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01/10/2020 Dione Afonso Edição 3929 A COMUNIDADE VIRTUAL “MOBON”, SOB O OLHAR NETNOGRÁFICO APONTANDO NOVAS PERSPECTIVAS DA EVANGELIZAÇÃO A PARTIR DOS LEIGOS
F/ Pixabay
"As comunidades virtuais “oferecem um novo contexto alegórico em que se pensa uma identidade humana na era da Internet."

A COMUNIDADE VIRTUAL “MOBON”, SOB O OLHAR NETNOGRÁFICO, APONTANDO NOVAS PERSPECTIVAS DA EVANGELIZAÇÃO A PARTIR DOS LEIGOS

 Dione Afonso Rodrigues Pereira  - Jornalismo, PUC Minas, setembro de 2020

 Questões motivadoras

Quando o Mobon completou seus 40 anos de missão uma pergunta nos fez refletir sobre os próximos ou novos passos: qual será o seu futuro? Que possibilidades a cultura digital pode ofertar para o método de evangelização do Movimento Boa Nova? Redes Sociais, perfis, lives, conexões, como que o Mobon pode ingressar por essa estrada e dar continuidade à sua evangelização?

Quando em 2009 na 43ª Mensagem para o Dia Mundial dos Meios de Comunicação Social, Bento XVI trouxe para o seio da Igreja o tema das “novas tecnologias”, ele as apresentou como um “verdadeiro dom para a humanidade[1]”. O que o Mobon vai fazer nas Redes Sociais? Tem futuro? É necessário? Em 2014, Papa Francisco na 48ª Mensagem afirma que “a rede digital pode ser um lugar rico de humanidade: não uma rede de fios, mas de pessoas humanas[2]”. Comparando com a parábola do bom samaritano, o pontífice afirma que entre tantas estradas, o Mundo Digital é uma dessas também onde devemos nos fazer próximos, “as estradas digitais [estão] congestionadas de humanidade, muitas vezes ferida: homens e mulheres que procuram uma salvação ou uma esperança”. Logo, se as Redes Sociais configuram-se num caminho de proximidade e de encontro com a Mensagem que é o próprio Jesus e o trabalho missionário do Mobon é contribuir para que esse encontro aconteça, a resposta é, não só necessária, mas, urgente que o “mundo digital, onde redes são constituídas, possa se configurar num mundo verdadeiramente acessível a todos”, sem que uma boa parcela da população “pelas mais diversas razões, não tendo acesso aos meios de comunicação social, corra o risco de ser excluído”.

O objeto netnográfico

Uma pesquisa netnográfica consiste em pesquisar e estudar um determinado grupo social dentro das Redes Digitais. A partir de um olhar netnográfico iremos classificar o Mobon como uma “comunidade virtual” de leigos e leigas que, a partir da Palavra de Deus espalham a semente da Boa Nova a todo lugar. Centrado exclusivamente na Palavra de Deus, através de uma linguagem simples e próxima das pessoas, o Mobon conecta Fé e Vida, Oração e Ação, iluminando as ações cotidianas sob a luz do Evangelho.

O Movimento Boa Nova é marcado pela presença leiga missionária nas pequenas Comunidades Eclesiais de Base, onde a partir do pequeno, do simples podemos encontrar ações extraordinárias de transformação social. É a força do leigo que movimenta e faz o Mobon acontecer. Falar de um é vivenciar o outro, não tem como separar.

A Casa do Mobon, no auge da celebração dos seus 40 anos de presença leiga e missionária no seio da Igreja sem ter isso projetado ou programado, ou seja, sem se ater para a evolução e avanço tecnológico, começou a desbravar novos ambientes de evangelização. “Nesses 40 anos, a Casa do Mobon prestou relevantes serviços à Diocese de Caratinga e região. Promoveu encontros de formação bíblico-catequética e pastoral, sempre sintonizada com a caminhada da Igreja, na busca de promover a conscientização dos leigos e leigas para um maior engajamento na vida eclesial e social[3]”. Em 2011, mesmo não interrompendo suas atividades, “a fala das pessoas demonstra uma situação meio que de crise[4]”. A diminuição de participantes, presença de dispersão, menor dinamismo na atuação, menos tempo para os encontros, menor rotatividade dos leigos, pequena presença jovem, eram situações já percebidas entre o grupo que dirigia a Casa do Mobon. Não obstante, “as Casas” do Mobon estendidas nos diversos salões paroquiais dentro e fora da Diocese de Caratinga-MG também percebiam um certo desânimo e pouca participação ativa entre os fiéis leigos nos encontros.

