Roteiros Pastorais Palavra de Vida
06/08/2022 Antônio Carlos Santini Edição 3949 6/08/2022 – Da nuvem saía uma voz... (Lc 9,28b-36)

PALAVRA DE VIDA

6/08/2022 – Da nuvem saía uma voz... (Lc 9,28b-36)

            Neste Evangelho da Transfiguração do Senhor, temos duas realidades de alto valor simbólico na Sagrada Escritura: a nuvem e a voz. Na primeira, Deus se oculta; na segunda, Deus se manifesta.

            Desde já, é inevitável a aproximação desta cena com o momento do batismo de Jesus no Jordão. Também ali, enquanto o Filho saía das águas e João via o Espírito Santo baixar sobre Jesus na forma visível de uma pomba, a mesma Voz proveniente da nuvem fazia um reconhecimento: “Tu és o meu Filho bem-amado...” (Mc 1,11; Mt 3,16-17)

            Estamos diante de uma manifestação trinitária, uma teofania em que transparecem as três Pessoas da Santíssima Trindade: a voz do Pai, a presença histórica do Filho nascido de Mulher e o Espírito divino, tanto na visão da pomba, no Jordão, quanto na irradiação luminosa do Tabor.

            A reação dos discípulos inclui temor, silêncio e segredo. É a atitude humana “normal” perante o sagrado. Algo semelhante ao modo como reagiam os hebreus no deserto, quando a montanha fumegava (Ex 19,21-24) ou a nuvem divina preenchia o espaço da tenda de reunião (Ex 33,8-10).

            Quando Pedro sugere que levantem três tendas na montanha, ele “não sabia o que estava dizendo”, comenta Lucas. E é sempre assim quando falamos das coisas divinas. Nossas linguagens humanas – códigos criados para recortar o mundo em que vivemos – são impróprias para designar as realidades espirituais, a vida post mortem e os atributos divinos. Ao falar de Deus, recorremos a imagens antropomórficas, referindo-nos à “mão” de Deus, a seus “olhos”, ao “dedo da mão direita do Pai” [digitus paternae dexterae], chegando ao absurdo de representar o Pai eterno – que, sendo eterno, é imune ao tempo - como um triste velho encanecido.

Por isso mesmo, diante de nossa incompreensão das coisas espirituais, Jesus precisa recorrer a imagens para nos apresentar o Reino de Deus: tesouro escondido, sementes na terra, grão de mostarda, fermento do pão, rede de pesca etc. Nós também não sabemos bem o que dizer de tudo isso, e precisamos da contribuição dos místicos e dos poetas para superar o muro grosseiro de nossa razão.

            É dentro destes limites humanos que vivenciamos nossa fé: entre a nuvem e a voz. Existem fases de obscuridade, quando nosso Deus parece distante, alheio, indiferente, e uma nuvem nos envolve. Há momentos de consolo, quando a voz se faz clara, ressoa suavemente em nosso íntimo e tudo se ilumina como no alto do Tabor.

            Por enquanto, é hora de descer a montanha e assumir nossa missão...

Orai sem cessar: “Senhor, à tua luz nós vemos a luz!” (Sl 36,10)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

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