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30/06/2021 Luis Miguel Modino - Imprensa CELAM Edição 3937 A escuta nos ajuda a nos inserir na comunidade
F/ CNBB
"Assim como eu fui tão bem acolhido na Prelazia de Tefé, e fui enviado, assim também quero me sentir em Palmares, como pastor humilde, simples e que escuta às pessoas..."

No dia 9 de junho, o Papa Francisco nomeou Dom Fernando Barbosa dos Santos novo bispo de Palmares (PE). Chegado na Prelazia de Tefé em 2014, o bispo faz uma leitura do tempo vivido na Amazônia, onde diz ter vivido uma grande experiência, “experiência missionária, experiência de despojamento, de simplicidade, de humildade”.

Uma Igreja missionária, com um rosto laico

Dom Fernando destaca que “a Prelazia de Tefé é uma Igreja missionária, com um rosto laico”, colocando os dois grandes encontros das CEBs acontecidos nos últimos 7 anos como momentos marcantes no seu tempo na Prelazia. Ele também destaca a importância do Sínodo para a Amazônia, onde o bispo eleito de Palmares participou como padre sinodal. Segundo Dom Fernando, a maior contribuição do Sínodo “é esse reforço do engajamento de nossos leigos e leigas dentro de uma realidade amazônica”, insistindo na importância do reconhecimento dos ministérios.

Ao falar sobre a escuta, uma insistência cada vez maior da parte do Papa Francisco, Dom Fernando afirma que “a escuta nos ajuda a nos inserir na comunidade, na Amazônia”. Segundo ele, “você chega numa terra desconhecida e se torna conhecido quando você dialoga com as pessoas, quando escuta”, enfatizando que “na escuta se fala da vida, se fala dos sonhos das pessoas”. É essa atitude de escuta que espera lhe acompanhe em sua nova missão na Diocese de Palmares.

Depois de 7 anos como bispo na Amazônia, na Prelazia de Tefé, volta de novo para uma região que o senhor conhece. O que o senhor está levando de volta da Amazônia e o que é que o senhor espera diante da nova missão como bispo de Palmares?

Diante deste momento que estou vivendo de transferência, da Prelazia de Tefé para a Diocese de Palmares, primeiramente eu levarei a grande experiência da Amazônia, experiência missionária, experiência de despojamento, de simplicidade, de humildade. Foi aqui na Amazônia que eu aprendi ser bispo, aprendi a caminhar com os povos amazônicos, principalmente os povos indígenas.

Levo essa parcela de contribuição, tanto na minha vida futura quanto também naquela comunidade, naquela diocese que com muita alegria também me acolhe. Tudo isto são contribuições necessárias que vamos adquirindo nesse tempo tão pouco que eu passei na Prelazia de Tefé.

Qual seria o melhor momento, a melhor experiência nestes sete anos na Prelazia?

A Prelazia de Tefé é uma Igreja missionária, com um rosto laico. O que mais me marcou como experiência, o que mais me chamou a atenção, o que mais me envolveu na missão, foi a experiência das comunidades de base, a experiência com alguns povos indígenas e a experiência juntamente com os agentes de pastoral, os leigos e leigas.

Teve um momento muito importante da Prelazia de Tefé, que eu participei de dois encontros das CEBs. Logo quando eu cheguei, em 2014, e também em 2018, que foi na cidade de Jutaí. Nesse encontro das comunidades, a temática era o Sínodo para a Amazônia, nós trabalhamos muito isto. Lembro muito bem que o irmão João Gutemberg foi um dos facilitadores, o cantor leigo consagrado Zé Vicente, e muitos outros assessores, que foram até a cidade de Jutaí, onde era sediado o encontro das comunidades.

Me chamou muito a atenção a presença de mais de mil lideranças, mil delegados de toda a Prelazia. O envolvimento das pessoas, a alegria, tanto os moradores da cidade, acolher todos os delegados das CEBs, como também o engajamento dessas pessoas nas oficinas, aprofundando o que é a REPAM, o que era o Sínodo, que novos caminhos são esses. Tudo aquilo nos ajudou bastante, e está ajudando, o Sínodo está ajudando as nossas Igrejas particulares a encontrar caminhos pastorais mais dinâmicos, uma Igreja mais evangelizadora.

Para mim foram muito marcantes esses dois momentos na Prelazia de Tefé, e tantos outros, como a festa de Santa Teresa, beber nas suas fontes espirituais também ajuda muito o bispo.

O senhor falou do Sínodo para a Amazônia, o senhor foi padre sinodal, participou de todo o processo, e até agora esteve participando desses novos caminhos. Como o senhor pensa que o Sínodo para a Amazônia pode ajudar, nem só a Igreja da Amazônia, como a Igreja do Brasil e do mundo, nesse processo de renovação e conversão pastoral?

Falar do Sínodo para a Amazônia, do qual participei com alegria, com a convocação que o Santo Padre fez a todos os bispos da Pan-Amazônia, a maior contribuição que o Sínodo está trazendo para as Igrejas particulares, especialmente para Tefé. É esse reforço do engajamento de nossos leigos e leigas dentro de uma realidade amazônica que exija da própria comunidade eclesial o reconhecimento dos ministérios, é muito importante esse reconhecimento.