Talvez já estivesse sendo acendido um alerta amarelo para a situação, futuro e fortalecimento eclesial. O mundo estava mudando, as cidades estavam se transformando, relações tanto familiares, quanto sociais começam a lidar com elementos novos como a saída dos filhos mais jovens para trabalhar ou estudar, o fascínio pelo avanço urbano cada vez mais forte, busca de qualidade de vida, erroneamente focada no abandono da zona rural, influência tecnológica com aparelhos celulares mais acessíveis e a permanência cada vez mais frequente de linhas telefônicas nas casas. Para que esse alerta não entrasse na zona vermelha de perigo, algo precisava ser feito.

Este início de década, de 2010 para 2011 há uma forte transformação no uso da Internet e das Redes Sociais. Pesquisadores do Royal Pingdom afirmam que o Facebook se tornou maior que a própria internet. “Em 2010, o Facebook atingiu a marca de 600 milhões de usuários, sendo que 250 milhões se registraram na Rede Social naquele ano. Já em 2011, cerca de 200 milhões de novos usuários entraram no serviço, que superou os 800 milhões de cadastros. Em outubro de 2011, o Facebook se tornou maior do que era a internet em 2004[5]”. De 2010 para 2011 o número de sites na Rede mais do que dobrou: de 255 milhões de domínios para 555 milhões. O número de usuários na Rede atingiu os 2,1 bilhões, ou seja, 2 em cada 7 pessoas estavam conectadas[6].

Claro que muitas outras mudanças culturais e sócio-políticas marcaram essa virada de 2010 para 2011 e se seguiram nessa década. No entanto, para nosso levantamento netnográfico do Mobon, faremos um corte das “comunidades virtuais”, termo cunhado por Manuel Castells (2003). E, quando Castells publica O Poder da Comunicação (2015), percebemos que diante desse cenário os “Sites de Redes Sociais (SRS) estão se transformando em plataformas para todos os tipos de atividades, não só para relações de amizade ou bate-papo, mas para distribuição de marketing, e-commerce, educação, criatividade cultural, mídia e entretenimento, aplicativos de saúde e ativismo político[7]”. Isso é um reflexo direto do Vale do Silício da década de 1990 quando investidores, pesquisadores e estudantes migram para a Baía de San Francisco e arredores da Califórnia e dão início ao que se tornou mais tarde num centro avançado de tecnologia e inovação. Em 1995 se populariza o world wide web que faz da internet um “meio de comunicação que permite a comunicação de muitos com muitos em escala global[8]”.

O Mobon entra nos SRS em agosto de 2017 pelo Facebook. Hoje ele se mantém com uma página com 745 curtidas e 761 seguidores. Neste ano a Rede Social já enfrentava concorrentes promissores. O Instagram em 2017 tinha 63,3% de usuários enquanto o Facebook seguia liderando com 97,6%. Logo depois estavam o Linkedin 46,2%, o Twitter 44,6% e o YouTube 44,2%[9]. O Mobon ingressa com seu perfil no Instagram só em 2019 onde se mantém com uma conta de 253 seguidores. A grande aposta está em sua comunidade virtual criada na Rede Social YouTube. Lançado o canal em 30 de abril de 2020, o Mobon conquistou um total de 2.650 inscritos com conteúdo próprio sendo publicado semanalmente sem interrupções.

Portanto, nosso objeto de pesquisa netnográfica será o Canal do Mobon no YouTube com pouco mais de 5 meses de existência. Nossa observação será dinâmica. Como o Canal tem pouco tempo de execução e um capital social baixo, para entendermos a estrutura, dinâmica e organização, iremos selecionar posts de maiores relevâncias observando o número de visualizações e outras formas de interação próprias da Rede Social, como os likes e os comentários.

