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27/07/2022 Denilson Mariano da Silva Edição 3949 A CNBB e a construção da Cidadania Seminário 70 anos da CNBB, segundo dia.
F/ CNBB
"Decididamente a CNBB muito contribuiu e ainda tem a contribuir para o processo de democratização do nosso país. Que Espírito de Deus que age na história faça destes 70 anos desta ainda jovem Conferência um kairós, um tempo da graça que lhe reforce o testemunho, o ardor missionário e a profecia para os nossos tempos tão difíceis e até sombrios."

 

Em seu primeiro dia, o Seminário 70 anos da CNBB se ocupou do enfoque histórico recuperando o nascimento da CNBB e sua contribuição ao Brasil, no contexto da realização do Vaticano II, em um regime de exceção. O segundo dia deste Seminário foi dedicado tratar da contribuição da CNBB à democracia em nosso país. Buscou-se um duplo olhar contemplando a ação da Igreja ad extra e ad intra, um olhar para a sua ação na sociedade brasileira e outro para sua ação e/ou organização mais interna.

Depois da acolhida e ritos iniciais, sob a mediação clara e profunda do Prof. José Geraldo de Sousa Júnior, da Universidade de Brasília (UNB), deu-se início às reflexões. A Ministra Cármen Lúcia Antunes Rocha (STF) foi a primeira conferencista buscando enfocar a contribuição da CNBB para a cidadania no Brasil.

A CNBB e a Construção da cidadania

De maneira clara e testemunhal a Ministra destacou que a CNBB teve um papel ativo e decisivo no processo de redemocratização do país. Enfatizou a importância da CNBB como defensora dos direitos humanos e democráticos, sobretudo no processo constituinte que, com seu empenho e força de mobilização, muito contribuiu para que chegássemos à atual Constituição Federal, chamada de “constituição cidadã”. Destacou que recordar tempos do passado ajudam a dar sentido às conquistas do presente. Por outro lado, a fome é um drama humano, pessoal e social, que não pode ser teorizado, tem de ser enfrentado. A CNBB tem cumprido o seu papel, quer em suas denúncias e alertas para fazer cumprir o direito, a justiça, quer com sua busca de conscientização do povo. Neste sentido, destacou a importância das cartilhas da CNBB em anos eleitorais e sua importância para o esclarecimento e para conscientização do povo em momentos decisivos como as eleições. Enfatizou ainda que não basta falar em igualdade, a Constituição Federal é lei e a lei é para ser cumprida.

Em um segundo momento, diante das reações dos participantes, a Ministra enfatizou o desafio de uma mulher ocupar o cargo de Ministra do STF, as resistências, oposições e até chacotas... De forma testemunhal, relatou o gosto de sua mãe pelo cultivo de rosas, mesmo diante das implicações do marido, para quem repetia: “eu gosto de rosas, e não de tiririca, vou cuidar das rosas”. Parafraseando a própria mãe, ela enfatizou: “eu gosto de democracia, vou cuidar da democracia”, ainda que existam forças contrárias, oposições, chacotas, precisamos continuar resistindo, lutando e fortalecendo nossa democracia. Como um apelo à resistência diante das dificuldades, a Ministra Cármen Lúcia terminou sua fala com um trecho do poema de Manoel Alegre:

Mas há sempre uma candeia dentro da própria desgraça.
Há sempre alguém que semeia, canções no vento que passa.
Mesmo na noite mais triste, em tempo de servidão
Há sempre alguém que resiste, Há sempre alguém que diz não.

Das Diretrizes Pastorais às Diretrizes de Ação Evangelizadora

Padre Manoel Godoy, da FAJE-BH, segundo conferencista do dia, firmando-se nas conclusões do Concílio Vaticano II, enfatizou que o termo “Evangelização” aparece 31 vezes nos documentos conciliares e já indicava uma ação da Igreja no mundo e em diálogo com ele. Fazendo um breve resgate histórico e até testemunhal em sua proximidade com Dom Paulo Evaristo Arns, retomou que do Plano de Pastoral de Conjunto que vigorou, no pós Concílio, de 1966 a 1970, passou-se aos Planos Bienais entre 1971 a 1976, chegando às Diretrizes de Ação Pastoral em 1977.

Estas Diretrizes tinham como eixo as seis linhas fundadoras presentes no Plano de Pastoral de Conjunto: 1. Unidade visível da Igreja; 2. Evangelização; 3. Ação missionária; 4. Liturgia; 5. Ação ecumênica e diálogo religioso; 6. Presença no mundo. Neste período a própria organização interna da CNBB era constituída por seis departamentos, correspondentes a cada uma destas linhas, ou seja, elas representavam a “espinha dorsal” da Conferência dos Bispos e a linha 6 – Presença no mundo – era muito atuante, desenvolvia uma série de atividades de ação transformadora da Igreja na sociedade.

Em 1995, a Igreja do Brasil, instada pelo pontificado de João Paulo II a uma ação mais aberta à sociedade, movida pelo processo de uma “Nova Evangelização” às portas da chegada do Novo Milênio, com o anseio da construção de um “mundo novo”, ocorre a passagem das Diretrizes de Ação Pastoral para Diretrizes de Ação Evangelizadora.

Cresce a consciência da necessidade de uma presença ainda mais ativa da Igreja na Sociedade, respeitando o Estado laico (defesa tão urgente em nossos dias) promovendo a cidadania, insistindo nos direitos humanos e na vida com dignidade para todos. O conferencista lembrou que o Sínodo de 1974, com a Constituição Apostólica pós sinodal Evangelii Nuntiandi, de Paulo VI e a Evangelii Gaudium do Papa Francisco são as referências eclesiais que mais nos provocam na ação evangelizadora e ética.

Em sua fala conclusiva, diante das manifestações de demais participantes, Pe. Manoel Godoy destacou que o processo de recepção do Vaticano II é uma tarefa ainda inacabada. A Conferência de Medellín (1968) representa um ponto alto desta recepção para a América Latina, em especial para o Brasil, mas depois houve um arrefecimento e mesmo as Conferências Episcopais perderam força e até foram acusadas de não terem estatuto teológico. Para comprovação sugeriu a leitura do “Relatório sobre a Fé”, uma entrevista de Vittorio Messori com Cardeal Ratzinger e o Moto Proprio Apostolos Suos de João Paulo II. Por fim salientou a necessidade avançarmos no processo de recepção criativa do Vaticano II.

Por problemas técnicos, o Dr. Carlos Moura ficou impedido de fazer a sua comunicação testemunhal sobre como a Igreja se empenhou, institucionalmente, para a construção da cidadania. No entanto foi grande a receptividade dos quase 100 participantes virtuais. Decididamente a CNBB muito contribuiu e ainda tem a contribuir para o processo de democratização do nosso país. Que Espírito de Deus que age na história faça destes 70 anos desta ainda jovem Conferência um kairós, um tempo da graça que lhe reforce o testemunho, o ardor missionário e a profecia para os nossos tempos tão difíceis e até sombrios.

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