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01/06/2020 Robson Ribeiro de Oliveira Castro Chaves Edição A Bioética e o descaso com a saúde
F/Pixabay
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"Estamos diante de um “mercado da morte” no qual o ser humano é um artigo a mais. Um mercado sujo, que lucra com a morte das pessoas."

Robson Ribeiro de Oliveira Castro Chaves*

 

Não é novidade que há mais de dois meses vivemos em distanciamento e isolamento social. Uma realidade nunca imaginada por nós. A condição humana é colocada em cheque quando nos deparamos com valores éticos primordiais e, principalmente, a nossa condição de ser humano em uma realidade desumanizada. Diante do cenário apresentado o convite ao debate ético é importante pois a Bioética tem o papel de tratar de problemas éticos relacionados à vida, principalmente a descobertas e atividades na medicina.

 Desafios e incertezas: uma queda de braços

Quando observamos a realidade é possível vislumbrar um caminho de grandes desafios e incertezas, mas não podemos perder a esperança de dias melhores. Ao ler as notícias de todos os dias, escutar debates entre especialista e, acima de tudo, procurar um filtro das notícias que recebemos, algo nos chama a atenção. Até quando o ser humano levará a ganância e o lucro a qualquer custo? Será que, em algum momento, pensará nos seus semelhantes?

A resposta para este questionamento só é possível se souber o que fazer com a nossa consciência e discernir sobre nossas ações. Este pequeno texto serve de uma pequena introdução para o que pretendo observar de algo que ocorreu recentemente.

Àqueles que leem os jornais e assistem os telejornais observar os grandes esforços de vários governadores, prefeitos e líderes de comunidade a fazer o necessário para frear a curva do novo corona vírus. Entretanto há uma queda de braço impossível de ser esquecida: a questão do lucro a qualquer custo.

No início do mês uma notícia nos deixa estarrecidos, trata de uma reportagem de que apenas 52 respiradores dos mil comprados pela secretaria de saúde do Rio de Janeiro, entretanto ao receberem os pedidos observou-se que os equipamentos não tratam os pacientes internado com o COVID-19.

Seria possível, uma empresa que atua na venda de equipamentos hospitalares e, acima de tudo, equipamentos de extrema necessidade para o tratamento de pacientes que estão na UTI, necessitando desses aparelhos em meio a uma pandemia, terem a falta de ética de não entregarem o que foi contratado e pior venderem um equipamento que não colabora para o tratamento das complicações ocasionadas pelo novo corona vírus?

As suspeitas sempre recaem sobre os líderes políticos e a investigação aponta que houve fraude na compra dos respiradores. Os detalhes das transações e da realidade dos casos nos assustam pois, onde estão os valores éticos e a realidade da conduta de cada ser humano? Estaríamos hoje em uma grande crise ética em relação aos valores, aos princípios e às normas morais?

 Defender a saúde é promover a vida:

A Bioética tem por objetivo refletir a vida humana e todas as suas realidades e se coloca atenta a responder os questionamentos relacionados com o valor da pessoa, seus direitos e deveres. Assim alguns aspectos sobre a dignidade da vida, a valorização integral do ser humano, a sadia convivência social, o respeito e o cuidado com os animais e planeta, entre outros, são pontos cruciais para a bioética.

Assim, o ponto base da análise dos bioeticistas é a promoção da vida humana e a defesa da saúde do indivíduo. Encarar a realidade de empresas que desejam lucrar com equipamento de extrema necessidade e não cumprirem com o que foi estipulado é desumano e antiético, desrespeitando princípios básicos da relação humana e ferindo aspectos primordiais nas questões da bioética.

É importante observar que as áreas da discussão em Bioética são variadas e é preciso lembrar a sua relação com o meio e com a realidade existente. Além disso é fato que os valores e critérios em cada questão devem ser respeitados. Entretanto ao se falar da vida e da oportunidade de salvá-las, é primordial todos os esforços. Ao lermos notícias, como as relacionadas acima, ficamos abismados pela ganância humana em detrimento de vidas que serão perdidas. Quando o ser humano chegará ao entendimento de que é apenas um ser, uma espécie entre bilhões de outras espécies que existem no nosso planeta?

Infelizmente ainda prevalece o interesse político das grandes empresas que visam o lucro e por causa dos interesses econômicos, colocam em risco a vida humana. Com a atual cultura do descartável, como nos apresentou o Papa Francisco, há uma tendência a tornar a vida humana como “parte do negócio”, algo que se pode negociar. Estamos diante de um “mercado da morte” no qual o ser humano é um artigo a mais. Um mercado sujo, que lucra com a morte das pessoas.

 Garantir a dignidade de vida para todos

Diante desta realidade não é admissível tal descaso dos líderes e responsáveis pela realidade, uma vez que, do ponto de vista ético, é inconcebível que o valor moral da vida esteja subordinado ao poder econômico, algo ultrajante e completamente antiético.

Na realidade, a sociedade está negando que a vida humana tem um valor intrínseco e sagrado desde o seu começo até o seu fim natural. Este valor é primordial, inalienável, a vida humana não pode ser reduzida a um item do mercado global... É preciso conscientizar a todos de que a bioética é uma área da ciência que luta pela vida, que se empenha na garantia dos direitos humanos, anseia pela garantia da dignidade da vida de todos os indivíduos.

Infelizmente, o Brasil está entre os primeiros países com o maior número de mortes a cada 24 horas. Chegamos a marca de mais de 1000 mortes por dia (dados até o dia 29 de maio de 2020). Há um descrédito desta realidade e um discurso de que seja uma invenção e que a economia não pode parar. A economia só é estável, ou está em crescimento, se existe bons empregos e uma boa condição de vida para o seres humanos. Não há economia real sem que preze pela saúde e pela vida das pessoas.

Este debate exige maior atenção à nossa realidade. Os dilemas apresentados, e que por hora batem à nossa porta, apresentam questões urgentes, que exigem novas percepções sobre a condição humana e a valorização da vida com dignidade. É preciso observar a consciência do indivíduo diante do debate bioético, pautado em uma responsabilidade com o próximo, qual o seu nível de consciência e de formação ética contemporânea. Observar sempre a realidade na busca por espaços de discussão diante dos desafios atuais e o descaso com a saúde pública.

 

* Mestre em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) - Professor do Instituto Teológico Franciscano (ITF) - Professor do Instituto Teológico Arquidiocesano Santo Antônio (ITASA) - Editor-gerente e de layout da Revista RHEMA, Revista de Filosofia e Teologia do Instituto Teológico Arquidiocesano Santo Antônio.

 

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