 Organização, estrutura e dinâmica da Comunidade Virtual Mobon

“A Internet é o tecido de nossas vidas[10]”, afirma Castells, ela “organiza as informações e forma a Rede[11]”. O Vale do Silício é afirmado antes de tudo como um modelo revolucionário da informação. Assim como houve uma Revolução Industrial que alterou as relações humanas nos séculos passados, podemos falar de uma “Revolução da Informação” que alterou a comunicação formal entre indivíduo, instituições, empresas e de mundo afetando diretamente cada indivíduo.

As questões que envolvem esse poder tecnológico não se resumem num debate apenas político num contexto entre guerras. O poder bélico ganhou muito com o avanço tecnológico, sobretudo da comunicação e isso foi decisivo para a pacificação. No entanto, há por trás de tudo isso um desejo humano profundo de conquista e também de superar as barreiras da informação.

Castells (2015) afirma que “o poder da rede, como incorporado na internet, não é simplesmente um aspecto tecnológico, pois a internet, como todas as tecnologias, é cultura material, portanto incorpora uma construção cultural[12]”. Essa estrutura da Internet é caracterizada, segundo Castells (2003) em quatro camadas[13]: 1). Cultura tecnocrática; 2). Cultura hacker; 3). Cultura comunidade virtual; 4). Cultura empresarial. Diante das definições de Castells, nosso objeto de estudo se encaixa na terceira. Na comunidade virtual o Mobon se reflete num contexto sócio-tecnológico e tecno-antropológico. Ou seja, segundo o autor, as características fundamentais dessas comunidades virtuais estão no valor da comunicação livre, horizontal e a formação autônoma de redes. Isto é, “a possibilidade da própria pessoa encontrar sua destinação e, não a encontrando, de criar e divulgar sua própria informação[14]”.

O Mobon é um perfil sociodigital ou, se preferir, da cibercultura onde a informação que é produzida, é produzida com vínculo institucional. No entanto, o Movimento Boa Nova, é conduzido pastoralmente pela força cristã leiga que, como sujeitos eclesiais agem no mundo como “primeiro campo de missão[15]”. Nesse mundo também encontramos o campo da “cultura digital” em que as “tecnologias avançadas oferecem novos domínios sobre os aspectos macro e micro da vida, e revelam a grandeza criadora do ser humano e as possibilidades reais de uma sociedade de vida mais plena para todos[16]”. “A vocação específica do leigo, impregnada do Evangelho, é estar no meio do mundo à frente de tarefas variadas da ordem temporal[17]”.

Essa Rede da Internet é Rede humana. “Uma pessoa acaba sendo envolvida naquilo que comunica. Quando as pessoas trocam informações, estão já a partilhar-se a si mesmas, a sua visão do mundo, as suas esperanças, os seus ideais. Segue-se daqui que existe um estilo cristão de presença também no mundo digital[18]”. Castells completa afirmando que a Internet “é expressão de nós mesmos[19]”.

“O cristão leigo, como sujeito no mundo, é chamado a agir de forma consciente, responsável, autônoma e livre[20]”, nesse sentido a organização do Mobon dá-se a partir dessa informação e formação consciente daquilo que se produz e veicula nas Redes. A dinâmica do Mobon é sustentada pela Revelação na Palavra de Deus “trata-se de um trabalho amplo de difusão do Evangelho [...] a finalidade é a divulgação da Palavra de Deus levando o Evangelho em toda a parte[21]”. E, também na valorização do leigo, “a proposta maior do movimento é dar importância ao leigo; é fazer com que o leigo assuma o seu lugar, o seu papel na comunidade. Esse é o grande achado do Boa Nova[22]”.