Existe já muitas experiências, riquezas importantíssimas para a evangelização na Prelazia de Tefé, como o ministério dos animadores do setor, instituído pelo bispo, como uma marca muito grande de todos os bispos que passaram por esta Igreja local. Nesses novos caminhos, quero destacar a importância dos catequistas locais, que na Prelazia de Tefé já havia uma experiência de catequistas locais, que é o reconhecimento daquele animador da comunidade instituído pelo bispo. Ali, aquela pessoa representa a comunidade, representa a Igreja, e ele é reconhecido. Ele é enviado, ele é apresentado à comunidade, como responsável daquela pequena comunidade ribeirinha.

Os novos caminhos nos levam também a beber desta fonte dos nossos povos indígenas, tanta beleza na sua vivência espiritual e no seu relacionamento com a natureza, com a comunidade. O sentido de partilha, o sentido de pertencer a um chão que tem toda uma intimidade de amor, como mãe Terra, esse vínculo de amor, esses povos que defendem a vida, que defendem o Planeta, que defendem a casa comum. São tantos novos caminhos!

E como resultado do Sínodo, o Papa Francisco nos deu um presente, que a exortação apostólica, que trata dos quatro sonhos já conhecidos: ecológico, social, cultural e eclesial. Cada sonho desses já uma realidade em muitas dioceses, já se concretizam muitas coisas. Mas para avançar mais ainda à luz do Sínodo, nós temos a graça agora da Conferência Eclesial da Amazônia, a CEAMA. É uma conferência nova, que cada vez mais, ela vai se tornando vista e essa conferência é para ajudar em todos os encaminhamentos, seja do Documento Final, seja da exortação apostólica, para uma Igreja mais missionária.

Com o Sínodo, também abre possibilidades para novos ministérios dentro da Igreja; abre possibilidades de virem outras congregações religiosas, masculinas e femininas; abre maior possibilidade de repensar a formação do nosso clero, dentro de uma realidade amazônica, inculturada; abre outra possibilidade de uma liturgia ligada à vida, ligada à convivência da comunidade, à realidade amazônica, e também nos abre um espírito de justiça, de defesa dos povos originários. Esse espírito de justiça de uma Igreja que precisa estar atenta enquanto aos direitos dos nossos povos indígenas, aos direitos dos ribeirinhos e de todo o povo amazônico.

No seu envio, na Prelazia de Tefé, foi destacado a sua capacidade de escuta. Diante do Sínodo sobre a Sinodalidade e a insistência do Papa Francisco em que numa Igreja sinodal a escuta é fundamental, também por parte do clero e dos bispos, por que a escuta é importante na sua vida e no seu ministério pastoral?

A experiência vivida em Tefé, foi uma experiência que nos leva primeiramente a escutar, a escutar as pessoas, a escutar os diferentes, porque na Amazônia há uma pluralidade também religiosa, uma pluralidade de culturas. Então, a escuta nos ajuda a nos inserir na comunidade, na Amazônia. Você não pode chegar numa comunidade, numa diocese, trazendo seu modelo de Igreja, ou que você sabe tudo, que o outro não sabe de nada, que o ribeirinho não tem certos conhecimentos da religião. Mas o ribeirinho, ele tem a esperança da vida.

Trazer essa vida para dentro da liturgia, trazer essa vida para dentro da Igreja, seja o clero, seja a vida dos religiosos, dos leigos e leigas, trazer essa Igreja viva. E a gente traz é vida, a gente traz as experiências, e trazendo as experiências é porque logo nós escutamos. E nós escutamos quem? Nós escutamos os povos originários, isso aqui é onde está a capacidade em administrar o pastoreio. Você chega numa terra desconhecida e se torna conhecido quando você dialoga com as pessoas, quando escuta.

Porque na escuta se fala da vida, se fala dos sonhos das pessoas. Por isso que a exortação apostólica quer ajudar a gente a entender que é a partir de uma escuta que poderemos sonhar e concretizar um projeto. Se você não escuta, você impõe. O Papa Francisco tem insistido muitíssimo nisso, que os pastores, os responsáveis pelo Povo de Deus, primeiramente escuta, escuta às pessoas, elas têm a nos acrescentar, a nos ajudar.

O que o senhor espera encontrar em Palmares, como pensa que o que tem vivido até agora pode lhe ajudar? Como o senhor pensa que o novo serviço que a Igreja está  lhe encomendando pode ajudar no seu ministério episcopal?

Mais uma vez reafirmo que para mim foi uma surpresa ser nomeado como bispo para a diocese de Palmares, e espero que lá também escute. Primeira coisa é a gente chegar com o coração aberto para acolher as pessoas que estão lá, sejam os padres, as religiosas, os religiosos, os diáconos, seminaristas. Então, como é importante chegar com o coração tranquilo, aberto, para acolher todos.

Assim como eu fui tão bem acolhido na Prelazia de Tefé, e fui enviado, assim também quero me sentir em Palmares, como pastor humilde, simples e que escuta às pessoas. Diante do processo de escuta, nós vamos traçando as nossas linhas pastorais, no diálogo com a sociedade, com as autoridades, porque isso é muito importante. Então, levo a todos que me esperam lá em Palmares a minha simplicidade, e estou tranquilo para trabalhar com o Povo de Deus e com os nossos padres, que nos esperam.

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