Formação Liturgia
27/05/2019 Frt. Matheus Garbazza Edição 3912 A estrada do Êxodo e a liturgia Liturgia
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"É preciso escapar da escravidão, fugir da servidão, caminhar rumo à terra prometida."

 

Frt. Matheus R. Garbazza, SDN

 

O tempo pascal nos coloca em contato com uma das páginas mais significativas do Antigo Testamento: a libertação do povo hebreu do Egito, evento fundador do relacionamento de Israel, como povo constituído, e o Deus libertador. Analogamente, nós cristãos celebramos a vitória de Cristo sobre a dor e a morte com a mesma intensidade, sentindo-nos todos inseridos neste profundo mistério.

Mas que fundamentos o Êxodo dá para a liturgia cristã? Que compreensão de culto temos ali? Dentre as várias respostas possíveis, o Cardeal Joseph Ratzinger (futuro papa Bento XVI) nos oferece uma valiosa contribuição em seu precioso livro “Introdução ao Espírito da Liturgia”. Ali, sobretudo no primeiro capítulo, ele indica que a narrativa do Êxodo nos ajuda a compreender a relação entre liturgia e vida. Mais especificamente: sobre o lugar da liturgia na realidade.

 

A festa no deserto

A alguns pode parecer que a liturgia seja algo acessório, meramente decorativo na vida cristã. Que a preocupação pelo culto seja superficial, uma distração das coisas que são realmente importantes. Mas na narrativa da libertação do povo de Israel não é assim. Para eles, liturgia e vida estão visceralmente unidas. Não é possível separar uma coisa da outra.

Todos conhecemos bem o aspecto social da missão de Moisés para libertar o povo. É preciso escapar da escravidão, fugir da servidão, caminhar rumo à terra prometida. O aspecto humanístico, não sem razão, é bem destacado. Entretanto, muitas vezes deixamos escapar que entre as motivações para o Êxodo está a liturgia, a celebração dos mistérios de Deus. Em Ex 5,1-3, quando Moisés e Aarão se apresentam diante do Faraó, transmitem a mensagem de Deus: é preciso que o povo vá ao deserto para “celebrar uma festa ao Senhor”, isto é, oferecer a ele os sacrifícios necessários. Esta ideia volta em Ex 7,16.26; 9,1; 10,3; 12,31, entre outras passagens.

Com isto, segundo raciocina o Cardeal Ratzinger, verificamos que a busca pela terra prometida é também o anseio por um lugar onde oferecer a Deus o culto que lhe agrade. A aliança que será celebrada entre o Senhor e o povo está pautada na liturgia, mas parte necessariamente para a prática daquilo que é a vontade de Deus – sobretudo em relação ao cuidado com as outras pessoas. A liberdade do ser humano mostra-se ligada à sua capacidade de reconhecer a Deus e de ser livre para adorá-lo como convém. E isso tem consequências seríssimas para a tradição posterior, perceptível de modo muito intenso na crítica profética: desrespeitar a vida equivale a profanar o culto divino.

 

Revelação e culto

Mas permanece de pé ainda a pergunta: como prestar culto a Deus? Bastará “sair para o deserto”? É suficiente que a comunidade esteja disposta para tal? A resposta do Êxodo é ainda mais profunda, assevera o Cardeal Ratzinger. O homem, por si só, não é capaz de compor um culto que agrade ao Senhor. Precisamos necessariamente que Ele se revele, que nos comunique como louvá-lo.

É isso que aparece em Ex 10,24-29: o Faraó pretende liberar apenas uma pequena parcela do povo, ou reter ao menos suas posses. Mas para Moisés isso não é aceitável: “pois enquanto não chegarmos lá, nós nem sequer sabemos o que devemos oferecer ao Senhor” (v. 26).

Portanto, para participar bem da Liturgia é essencial perceber que não é o ser humano quem escolhe o que ofertar a Deus. É Ele mesmo quem nos ensina. Para a liturgia cristã, essa realidade aparece com ainda mais intensidade, pois não apenas o Senhor indica qual a oferta, mas – por meio de seu Filho – torna-se precisamente a vítima perfeita, agradável e santa.

A consequência prática logo aparece: a liturgia deve ser entendida por nós como um dom, um presente de Deus, do qual nos aproximamos com todo o respeito e dignidade. Nunca será um produto de nossas mãos, uma fábrica humana, pois senão não passará de um “bezerro de ouro” (Cf. Ex 32).

 

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