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22/08/2020 Robson Ribeiro de Oliveira Castro Edição 3927 A Covid-19 e o fracasso do cuidado com o próximo
F/ Pixabay
"Em cada grande história, entra em jogo a nossa história. "

Robson Ribeiro de Oliveira Castro*

Chegamos aos seis dígitos de mortos, próximos e distantes somam o número que, já ultrapassa os 113.000. Há um relativismo em relação às mortes. Devemos observar o nosso caminho ético frente a situação de dor do outro. Principalmente o pecado que cometemos quando não nos atentamos para a dor do outro e tratarmos, com descrédito, o luto dos que perderam parentes e amigos. Seria possível afirmar que chegamos a morte da empatia? Essa pergunta ecoa em nossos corações e nossas rodas de conversas quando falamos da dor do outro?

A Jornalista, cientista política e pesquisadora Bertha Maakaroun, escreve em seu artigo: “A morte da empatia e a vitória da indiferença” que: “O Brasil fracassou no enfrentamento à pandemia da Covid-19” e nos coloca a seguinte pergunta ao nos depararmos com os números alarmantes e das mortes que se amontoam todos os dias: “Será a morte da empatia?”

Sociedade e lideranças apáticas
Maakaroun utiliza-se de uma fala do cientista político Luiz Eduardo Soares, que afirma que: “A sociedade de uma forma geral não se comove, não se revolta, não se transporta para o lugar dessas famílias enlutadas”. Esta afirmação é muito dura e muito complexa, pois nos faz refletir sobre o caminho que estamos seguindo e a falta de amor e misericórdia para com aqueles que sofrem.

Esta premissa de que não se importa mais com as mortes se dá pelo fato de que, a parcela que mais sofre com as mortes pela Covid-19 é, de fato, a classe trabalhadora que se encontra nas periferias a mercê de uma desigualdade social cruel e cada vez mais desumana.

“Nada se distribui igualitariamente no Brasil. Os efeitos letais da pandemia se concentram nas classes subalternas, nos territórios vulneráveis, portanto, são efeitos experimentados desigualmente. E o Brasil continua passando ao largo disso”, avalia Luiz Eduardo Soares no artigo de Maakaroun.

Salta-nos aos olhos uma revolta pela apatia das lideranças politicas quando é noticiado, pelo Secretário de Saúde de São Paulo, a informação de que negros e pobres são mais infectados pela Covid-19 em São Paulo. Diante deste fato, segue a pergunta: Até quando?

Uma analise feita pela capital paulista afirma que são os negros e jovens que tem a maior possibilidade de serem contaminados pelo vírus da Covid-19. Isso se dá pela sua constante exposição para sair para trabalhar atrelado pela imprudência que compromete a sua realidade e sua saúde. De fato, os efeitos da desigualdade social são gritantes, assim as mortes que já ultrapassaram os 113.000 chegam cada vez mais perto de nós e dos nossos parentes e amigos.

Destarte, hoje, na visão contemporânea de sociedade, identificar a noção de individuo é uma tarefa ousada. Pra tanto, o ser humano, não vive como absoluta individualidade, não são seres desligados mas unidos por relações.

Assim, vivendo em situações tão difíceis e complexas, sem um governo e com a realidade de mortes que a cada dia aumentam e não comovem, estamos nos acostumando a enterrar nossos mortos e seguir a vida.

Fazer e refazer a história
Assim, tentar encontrar um caminho diante de tanto descrédito do governo e descaso das autoridades é um desafio. Jesus falou com as lideranças de sua época e suas parábolas e ensinamentos ressoam nos dias de hoje. De fato é necessário recordar os seus ensinamentos de zelo, cuidado e amor ao próximo sendo nossa única condição para conseguir seguir em frente com fé e esperança no que está por vir. Papa Francisco que aos 25 de janeiro de 2020 em Mensagem para o Dia Mundial das Comunicações afirmou "Jesus falava de Deus, não com discursos abstratos, mas com as parábolas, breves narrativas tiradas da vida de todos os dias. Aqui a vida faz-se história e depois, para o ouvinte, a história faz-se vida: tal narração entra na vida de quem a escuta e transforma-a."

Em outro trecho continua ao afirmar que: “Em cada grande história, entra em jogo a nossa história. Ao mesmo tempo que lemos a Escritura, as histórias dos Santos e outros textos que souberam ler a alma do homem e trazer à luz a sua beleza, o Espírito Santo fica livre para escrever no nosso coração, renovando em nós a memória daquilo que somos aos olhos de Deus.”

A nossa condição de individuo, pessoa que se relaciona e, que está atenta ao clamor dos mais necessitados, seria o momento de refletir as palavras de um profeta de nosso tempo que nos deixou recentemente, Dom Pedro Casaldáliga, Bispo Emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia, que afirmava: “No final do meu caminho me dirão: - E tu, viveste? Amaste? E eu, sem dizer nada, abrirei o coração cheio de nomes”

Que nosso coração seja o local onde encontramos nomes de todos que amamos. Que não deixemos de lutar pela memória dos que se foram e chorar pelos que se perderam ao longo da caminhada. Desta forma, olhar para o número de mortos é olhar para cidades inteiras que seriam dizimadas, além de observar o caminho que devemos fazer frente aos que sofrem. Antes de terminar este artigo, deixo aqui um dado alarmante, segundo especialistas e as projeções é possível que, e dezembro cheguemos a marca de 200.000 mortos e nosso natal será bem diferente.

 * Mestre em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); Professor do Instituto Teológico Franciscano (ITF); Colaborador do Instituto Teológico Arquidiocesano Santo Antônio (ITASA); Editor-gerente da Revista RHEMA, Revista de Filosofia e Teologia do Instituto Teológico Arquidiocesano Santo Antônio.

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