Rheingold, citado por Castells diz que as “comunidades foram fontes de valores que moldaram comportamentos e organização social[23]”. Como a Internet começa a transformar o mundo em que vivemos e com a Rede conectada nossas vidas e o cotidiano começam a ser afetadas profundamente pela nova tecnologia da comunicação. Nesse novo mundo, as comunidades começam a procurar novas formas de sociabilidade e de se interagirem. Portanto a interação nasce das comunidades virtuais que começam a enviar mensagens, criam listas online de correspondências, salas de chat, jogos para múltiplos usuários, conferências online... Portanto, “comunidades virtuais” referem-se a um grupo de pessoas, família, ou agregados virtuais e que são definidos assim quando um número significativo de membros dão a uma página, perfil, ou canal um constructo tecno-antropológico que se mantém conectado por um determinado tempo, mantendo discussões, suscitando debates públicos, políticos, religiosos, manifestando-se emocionalmente, enviando mensagens, chat e emojis construindo então uma rede de relações.

Portanto, a comunidade virtual é um grupo de pessoas conectadas que criam relações no ciberespaço. Essas relações firmam a comunidade como um grupo coeso e organizado. As comunidades virtuais “oferecem um novo contexto alegórico em que se pensa uma identidade humana na era da Internet[24]”. Vamos elencar aqui as postagens do Mobon no Canal do YouTube destacando as mais relevantes desde seu lançamento há mais ou menos cinco meses. Analisaremos o número de visualizações, comentários e conteúdo. Ressaltamos que o Mobon é uma organização religiosa onde leigos e leigas definem seus papeis de protagonistas da evangelização e da missão. Como sujeitos eclesiais entendem sua vocação e missão na atuação da vida de comunidade.

Há nesse contexto também toda uma semiótica aplicada na leitura online comportamental. Castells alerta para a representação de papeis que a Internet nos permite e, citando Sherry Turkle (1995), afirma que “as pessoas que vivem vidas paralelas na tela são, não obstante, limitadas pelo desejo, a dor e a mortalidade de suas pessoas físicas[25]”. “A Internet é uma extensão da vida como ela é, em todas as suas dimensões e sob todas as suas modalidades. Ademais, mesmo na representação de papeis e nas salas informais de chat, vidas reais (inclusive vidas reais online) parecem moldar a interação online[26]”. Wellman Barry (2001) conclui que “comunidades são redes de laços interpessoais que proporcionam sociabilidade, apoio, informação, um senso de integração e identidade social[27]”. Vamos aos dados coletados do nosso objeto netnográfico, lembrando que foram selecionados no decorrer de todos esses meses os posts mais relevantes do canal, levando em conta o nível de interação social (views, chat, reação) e os nós que formam o capital social, e, organizados cronologicamente:

 

Duas modalidades de produção de conteúdo são visíveis nesse quadro: os vídeos semanais com roteiro e edição, vinhetas, sonoras, teasers, trilhas sonoras que giram em torno dos 5 minutos em média[30]. E as lives que duram uma hora. Quatro vídeos estabelecem uma organização e estrutura de visualizações no início do Canal e uma boa aceitação. Na interação encontramos as afirmações do público que aprova a comunicação evangelizadora já firmada pelo Mobon. Outras quatro publicações utilizam do recurso “ao vivo” oferecido pelo Canal. Nas lives se reafirma a estrutura, organização e dinâmica da participação, interação e evangelização dos vídeos anteriores.

Aumenta o número de interação e, com isso a reafirmação de uma comunidade virtual estabelecendo um novo padrão social. “A Internet parece ter um efeito positivo sobre a interação social, e tende a aumentar a exposição a outras fontes de informação[31]”. Essa interação social eleva o trabalho de leigos e leigas comprometidos com a missão e com a igreja num novo contexto missionário. Novos areópagos surgem e, um deles é essa Cultura Digital, novas estradas de missão como afirma Papa Francisco.

