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03/06/2020 Sandoval Alves Rocha* Edição 3924 A crise do coronavírus expõe a inviabilidade do capitalismo
F/ Pixabay
"Este processo avassalador tem provocado uma crise civilizatória que coloca em risco a existência da própria humanidade."

 

Como forma de evoluir, o capital busca expandir a sua área de abrangência, procurando novos campos de atuação que possibilitem a continuação do processo de geração e concentração de riquezas nas mãos das elites locais, nacionais e internacionais.

Não se contentando com a construção de sociedades desiguais, que lançam milhares de pessoas em situações de privação e abandono, os grandes decisores (empresários, banqueiros e políticos), munidos de tecnologias de ponta, também se lançam contra o meio ambiente atingindo-o mortalmente. Geram o que atualmente tem sido chamado de crise ambiental. Os benefícios e perdas desiguais quase sempre resultam em proveito para os ricos e poderosos, deixando os pobres e os vulneráveis em situação precarizada.

Este processo avassalador tem provocado uma crise civilizatória que coloca em risco a existência da própria humanidade. [...]

 

Reprodução das desigualdades

Trata-se de um sistema político, social e econômico pautado na reprodução das desigualdades. Um sistema que promove a privatização de bens comuns essenciais como o saneamento básico. É o caso de várias cidades brasileiras, como Manaus, que há duas décadas sofre com a precariedade dos serviços de água e esgotamento sanitário, sempre despontando entre as piores grandes metrópoles brasileiras (SNIS 2018). As grandes empresas que assumiram estes serviços ao longo do período de privatização (atualmente, Águas de Manaus) têm se mostrado extremamente eficientes na geração de lucros para beneficiar os seus investidores, mas em se tratando dos serviços a serem realizados, têm batido recordes de reclamações e baixo desempenho, principalmente nas periferias, favelas e palafitas da cidade. [...]

A crise provocada pelo coronavírus está desmascarando esta realidade, expondo dramaticamente a perversidade do capitalismo, que se expressa na fragilidade dos sistemas de saúde, de saneamento básico e de proteção social, que deixam milhares de pessoas em situações de abandono, sofrimento e morte. A teoria do estado mínimo, que desobriga o Estado de suas responsabilidades sociais, mostra a sua inviabilidade civilizatória, sendo forçada a dá lugar a politicas de solidariedade e de compromisso para com as populações mais pobres.

 

A vida em primeiro lugar

Emerge um contexto em que é preciso rever as nossas atitudes individualistas e competitivas, voltando-nos para ações que não têm lugar na racionalidade capitalista, como o cuidado para com os mais frágeis e a preocupação em relação à saúde da humanidade e do planeta. A ameaça trazida pela pandemia do coronavírus exige pensarmos uma nova ética, que se reflita em intervenções institucionais mais fraternas e responsáveis. Uma ética do cuidado, que inclui os humanos e não humanos, inclusive as gerações futuras.

Diante da tragédia da crise do coronavírus, os governos estão sofrendo pressões para saírem da inoperância diante dos graves problemas criados pela economia capitalista, marcada pela frieza dos cálculos, pela ânsia do lucro e pela indiferença em relação ao sofrimento do povo. Exige-se a imediata revogação de leis que impedem o investimento dos governos na educação, na saúde, na moradia, nos serviços básicos e priorizam o crescimento econômico em detrimento do bem-estar da maioria da população.

O cenário formado pela crise do coronavírus coloca em destaque o princípio ético segundo o qual a vida vem em primeiro lugar. Trata-se de valorizar a dignidade humana como o mais importante bem a ser protegido, destacando a urgência de se construir uma nova racionalidade baseada no comum, na cooperação e na solidariedade.

A covid-19 apenas revelou que vivemos numa sociedade há muito tempo doente, pois baseada na avidez do lucro e do consumismo, ela forma pessoas que se deixam absorver pelas coisas e transtornar pela pressa. Ela configura pessoas indiferentes face às guerras e injustiças planetárias, surdas ao grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo. A covid-19 nos faz refletir sobre o modelo de sociedade mais adequado para garantir a vida de todos. O sistema capitalista já deu provas de que ele não dá conta desta empreitada e nem veio para isto.

* Doutor em Ciências Sociais pela PUC-Rio, mestre em Ciências Sociais pela Unisinos/RS, professor da Unisinos.

Fonte: CNLB

 

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