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07/04/2020 Mariana Simões Edição 3922 “Intoxicado até a alma” pelos pesticidas
F/ Outros Quinhentos
"Na Nordeste da Argentina – região onde mais se concentra glifosato no mundo – exposição diária ao pesticida levou camponês a perder massa óssea, até sobrar só pele e osso."

 

Até sua morte, Fabián lutou para mudar modelo agrícola que o condenou.

 “Com o tempo ele foi deteriorando”, diz o médico clínico Dr. Roberto Lesacano, que atende na Província de Entre Rios, no nordeste da Argentina. “Foi uma coisa progressiva. Cada vez mais foi-se deteriorando, até que chegou um momento em que ele não podia mais se mover.” Seu paciente era o camponês Fabián Amaranto Tomasi. Símbolo da luta contra os agrotóxicos na Argentina, Fabián faleceu em setembro do ano passado, aos 52 anos.

Durante quase uma década, Fabián trabalhou para a Molina & Cia. SRL, uma empresa de pulverização aérea que tem uma base em Basabilbaso, um vilarejo em Entre Rios com menos de 10 mil habitantes onde o camponês nasceu e foi criado.

Fabián trabalhava na fumigação de plantações de arroz e soja com agrotóxicos como endosulfan, 2,4-D, clorpirifos e glifosato. Entre as tarefas, ele organizava o estoque, equipava os aviões com o veneno antes de levantarem voo e trabalhava em campo como bandeirinha sinalizando o melhor trajeto para as aeronaves.

Em 2007, Fabián começou a desenvolver machucados na ponta dos dedos e foi até o consultório do Dr. Roberto Lescano. Na época, já sofria de diabetes, e imaginava ser um desdobramento da doença. Mas não era isso.

“Era o início da perda de massa muscular”, diz o médico em entrevista à Agência Pública e Repórter Brasil. “À medida que aquilo foi evoluindo, me dei conta de que [os sintomas] tinham a ver com o histórico de trabalho dele. Foi quando eu o mandei para uma clínica especializada onde eles fizeram os estudos e confirmaram que ele tinha neuropatia tóxica, diz ele. Na análise apareceram vários agrotóxicos.” O distúrbio neurológico leva ao mau funcionamento dos nervos periféricos. Segundo o médico de Fabián, foi a contaminação por agrotóxicos foi o que levou Fabián a desenvolver a neuropatia tóxica.

Fabián viveu durante mais de uma década com o distúrbio e, como consequência, sofreu problemas digestivos, dores nas articulações, mobilidade limitada e perda de massa muscular excessiva.

“Eu estava secando”, disse o próprio Fabián, em um relato que foi publicado no livro “Envenenados”, do jornalista argentino Patricio Eleisegui, em 2013. “Tenho o corpo seco da cintura para cima. Quase não tenho músculo nenhum, só pele e osso.”

Quando começou a trabalhar na empresa Molina & Cia SRL, Fabián, que tinha 1m70cm de altura, pesava 80 quilos. No final da sua vida, pesava 50.

Um ranking da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura - FAO feita pela Phillips McDougall, em 2013, mostra quanto os 20 maiores mercados globais gastam com pesticidas tendo o tamanho da produção agrícola como referência. O cálculo é feito dividindo os gastos absolutos pelas toneladas de alimentos produzidos. A Argentina aparece em 10º da lista (US$ 12 por tonelada) e ganha do Brasil, que chega em 13º (US$ 9 por tonelada).

Um estudo da ONG Naturaleza de Derechos conclui que são considerados cancerígenos 44% dos 82 agrotóxicos detectados em alimentos fiscalizados monitorados pelo SENASA, órgão de fiscalização do governo argentino. Entre eles estão todos os campeões de produção em Entre Rios: tangerina, laranja, arroz e soja.

Segundo o Ministério de Economia, Fazenda e Financias da Argentina, Entre Rios é o segundo maior produtor nacional de arroz e a quarta maior produtora de soja do país. O estado também é líder na produção de amoras e cítricos. [...]

“Fabián teve uma intoxicação massiva por agrotóxicos. Fabián estava intoxicado até a alma. Ou seja, totalmente intoxicado”, explica o terapeuta neural Dr. Jorge Kaczewer, que tratou do camponês de 2008 até o fim da sua vida.

“Todo o seu organismo teve que armar fábricas ou depósitos de emergência para manter todas aquelas substâncias químicas confinadas. Por isso ele formava bolsões de líquido branco no corpo. Eram depósitos de emergência que o sistema dele armava para seguir em frente sem falha total até o final”, explica o Dr. Jorge. “Era como se o seu organismo virasse um campo de guerra. Isso fazia com que ele fosse deteriorando e parecesse cada vez mais pele e osso.” [...]

A família de Fabián nunca recebeu indenização ou apoio financeiro da empresa Molina & Cia. SRL.

Fonte: Repórter Brasil, apud Outros Quinhentos

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