Na tabela acima vemos que os Grupos de Reflexão precisaram se adaptar a essa nova estrada. Novas linguagens numa nova cultura. Em audiência, Papa Francisco exortou-nos a sermos mais “criativos na proximidade e no amor[32]” em tempos de pandemia[33]. O pesquisador e jornalista, Moisés Sbardelotto, especialista em evangelização na cultura digital afirma que essa presença da Igreja no espaço virtual permite que os usuários que ali vivem “deixam como ‘pegadas’ nas plataformas sociodigitais uma grande quantidade de dados visíveis, observáveis, rastreáveis e, logo, analisáveis, que, em nosso caso, explicitam interações ocorridas entre a Instituição Igreja e a sociedade em geral (indivíduos, grupos, associações, demais instituições)[34]”. Através dessas interações comunicacionais é possível perceber como que o grupo, nesse caso o Mobon se reafirma com sua estrutura metodológica de evangelização e como que se organiza através dos conteúdos que os próprios leigos produzem e reagem no Canal.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Como vemos nos comentários acima, o tema dos Grupos de Reflexão sendo adaptado nas Redes Digitais e na plataforma digital agrada o grupo e reafirma o trabalho de evangelização. No vídeo sobre “catolicismo pós-pandemia”, a interação que ocorreu foi ainda mais pertinente. Vemos que os assinantes interrogam reafirmando a postura que o missionário do vídeo assume colocando uma reflexão pertinente sobre o futuro da evangelização pós-pandemia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quando vamos para a análise das lives realizadas no mês de setembro identificamos também uma fidelidade com a comunidade e a proposta do Mobon:

Percebe-se que os comentários acima reafirmam o lugar do leigo em sua missão e compromisso com a fé. O capital social é marcado de uma interação que suscita discursos não só no âmbito da religião, mas, também da política e da ação social. Afirmações de poderes que oprimem contra a liberdade do povo são até mesmo repudiadas pelos inscritos no sentido de que a justiça tem que andar de mãos dadas com a Boa Nova, o Evangelho.

 

O Mobon e as novas perspectivas de evangelização

Antes de concluirmos e, para trazer dados específicos do momento atual, precisamos levar em conta o contexto pandêmico que, mesmo não sendo um referencial, colocou nos holofotes da sociedade a potência das Redes Sociais. Segundo o DataReportal, o YouTube é a Rede Social que mais cresce no Brasil, 96% de usuários; em seguida vem o Facebook 90%; WhatsApp 88% e o Instagram 79%. Segundo a mesma pesquisa, 89% do brasileiro passa o seu tempo nas Redes Sociais assistindo vídeos.

Agora é hora! Iniciamos nossa jornada por essa estrada digital. Esse espaço, como já ficou claro, maximiza as oportunidades de anúncio e de evangelização. E, o Mobon só existe e só evangeliza porque leigos e leigas das mais diversas comunidades se comprometem com o chamado do Evangelho de ser fermento, sal e luz no mundo. Iniciando do próprio lugar, bairro, comunidade, inseridos entre o povo, vivendo no meio dos irmãos e indo sempre mais longe, a ponto de fazer que a Palavra chegue aos quatro cantos da terra.

Os Grupos de Reflexão da Bíblia são ferramentas extraordinárias de evangelização e que o Mobon abraça e apoia. Através dos encontros bíblicos a Palavra de Deus visita os lares e reúne a família para ouvir a Boa Nova. Os Roteiros que dirigem essas celebrações são contribuições de leigos que entendem e refletem a Palavra, além de munidos por consciência crítica cristã, leva-os a pratica-la.

Com o ingresso do Mobon nos SRS, percebe-se que um esforço de ouro é empregado para que a linguagem, estrutura e dinâmica dos Grupos se encaixe nesse novo formato. Como todo bom escritor, entendemos que o que se é escrito e impresso não dá pra ser automaticamente transposto no digital. Se o formato muda, a linguagem e estrutura também deve mudar para se adequar e continuar sendo um instrumento atraente de evangelização. Uma coisa nunca muda: o testemunho de vida simples do povo. E isso o Mobon nunca poderá perder. A experiência de fé simples do povo é insubstituível.

Quando lemos a experiência do Mobon no estado do Mato Grosso, Marta Maria da Silva nos relata que com a formação dos Grupos que, “semanalmente se reuniam nas casas para refletir a Palavra de Deus em família” e a dinâmica dos Plenários sendo lançada logo em seguida, “reunia-se os grupos mais próximos para partilhar o trabalho feito durante o mês, colocando em comum as respostas da pergunta central de cada reunião”. E mais, mais tarde o Mobon formou o que se chamou de “Pioneiros do Evangelho”, “o grupo era formado por homens e também por mulheres, pais e mães de família, trabalhadores rurais e pequenos proprietários de terra. Eram leigos que tinham consciência de sua missão, responsabilidade na evangelização e demonstravam uma sincera obediência à Igreja, com um grande testemunho de maturidade cristã e adulta autonomia[35]”.

