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26/02/2021 Denilson Mariano Edição 3933 Converter-se e superar o ódio (CFE 2021 2/3)
F/ CNBB / Conic
"Esta Campanha da Fraternidade 2021, ao ser celebrada de forma ecumênica, quer recuperar esta atitude de Jesus que relê as Escrituras para iluminar os desafios que enfrentamos na realidade. O que temos cultivado mais: a paz e a unidade ou o ódio e a divisão?"

Converter-se e superar o ódio (CFE 2021 2/3)

Esta CFE 2021 traz como pano de fundo a caminhada de Jesus com os discípulos de Emaús. Neste relato, Jesus chama a atenção dos discípulos por conhecerem as Escrituras, mas não a utilizarem para iluminar os acontecimentos: “Como vocês custam para entender, e como demoram para acreditar em tudo o que os profetas falaram!” (Lc 24,25). A Palavra de Deus e a religião têm a missão de ajudar a abrir os olhos, devolver a esperança para o povo e a ter um olhar de otimismo diante das situações difíceis e violentas. Por isso, Jesus percorre as Escrituras procurando as passagens que ajudam a ler a realidade sofrida com novos olhos. Para além da decepção e do fracasso, a esperança, a vitória da vida sobre a morte.

Na medida em que Jesus explicita as Escrituras, o coração se abre e fica aquecido. A Palavra começa a iluminar de dentro para fora. Por isso, no relato de Emaús, mesmo quando cai a noite, está claro por dentro dos discípulos, pois eles passam a contemplar com o coração. Recordando a fala do Pequeno Príncipe: “Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.” A missão da religião é ser luz na vida das pessoas, é expulsar as trevas com a luz da Palavra de Deus. Jesus usa as Escrituras para expulsar as sombras de dor e decepção que haviam tomado conta dos discípulos.

Infelizmente, nem sempre a religião tem desempenhado esse papel de iluminar e aquecer os corações. Durante a pandemia, a pastoral da Igreja foi profundamente afetada, com muitas de suas atividades suspensas, sobretudo nos primeiros meses. Após o retorno, tais atividades têm sido realizadas com restrições, tendo impactos profundos na vida e na organização eclesial. As tecnologias digitais deram origem a inúmeras iniciativas, na liturgia, na pregação, na formação, na realização de encontros de todo tipo.

Religião a serviço da vida?!

Porém, muitos discursos e pregações religiosas caminharam na contramão do Evangelho de Jesus reforçando as sombras do medo e da intolerância: associaram a pandemia ao fim do mundo, espalharam teorias de conspiração (“vírus chinês”, “estratégia de dominação comunista”) que confundiam as pessoas. Atitudes irresponsáveis que se afastaram da prática de defesa da vida ao forçar a abertura das igrejas apesar do risco de contaminação e levar ao descrédito das palavras e recomendações do Papa Francisco. O que, de fato é o mais importante: templos abertos com celebrações numerosas (e o recolhimento do dízimo) ou serviço à vida preservando as pessoas do contágio do vírus?

A religião, que deveria dissolver as sombras, tem sido instrumentalizada para justificar atitudes racistas, discriminatórias e violentas. Isto se vê no anseio de forçar os indígenas a abandonarem as suas crenças religiosas, na violência contra os cultos de origem africana, ignorando que essa religiosidade tradicional é fonte de vida e resistência. Cresceu a intolerância religiosa que se fortalece com o racismo, o fundamentalismo e a xenofobia, ou seja, o preconceito que leva ao ódio e à violência com estrangeiros. Levantaram muros de separação, fortaleceram as polarizações. A verdadeira religião, a exemplo de Jesus, constrói pontes, aproxima as pessoas, busca a justiça e a paz. Faz ver com o coração.

Esta Campanha da Fraternidade 2021, ao ser celebrada de forma ecumênica, quer recuperar esta atitude de Jesus que relê as Escrituras para iluminar os desafios que enfrentamos na realidade. Quer mostrar que apesar de nossas diferenças, e até por meio delas, podemos nos reconhecer como irmãos e irmãs de diferentes confissões. Unidos temos mais forças para vencermos as sombras que nos rodeiam e prejudicam a tantas pessoas. Para isso precisamos abrir o coração, corrigir nosso olhar, rever nossas atitudes à luz das ações e dos ensinamentos de Jesus.

Na expressão de um jovem teólogo, Francisco Aquino Júnior, “temos que construir vacinas eficazes para a paz. Seus insumos fundamentais são ‘o direito e a justiça’ (Is 1,27) ... E sua produção se dá na força do Espírito, nas relações interpessoais e sociais e nas lutas pelos direitos dos pobres e marginalizados.” Isso está em sintonia com o Evangelho, com os ensinamentos da Igreja e com o Magistério do Papa Francisco.

