Variedades Crônica
13/07/2019 Maria Edição 3914 Pensamento azul
F/ Click Riomafra
"Até hoje, não me ajeito bem com doutor, padre e soldado... Coisas da infância..."

Maria

E foi sempre assim: tanta beleza, tanta emoção achada em encontros breves, quase esbarradelas nas esquinas, nas portas da rua, em lugares inusitados... Migalhas jogadas ao vento, mas que caíram- todas - em meu coração. E, passado tanto tempo, é com elas que enfeito minhas lembranças...

Esquina de minha rua. Eu ia apressada para uma comprinha - de ultima hora - no armazém.

Esbarro com a mocinha alegre:

- A senhora é a Dona Branca?

- Ei, sou eu!

- Eu sou filha do PENSAMENTO AZUL...

- Não acredito, menina! E quede ele? Sumiu...

- Sumiu mesmo, Dona Branca! Ele tinha a cabecinha leve, me deixou com minha madrinha... E azulou no mundo...

Fiquei o dia todo pensando naquele hominho estranho, de roupa estranha, que rodava nas estradas, descalço, carregando encomendas de uma cidade para outra...

Trazia cortes de seda para minha mãe fazer vestidos bonitos para as moças das redondezas... Mamãe tinha mãos de fadas para enfeitar as moças.

Aquele nominho cor de nuvem, Pensamento Azul, encantou minha infância: tinha medo daquelas roupas diferentes – calças ralas, nos joelhos, coisa nunca vista antes. Um camisolão caindo pelo corpo, uma trouxinha pendurada numa vara lisinha, de tão usada.

Aceitava um prato de comida, na loja de papai, palco para os mais bizarros acontecimentos de Estrela. Lá era o pouso do Pensamento Azul, que nem cochilava, vigiando sua trouxinha de encomendas. Os caixeiros - conhecedores de suas manias - mostravam-lhe um espelho enorme, onde os fregueses experimentavam suas compras... Até hoje, não sei se ele tinha horror ao espelho ou à figura que ele via lá dentro... Então, ele azulava pela rua, dando um assobio compriiiiido de passarinho...

- Quem sabe, ele era um passarinho de verdade, uma nuvem azul que se soltou do espaço? Só sei que sua figura ficou pra sempre em minhas lembranças mais bonitas...

Outro dia, apressada para a fisioterapia, dou de testa com um rapaz suado, que chegou quase correndo para me alcançar...

- D. Branca, meu chefe quer escrever o nome do mosquito da dengue e não sabe, nem eu... Escreve aqui pra mim... Ele precisa mandar um ofício agora... Ninguém da Repartição sabe escrever este nome...

Quase morri de susto!

- Que isso, menino? Me mata do coração!

- Desculpa, desculpa... Eu ia na casa da senhora, te vi subindo e corri pra te cercar aqui na esquina...

- Pelo amor de Deus, numa hora dessas, uma manhã tão bonita e vocês pensando no bendito mosquito... Pera aí...

E ia falando, enquanto tentava lembrar as letras aborrecidas fora do lugar: sei que tem um Y, sei que é em latim, credo, menino... Não podia ser outra palavra mais fácil? Credo!

Respirei fundo, espremi a cabeça e escrevi nas costas de um talão de cheques que o moço me estendia: AEDES AEGYPTI...

- Deus te pague! Ainda bem que a senhora acode a gente em qualquer hora...

E saiu voando, um mosquitinho procurando uma água parada pra descansar...

Foi outro dia mágico... Rimos muito tempo por causa do Aedes Aegypti... Cá pra nós, eles podiam bem pôr um nome tupiniquim nesse bichinho antipático...

Foi nada não... Até hoje, não me ajeito bem com doutor, padre e soldado... Coisas da infância... O soldado te prende, o doutor te aplica injeção, o padre te dá uma penitência de mil Pais-Nossos... Também, tinha medo de Deus, por causa do olho dele que via tudo, nas gretinhas, nos buraquinhos, no escuro... (Com Ele, já fiz as pazes... Com os outros, continuo com um pé estrelado...)

Mas vai daí...

- Eu dava aula no Curso de Contabilidade, à noite, para jovens de diversas idades, alguns já casados, outros já profissionais e alguns mal saídos do primeiro grau. Já viu, turma diferente, ideias diferentes, a professora tinha de fazer malabarismo para dar sua matéria...

Dentre os adultos, havia um aluno, claro, calado, bem organizado, educado, cheio das antiguidades que hoje são peças de museu: Com licença, muito obrigado, até amanhã, por favor... desculpa...Um brinco o meu aluno!