No YouTube, hoje, o Mobon ganha novo impulsionamento, não somente técnico, mas de evangelização, sobretudo. Com a atuação permanente dos leigos e leigas a Palavra de Deus agora é encarnada em bits e reescrita em pixels. Vídeos, imagens, áudio, audiovisual está na cultura popular do povo. É imprescindível que essa estrada seja trilhada. Outra via que se destaca como grande potencial de evangelização é o podcast. No primeiro semestre de 2020, o App Spotify atingiu a marca de 286 milhões de usuários e 1 milhão de podcasts. Segundo os dados da Tecno, “o spotify é um dos poucos serviços de streaming que sobreviveu à pandemia do coronavírus e seu serviço subiu 31%[36]”. O famoso “livro para ouvir” ou “texto para ouvir” tem cativado nosso público, sobretudo os jovens. O Mobon tem potencial para continuar seu serviço de evangelização através dos caminhos digitais e só tem a crescer. Crescer não só em público, mas em qualidade de produção, material divulgado e de reflexão bíblico-digital.

Por fim, reafirmamos que o compromisso em que o Mobon se sustenta (Palavra de Deus e valorização do leigo) nunca perderá de vista. Mas a vista precisa abarcar novos horizontes. A Palavra de Deus é sempre atual e precisa se atualizar nos novos caminhos de missão que a tecnologia nos oferta. Assim, quem sabe aquele sinal vermelho quase aceso no início desta análise não volte a ficar verde abrindo novos caminhos de evangelização e de reflexão em torno da Palavra.

A Mensagem do Evangelho é uma mensagem de vida, porque comunica-se não uma ideia, mas uma Pessoa. E essa Pessoa é Jesus. Encerramos essa análise trazendo um tripé evocado por Bento XVI em 2009, quando ele diz que nessa “nova arena digital chamada de ciberespaço podemos encontrar e conhecer muitos valores e as mais diversas tradições”. Mas nós não podemos nos deixar de sempre procurar por “encontros profundos, escuta atenciosa, diálogo recíproco e verdadeiro[37]” que promova o desenvolvimento humano e a tolerância. Assim, o Mobon também se apoiará nesse tripé: verdade – bondade – beleza. “O homem tem sede da verdade, ele busca por ela[38]”, num contexto em que as fake se proliferam a cada dia, é preciso de que nossa mensagem propague a verdade do Evangelho. Que nossa Mensagem seja verdadeira e honesta. Depois, a bondade. A Palavra de Deus é sempre uma Boa Notícia. Não estamos aqui para anunciar o terror, a morte, o ódio, mas, diante dessas situações que vemos a cada minuto, transformá-las em mensagem de esperança, de perdão e de vida. E, por fim, a beleza. A beleza, o belo é comunicada pela felicidade e a alegria. O belo evoca a amizade, a confiança e o sorriso sincero que uma Boa Notícia proporciona a cada rosto a cada conexão que criamos com nossos seguidores.

 

[1] BENTO XVI. – Novas tecnologias, novas relações. Promover uma cultura de respeito, de diálogo, de amizade. Mensagem do Papa Bento XVI para o 43º Dia Mundial das Comunicações Sociais (24 de maio de 2009).

[2] PAPA FRANCISCO – Comunicação ao serviço de uma autêntica cultura do encontro. Mensagem do Santo Padre Francisco para o 48º Dia Mundial das Comunicações Sociais (01 de junho de 2014).

[3] SILVA, D. M. [org.] – Fermento Sal e Luz. Leigos em “saída missionária”. Editora O Lutador: Belo Horizonte-MG, 2019, p. 27-28.

[4] GOMES, W. L.; ANDRADE, D. A. Mobon. Missão e Fé Libertadora. Editora O Lutador: Belo Horizonte-MG, 2011, p. 105.