Converter-se é também superar o ódio

No Evangelho de João 8,3-13, os doutores da lei e os fariseus trazem a mulher para ser apedrejada, o ódio ao pecado se mistura com um ódio ao pecador. O jeito de Jesus lidar com aquela situação é muito interessante. Ele como que convida para tomar certa distância do fato, faz silêncio e começa a escrever no chão. Jesus como que chama a atenção para o está escrito na Lei e como os doutores a estavam interpretando. A lei dizia que o homem se tornava réu de morte e com ele a sua cúmplice, a mulher (cf. Lv 20,10). No entanto, somente a mulher estava para ser apedrejada. A Lei estava sendo distorcida em favor dos homens e em prejuízo das mulheres.

Jesus vai além e provoca outra atitude, Ele desafia: “Quem não tem pecado, atire a primeira pedra” (Jo 8, 7). Em outras palavras, quem está correto diante da Lei, faça cumprir a Lei. No entanto, todos eram devedores diante da Lei. Por isso, vão saindo aos poucos, - com certeza envergonhados -, a começar dos mais idosos. Depois, Jesus abre um diálogo com a mulher, por meio dele acolhe e perdoa. Jesus nos revela a necessidade de nos convertermos, de superar o legalismo e o ódio. Também a necessidade de perdoar, pois toda pessoa é maior que o seu erro. Um erro cometido, por pior que seja, não tira o direito à vida. A vida é um direito inalienável, que não se perde, não se negocia...

Esta CFE 2021 quer que também nós sejamos mais atentos aos ensinamentos de Cristo e da Igreja. Não raro, muitos têm uma presença na comunidade fé, vão à missa, participam dos sacramentos, até leem com regularidade a Bíblia, mas não trazem consigo as atitudes cristãs. São católicos e evangélicos, mas não são cristãos. Isto acontece quando as pessoas falam de paz, de amor, de fraternidade, mas não venceram o ódio que fez morada dentro delas. Por isso alimentam atitudes racistas, discriminatórias, repetem que “bandido bom é bandido morto”, lutam contra o aborto, mas apoiam a pena de morte e a violência policial... O nome de Deus tem sido utilizado até para defender posições ideológicas contrárias à vida. Um exemplo de cristãos só de casca, feito pão bolorento, bonito por fora, podre por dentro.

Agir e viver como Jesus

No relato acima, as pessoas traziam as mãos cheias de pedra. Esta CFE que nos desarmar. Precisamos vencer o ódio com atitudes. Nos desarmar significa ajustar a vida à Palavra de Deus, vencer os preconceitos, aprender de fato a perdoar. Só assim podemos construir uma sociedade mais humana e fraterna. Somos convidados também a relançar a campanha contra as armas de fogo, não é armando a população que se resolve o problema da segurança pública. Esse problema passa pelo investimento na educação, na oferta de empregos, na qualificação para o mercado de trabalho, na valorização do trabalhador(a), na melhoria das condições de vida...

Tendo presente a importância da vivência cristã, de pautar a nossa vida pela Boa Nova de Jesus, esta CFE tem também por objetivo: denunciar as diferentes violências praticadas e legitimadas indevidamente em nome de Jesus; Promover a conversão para a cultura do amor, como forma de combater cultura do ódio; Fortalecer a convivência ecumênica e inter-religiosa (TB 3)

Esta CFE nos lembra: “As comunidades cristãs são chamadas a serem este espaço, que gera esperança e possibilita sonhar, exercitar e concretizar esta Boa Nova de que podemos ser protagonistas de histórias sem discriminações, preconceitos e violências. Uma comunidade viva e coerente com o Evangelho esforça-se para experimentar esta nova realidade revelada em Cristo, ou seja, sem relações de injustiça, de poder opressor, de desigualdade, abuso e orgulho. Ser coerente com a Boa Nova é não cair na tentação de praticar a falsa paz da sociedade greco-romana.  O esforço para não nos afastarmos da Boa Nova é diário. Sempre que nos afastamos da Boa Nova deixamos de ser “sal da terra e luz do mundo” (Mt 5.13-16).  Perdemos a capacidade de ser fermento na massa” (TB 139).

APROFUNDAMENTO: O que temos cultivado mais: a paz e a unidade ou o ódio e a divisão? Que tal rever nossos relacionamentos em família e comunidade?

 

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