram conhecidos, foram massacrados. Tratava-se de pessoas que viviam em cabanas, índios, escravos e seus descendentes, agricultores e portugueses pobres.

A repressão à cabanagem martirizou muitos povos e bloqueou a organização social. Também nesse século acontecia no interior da floresta amazônica o extrativismo da borracha 1850- 1920, a mão de obra era de povos vindos da região nordeste. Com o discurso de melhores condições econômicas eram simplesmente largados no meio da floresta e obrigados a trabalhar em condições precárias. O seringalista é o nome dado para o patrão “dono” do seringal. Tudo tinha que ser comprado nos armazéns que pertenciam ao Senhor do Seringal. Dessa maneira acontecia um ciclo de dependência financeira que jamais era quebrada, pois, quanto mais o seringueiro trabalhava quanto mais ele devia ao seringalista.

O espaço do seringal era organizado por trilhas. O seringal era plantas nativas no meio da floresta. O seringueiro tinha que andar horas e horas no meio da mata por trilhas para recolher o látex. O trabalhador da borracha era levado à exaustão pelo excesso de trabalho. O ciclo da borracha foi o revigoramento do comércio na época e a concentração de riquezas em Manaus e Belém. Na cidade de Tefé localizada no Amazonas, há um cemitério judaico que nos ajuda a entender a classe dominante da época, as lápides eram feitas de mármore italiano. Quando acabou o ciclo da borracha os judeus foram embora. Os judeus eram de Portugal e Espanha. As atividades extrativistas não geram um grande valor de capital. Pois, o esquema não é de indústria, então, até hoje o açaí, por exemplo, é vendido nos comércios no saquinho. O extrativismo não permite uma agremiação de valor.

 

Zona Franca: industrialização!?

No final da década de 50 e início dos anos 60 o estado do Amazonas passa por uma mudança em sua organização econômica, o empreendimento que conhecemos pelo nome de Zona Franca trouxe para o estado a implantação de um sistema de industrialização inédita no território. A consolidação desse novo sistema tem aos meados dos anos 1967 sua ampliação que resulta em um processo de incentivo fiscal que teria a validade de 30 anos. Isto resultou em diversas facilidades para atrair indústrias para região tendo por base o discurso de vazio demográfico. Segundo Norma Bentes, “o capitalismo migrou para buscar ampliar suas chances de rentabilidade, apropriando-se das oportunidades geradas pelo Estado e pelos baixos salários que pagaria à mão de obra” (Bentes, 2014). O polo industrial de Manaus é de montagem de produtos eletrodomésticos, a mão de obra especializada é vinda de fora. Não há uma tecnologia que beneficie o produto do extrativismo, como pescados e açaí.

Não há inovação nos produtos nativos da região. Então o produto colhido não gera agremiação de valor para o povo.

A consequência da economia no Século XIX e XX que corresponde o período do ciclo da borracha e Implantação da Zona Franca é a concentração populacional nas cidades de Manaus e Belém. Tudo é muito concentrado nessas capitais, a riqueza da borracha não gerou uma distribuição de renda entre as classes. A crise da borracha joga o Estado do Amazonas em uma nova crise, que foi gerada pelo tráfico das sementes pelo inglês Henry Wickham, e plantadas na Ásia que gerou uma concorrência desleal para a borracha brasileira que levou a economia borracheira a uma enorme crise.

A estrutura da macroeconomia é de ciclos longos de crise e breves intervalos de lucros onde fizeram pequenos grupos privilegiados que se tornaram elites e grande parte da população na pobreza, assim é visível o contraste de desigualdade social no solo amazônico.

 

 * Postulante sacramentino residente na Área Missionária Tarumã – Manaus – AM

 

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