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13/05/2019 Pe. Agenor Brighenti Edição 3912 Um carisma missionário a serviço da vida 13 de maio - dos Sacramentinos de Nossa Senhora
"Se por um lado é desafiante carregar a herança de um carisma que conjuga Eucaristia-Missão-Maria, por outro, é alentador ver nesta Congregação a visibilização de mistérios da eternidade na precariedade do presente."

 

 Pe. Agenor Brighenti

Foram de rico convívio os dias em que tive a ocasião de estar em reunião de estudos com os padres, irmãos e estudantes sacramentinos, oriundos de diversas regiões do país. Na pauta, os desafios da evangelização no mundo de hoje, particularmente na cidade, e as perspectivas pastorais que Conferência de Aparecida abre para a missão na atualidade. O local dos trabalhos não poderia ser mais adequado – Manhumirim, o berço onde o carisma sacramentino foi se desenhando no profícuo trabalho do fundador, Pe. Júlio Maria. Os participantes, em sua maioria, eram padres jovens, que devotam admiração e gratidão à geração dos colegas de cabelos grisalhos, corajosos apóstolos da renovação do Concílio Vaticano II e da tradição latino-americana. O que não é muito comum em tempos de involução eclesial. E, ainda que os dias de trabalho tenham sido cheios, reinou um ambiente de seriedade e humor, de reflexão e memória de práticas, de oração e convívio fraterno.

Voltando para casa, gentilmente transportado no trajeto até Belo Horizonte por dois abnegados padres, fui pensando na atualidade do carisma sacramentino; na riqueza da vida religiosa de tradição, que guarda esta sabedoria de fazer o Evangelho como um todo tornar-se relevante no percurso da história. Carismas que não só não morrem, como continuam desafiando a sempre atual mensagem cristã. Para mim, além da grata surpresa de Aparecida também me surpreendeu a atualidade deste carisma, o que faz da V conferência uma dupla grata surpresa para os sacramentinos. Trata-se de um carisma intrinsecamente eclesial e evangelizador – Eucaristia, Missão, Maria, eco da desafiante proposta missionária de Aparecida, que brota da Eucaristia e tem, em Maria, a perfeita discípula.

Eucaristia e missão

 Sabemos da centralidade da Ceia Pascal na vida de Jesus e no ser e na missão da Igreja. Lembrou-nos Vaticano II que a Eucaristia faz a Igreja e a Igreja faz a Eucaristia. E, Aparecida recorda que ela é fonte e cume da vida cristã (cf. LG 11), sua expressão mais perfeita e o alimento da vida em comunidade. É nela que a comunhão da Igreja se nutre das duas mesas – a mesa da Palavra e a mesa do Pão, fazendo-nos membros do mesmo Corpo de Cristo (1 Cor 10,17). Por isso, a Igreja que a celebra, é “casa e escola de comunhão” (NMI 43), onde os discípulos partilham a mesma fé, esperança e amor ao serviço da missão evangelizadora (DA, 158). Um convite aos sacramentinos a continuar sendo “casa e escola de comunhão”.

 Para Aparecida, a missão brota do encontro com Jesus Cristo e a Eucaristia é o lugar privilegiado do encontro do discípulo com Mestre. Nela, Jesus nos atrai para si e nos faz entrar em seu dinamismo, em direção a Deus e ao próximo. Por isso, ela é fonte inesgotável da vocação cristã e também fonte inextinguível do impulso missionário. A partir do encontro eucarístico, a vida do cristão se abre a uma dimensão missionária. Ali o Espírito Santo fortalece a identidade do discípulo e desperta nele a vontade decidida de anunciar com audácia aos outros o que ele escutou e viveu (DA, 252). Missionariedade esta que os sacramentinos estão fazendo acontecer na expansão de sua presença, de modo especial, nas regiões mais carentes do país, como o Nordeste e a Amazônia.

 Nesse banquete, participamos da vida de Deus e, assim, nossa existência cotidiana se converte em uma Missa prolongada. Porém, para que a Eucaristia possa produzir frutos, implica de nós um espírito comunitário, abrindo os olhos para reconhecê-lo nos pobres: “No mais humilde encontramos o próprio Jesus” (DCE 15) (DA, 354). A Eucaristia, sinal da unidade com todos, que prolonga e torna presente o mistério do Filho de Deus feito pobre, nos coloca, portanto, a exigência de uma evangelização integral (176). As obras sociais dos sacramentinos, particularmente com as crianças carentes em Manhumirim, querem ser expressão da Eucaristia, Pão partido, especialmente com os mais pobres.

 Para Aparecida, a Eucaristia é princípio e projeto de missão do cristão (DA, 175). Nela o Espírito Santo fortalece a identidade do discípulo e desperta nele a vontade decidida de anunciar com audácia aos outros, o que ele escutou e viveu (DA, 252). Advertem os bispos, no entanto, que a força deste anúncio de vida só será fecunda se o fizermos de modo adequado, ou seja, com as atitudes do Mestre, tendo sempre a Eucaristia como fonte e cume de toda a atividade missionária (363). Discipulado é seguimento, configurado ao Mestre.

 Por isso, diz Aparecida, recordando que a Eucaristia faz a Igreja, é preocupante a situação de milhares de comunidades, privadas da Eucaristia dominical, por longos períodos de tempo (DA, 100e). Mais de setenta por cento de nossas comunidades que se reúnem nos finais de semana não têm direito à Eucaristia. Mas isso, não dispensa viver “segundo o domingo”. Enquanto não se encontra uma solução a este problema, além de desejar a Eucaristia, que os fiéis participem da “celebração dominical da Palavra”, pois também nela se faz presente o mistério Pascal no amor que congrega (cf. 1Jo 3,14), na Palavra acolhida (cf. Jô 5,24-25) e na oração comunitária (cf. Mt 18,20) (DA, 253).

Missão e Maria

Recorda Aparecida que encontramos Jesus através de Maria, a discípula mais perfeita do Senhor (DA, 266). Com ela, chega o cumprimento da esperança dos pobres e do desejo de salvação. Perseverando junto com os apóstolos à espera do Espírito, ela cooperou com o nascimento da Igreja missionária (DA, 267). Ela é artífice da comunhão (DA, 268), a grande missionária, continuadora da missão de seu Filho (DA, 269), imagem acabada e fidelíssima do seguimento de Cristo (DA, 270). Com os olhos postos em seus filhos e em suas necessidades, como em Caná da Galiléia, ela cria comunhão e educa seus filhos para um estilo de vida compartilhada e solidária, em atenção e acolhida do outro, especialmente se é pobre e necessitado (DA, 272).

Como podemos perceber, se por um lado é desafiante carregar a herança de um carisma que conjuga Eucaristia-Missão-Maria, por outro, é alentador ver nesta Congregação a visibilização de mistérios da eternidade na precariedade do presente. Alegro-me ver os sacramentinos fazendo eco da esperança que renasce em Aparecida.

 

 

Florianópolis, SC

 

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