Roteiros Pastorais Palavra de Vida
14/02/2020 Antônio Carlos Santini Edição 14/02/2020 – Jesus gemeu... (Mc 7,31-37)

PALAVRA DE VIDA

14/02/2020 – Jesus gemeu... (Mc 7,31-37)

                Ao curar o surdo-mudo, tocando seus ouvidos e passando sua própria saliva na língua do infeliz, Jesus ergue os olhos ao céu e solta um gemido. Algumas traduções dizem que ele “suspirou”, mas o verbo grego original – stenáksen – significa realmente “gemer”, e São Jerônimo, ao verter o texto para o latim, usou apropriadamente o verbo “ingemuit”, gemeu.

                Mais uma vez, impressiona o realismo do evangelista e o comovente aspecto da humanidade de Jesus de Nazaré. Ao se encarnar, o Verbo de Deus manifesta nossos traços humanos em lágrimas, suor, inquietações e cansaço. Homem como nós...

                Jean Valette afirma que é preciso ir mais além na reflexão sobre este gemido de Jesus. “O verbo ‘gemer’ é encontrado muito raramente no Novo Testamento, mas em passagens importantes e, em particular, na Carta aos Romanos e na 1ª Coríntios, que parecem ser passagens esclarecedoras para o nosso propósito. Nestas passagens, Paulo fala do gemido dos crentes e de toda a Criação à espera da redenção final (cf. Rm 8,22ss), mas também do Espírito que intercede por nós com gemidos inefáveis (cf. Rm 8,26). Estes textos concordam com o nosso de maneira muito expressiva.”

                “O gemido de Jesus – prossegue Valette – é assim compreendido como o grito de sua carne e de seu espírito diante do poder do mal e do preço que será preciso pagar pela vitória. O gemido de Jesus diante desse homem cativo que o mal mantém ligado, e que representa todo um povo e, talvez, o mundo todo, é ao mesmo temo o eco da dor dos homens e o eco da dor de Deus. Jesus parece estar naquele ponto de virada de sua existência e de seu ministério, quando ele acaba de descobrir que a paixão dos homens e a Paixão de Deus se encontram e se unem nele, para o conduzir até a cruz.”

                O Filho de Deus que assumiu nossa carne “geme” diante da dor humana, a mesma dor que ele assume em seu sacrifício no Calvário. No polo oposto dos deuses do Olimpo e dos panteões antigos, nosso Deus recusa ficar alheio e impassível diante de nosso drama. Por isso, cremos que ele “entende” nossa condição e é capaz de mergulhar nela de corpo e alma.

                Como ensina Hebreus 4,15-16, “não temos um sumo sacerdote incapaz de se compadecer de nossas fraquezas, pois ele mesmo foi provado em tudo, à nossa semelhança, sem todavia pecar. Aproximemo-nos, então, seguros e confiantes, do trono da graça, para conseguirmos misericórdia e alcançarmos a graça do auxílio no momento oportuno”.

                Quando a dor apertar, quando o caminho parecer um beco sem saída, lembremo-nos de que Jesus gemeu por nós...

Orai sem cessar: “Por suas chagas fomos curados... (Is 53,5)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

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