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14/05/2019 Pe. Agenor Brighenti Edição 3912 A Evangelização no presente e no futuro da América Latina VII Colóquio de Teologia Pastoral na Faje - Caminhos da Pastoral Hoje - 1/3
F/ Edward Guimarães
"Vivemos um momento privilegiado com Papa Francisco, que está muito sozinho e que precisa de nós para avançar... "

Pe. Agenor Brighenti

 A reflexão sobre os “Caminhos da Pastoral Hoje”, tema do VII Colóquio de Teologia Pastoral promovido pela FAJE-BH, contou com a presença serena, perspicaz e profética do Pe. Agenor Brighenti, tendo como pano de fundo os 40 anos da Conferência do Episcopado Latino-Americano em Puebla.

 Pe. Agenor iniciou mostrando que as Conferências de Medellín (1968) e Puebla (1979) inserem-se processo de “recepção criativa” do Concílio Vaticano II (1963-1965) na América Latina. Da mesma forma que o Concílio avança sem romper com a Tradição da Igreja, Medellím e Puebla inovam tirando as consequências dos desafios oriundos de um contexto social marcado pela injustiça e opressão. Tendo presente que o Concílio é “um ponto de chegada, mas sobretudo, um ponto de partida” (Paulo VI). O Concílio é um “evento” que implica um antes, um durante e um depois; que nos leva a estar atentos ao que o Concílio disse; ao que ele não disse; e ao que o Concílio deveria ter dito (alusão à fala de Dom Hélder Câmara).

 

Os embates da involução eclesial

Esse processo de recepção criativa sofre os embates do período de involução eclesial, por parte dos opositores ao Concílio, que dura aproximadamente 30 anos, até à renúncia do Papa Bento XVI. As expressões maiores são representadas pelo Cisma de Lefebvre e as posturas oposicionistas da Fraternidade São Pio X e São Pedro, que não deram conta de fazer a “volta às fontes” proposta pelo Concílio e se apegaram à “volta ao fundamento” cristalizando um momento da Tradição, ignorando que a Tradição é viva e estendem-se desde o Evento Cristo até os nossos dias.

Em Medellín, Magistério e Teologia se confluíram o que permitiu essa recepção criativa em resposta ao sofrimento e dores do povo latino-americano. Em Puebla já se tentou frear Medellín. A Conferência de Santo Domingo (1992) pleiteava um estancamento, mas Aparecida (2007) retoma profeticamente essa inspiração inicial e denuncia as “leituras e aplicações reducionistas da renovação conciliar” (DAp, 100).

Pe. Agenor repassa os modelos pastorais superados pelo Vaticano II como a “Pastoral de Conservação”, centrada na devoção, no culto dos santos, novenas, procissões... caracterizadas por Riolando Azzi como de “muita reza e pouca missa, muito santo e pouco padre”; a superação da Pastoral Coletiva (neocristandade) na busca da reconquista apologética, fazendo dos leigos uma “milícia”, o braço estendido da hierarquia para “recristianizar a sociedade”.

A renovação superou a cristandade: recuperou a importância da Igreja local apostando no trabalho orgânico e de conjunto; passou-se do binômio “clero-leigos” para o binômio “comunidade-ministérios” no qual a comunidade eclesial, como um todo, é o sujeito da pastoral; passou-se de uma visão jurídico-administrativa, para uma visão pastoral, atenta à realidade do povo em função de uma evangelização integral.

 

Novos desafios e necessário profetismo

Acenou-se também para os novos desafios trazidos pela crise da modernidade, o refluxo da neocristandade e a irrupção de uma pastoral secularista: uma espécie de “revanche de Deus”, com muito dinheiro, poder, triunfalismo e visibilidade, ostentando-se como a guardiã da ortodoxia, da moral católica, da sagrada tradição. Não é sem motivo que o Papa Francisco já não usa o termo “Nova Evangelização”, por demais desgastado, mas propõem “uma Igreja em saída”, uma pastoral de conversão missionária como já presente no Documento da Conferência de Santo Domingo em quatro âmbitos:

  1. Conversão na consciência de Comunidade Eclesial - Passar da visão de implantação da Igreja para encarnação do Evangelho (EG, 176), ou seja, tornar o Reino de Deus presente no mundo. Um Igreja samaritana, solidária, aberta ao diálogo, que vai às periferias, sem domesticar as fronteiras;
  2. Conversão na práxis pessoal e comunitária – propiciar o encontro pessoal com o Senhor. O ser humano como caminho para a Igreja. Caminhar do menos humano ao mais humano, descentralizando as decisões, busca de uma Evangelização Integral que abarque o homem todo e todos os homens, ciente de que a opção pelos pobres está implícita na fé cristológica.
  3. Conversão nas relações de igualdade e autoridade – superação do clericalismo para a corresponsabilidade de todos os batizados em uma Igreja toda ministerial;
  4. Conversão das estruturas – que afetam até o caráter dos sacramentos, fazer da Igreja a “casa dos pobres” (João Paulo II, DAp, 8), trabalhar por uma pastoral social orgânica e integral com maior interação com a sociedade civil. Renovar as paróquias como rede de pequenas comunidades (DAp, 372), pois essa Igreja de Massa, de shows, de espetáculos, não tem futuro.

Por fim, ao responder a várias perguntas apresentadas pelos participantes destacou que muitas coisas, só aprendemos na proximidade com os pobres, nós somos apenas mediadores da evangelização, o sujeito da evangelização é quem a recebe como alguém que encarna em sua vida, em seu contexto o Evangelho. Na evangelização, não temos destinatários, mas interlocutores.

Vivemos um momento privilegiado com Papa Francisco, que está muito sozinho e que precisa de nós para avançar. Nós precisamos nos lançar mais, ser mais profetas, arriscar: “é melhor pedir perdão que pedir licença!” Nosso episcopado tem que avançar mais, a CNBB tem que avançar, ser profética diante da realidade que vivemos.

Para finalizar, Pe. Agenor sugeriu: o contexto que vivemos hoje é outro, os desafios são outros e outras são as urgências: temos que fazer a segunda recepção do Vaticano II.

 

Anotações: Denilson Mariano

 

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