[5] Disponível em: <https://olhardigital.com.br/noticia/internet-em-2010-e-2011-veja-a-transformacao-da-rede/23643>. Acesso em: 24 set. 2020.

[6] Os dados completos da pesquisa entre 2010 e 2011 estão disponíveis em: <https://www.pingdom.com/blog/>. Acesso em: 24 set. 2020.

[7] CASTELLS, Manuel. – O poder da comunicação. São Paulo: Paz e Terra, 2015. p. 40.

[8] ID. – A galáxia da internet. Reflexões sobre a internet, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2003. p. 8.

[9] Dados completos da pesquisa disponíveis em: <https://inteligencia.rockcontent.com/tendencias-redes-sociais-2017/>. Acesso em: 24 set. 2020.

[10] CASTELLS, M. 2003, p. 7.

[11] Ibid. p. 7.

[12] CASTELLS, M. 2015, p. 35.

[13] CASTELLS, M. 2003, p. 34.

[14] Ibid., p. 48-49.

[15] CNBB. Documento 105, Cristãos leigos e leigas na Igreja e na sociedade. Nº. 63. São Paulo: Paulinas, 2016.

[16] CNBB, Doc. 105, nº. 69.

[17] CNBB, Doc. 105, nº. 63.

[18] BENTO XVI. – ­Verdade, anúncio e autenticidade de vida, na era digital. Mensagem do Papa Bento XVI para o 45º Dia Mundial das Comunicações Sociais (05 de junho de 2011).

[19] CASTELLS, M. 2003, p. 11.

[20] CNBB. Documento 105, Cristãos leigos e leigas na Igreja e na sociedade. nº. 66. São Paulo: Paulinas, 2016.

[21] ARAÚJO, R. T. O Movimento da Boa Nova. Belo Horizonte: O Lutador, 1999, p. 24.

[22] Ibid., p. 25.

[23] CASTELLS, M. 2003, p. 46.

[24] Ibid., p. 100

[25] Ibid.

[26] Ibid.

[27] Ibid., p. 107

[28] O primeiro número refere-se às reações positivas e o segundo às negativas.

[29] Os comentários foram levantados até o dia 28 de setembro, podendo haver alterações após essa data.

[30] Alguns variam entre 3 a 9 minutos.

[31] CASTELLS, M. 2003, p. 102.

[32] Disponível em: https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2020-04/papa-francisco-semana-santa-videomensagem-coronavirus.html. Acesso em 25 de setembro de 2020.

[33] Com a proliferação do vírus da Covid-19, os países começaram a decretar leis de isolamento social para conter os contágios. No Brasil, por conta da pandemia, as regras de quarentena e de isolamento social foram decretadas em 13 de março de 2020. Desde então, igrejas, escolas, comércio e todo o país tiveram que se reinventar. Nesse contexto, no final de abril, os Missionários do Movimento Boa Nova, leigos e leigas se reuniram em plataforma online e decidiram, lançar-se nos caminhos da cultura digital e reinventar o Mobon.

[34] SBARDELOTTO, M. E o verbo se fez bit. ????

[35] SILVA, D. M. [org.] – Fermento Sal e Luz. Leigos em “saída missionária”. Editora O Lutador: Belo Horizonte-MG, 2019, p. 80-81.

[36] Confira a matéria completa em: https://tecnoblog.net/336223/spotify-resultados-financeiros-1-tri-2020-286-milhoes-usuarios/#:~:text=Dos%20286%20milh%C3%B5es%20de%20usu%C3%A1rios,correspondem%20a%20contas%20Premium%20(pagas)&text=O%20Spotify%20divulgou%2C%20nesta%20quarta,no%20primeiro%20trimestre%20de%202020. Acesso em 28 de setembro de 2020.

[37] BENTO XVI – Novas tecnologias, novas relações. Promomover uma cultura de respeito, diálogo, de amizade. Mensagem do Papa Bento XVI para o 43º Dia Mundial das Comunicações Sociais.

[38] BENTO XVI. Os meios de comunicação social: na encruzilhada entre protagonismo e serviço. Buscar a verdade para partilha-la. Mensagem do Papa Bento XVI para o 42º Dia das Comunicações Sociais.

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