Um belo dia, pense em um adolescente crisento... Perturbava a aula com mil risadinhas, mil bolinhas de papel, mil piscadelas provocantes para as colegas... Não pensei duas vezes:

- Menino, presta atenção à matéria... Olha o exemplo de seu colega... E apontei para o aluno-modelo:

- Eu, hein? Fessora, ele já é velho... Já é até soldado!

A sala estourou numa risada só e a cabeça da professora estourou de susto...

Daí em diante, bem que eu tentava, mas o aluno-soldado tirou meu jeito de dar aula, fiquei cerimoniosa, me vigiando... Quase batia continência quando chegava àquela turma...

Ainda topei com outro, na esquina, que me deixou parada, de pés amarrados, custei a continuar andando:

- Oi, Dona Branca!

- Oi! Tudo bem?

- A senhora não me conhece mais?

Observei bem aquele moço moreno, bem posto e....

- Lalado, você virou soldado??!!!

Era o entregador de pães, lá em casa, quando minha turma era pequena e chorona.

Um dia, até combinei com ele:

- Lalado, não grita mais, os meninos acordam e eu tenho de sair pra escola... Vou pôr uma cestinha na janela, você chega, caladinho e põe o pão...

Só que o costume era antigo e, muitas vezes, o padeirinho gritava:

- Paaa-dei-rooooo!!!

A rua toda acordava e a meninada abria a boca sem a mãe por perto...

Rimos muito dos causos e eu nunca mais olhei o Lalado como o padeirinho... Pra mim, agora, ele é soldado... pode me prender...

Gente do Céu! Numa paradinha encontrei-me com a dentista, uma amiga de sempre. Conversa fiada, cor do cabelo, modelo da blusa, comprimento da saia, esses embondos de mulher...

Eis que aprece um homem, barbado, cabelo de franja, um bigode mais desusado, óculos escuros, uma figura...

- Ah! Doutora, foi bom encontrar a senhora aqui!

Ante nosso espanto, o brucutu abriu uma boca desse tamanho, mostrava um dentão, mostrava outro, conversando, cuspinhando, querendo um diagnóstico para sua ponte fixa...

A minha amiga fez o que pôde, quase se ajoelhou para ver o céu da boca do homem e eu, desmaiada de rir, encostada no muro pra não cair....O trio se desfez, fui rindo, trombando nos muros, rindo, rindo, rindo, até encontrar a porta da minha casa... E ainda ouvi o carinhoso sermãozinho do BEM, para que eu não risse desse jeito na rua... Esse dia também ficou nas minhas histórias e ele é lembrando até hoje, com filhos e netos, fazendo as encenações, verdadeiro teatro... Só falta o sermãozinho do BEM, educando anjos lá em cima...

Pois é. Eu adoro anjos. Do céu e da terra... Como os do céu estão longe demais dos meus pobres olhos, contento-me com os da terra mesmo... Num maio qualquer, um anjo passou em minha porta, de mãos dadas com a mãe, e falou com voz de mel:

- A senhora me dá umas rosas pra eu levar pra coroação?

Virei anjo, criei asas, ganhei um diadema e uma cestinha perfumada de pétalas de flores... O tempo voltou: eu estava com 6 anos, morava numa terra estrelada e ia pra igrejinha coroar Nossa Senhora...

Mas... Eis que chegou outro anjo, adulto, tão inocente quanto o anjinho que já se fora...

- Eu também quero flor, quero flor, quero flor.

- Vou rezar, vou rezar, vou rezar...

Era o nosso Sabará, cabecinha de nuvem, olhos de fada: a cada dia se vestia de um jeito. Hoje, era mulher de saia comprida e blusa decotada... Outro dia, era bebê, de macacão, touca e chupeta...

Naquela tarde, era um anjo de batom, lindas asas brancas e camisola de cetim, no meio das canelas. O anjo usava botinas e uma tiara de estrelas...

- Pode escolher, Sabará, pode escolher... O anjo tirou um canivete de dentro da camisola de cetim e tosou quantas flores ele quis...

Foi dançando com o buquê perfumado nas mãos, cantando modinhas e rezas, numa mistura que só Nossa Senhora e os anjos do céu entenderiam...

Fiquei olhando a rua... O Sabará sumiu na esquina...

Meu coração pegou mais essa migalha de beleza e guardou-a junto a mil outras que me fazem tão feliz: soldados, mosquitinhos da dengue, consultas com a dentista, em plena rua, anjos e anjos...

Verdade, meu caminho é de encantamentos... de migalhas mágicas que mantêm uma menina estrela dentro de uma bisavó de pensamento azul...

 

 

 

 

 

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