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A tentação da Igreja Participação ativa Um porto seguro para casais, sacerdotes e religiosos(as) Chamados para uma missão Comitê de Bacia investe em saneamento

A tentação da Igreja

Carlos Scheid

Uma rápida varredura na História da Igreja permite identificar a tentação permanente que ronda o “pessoal da Igreja” – expressão de Jacques Maritain – quando a missão parece difícil, as barreiras se multiplicam e a solução aparente est…

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Participação ativa

Um dos princípios orientadores da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II foi o da “participação ativa”, como lemos no número 14 da Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium [SC]: “É desejo ardente na mãe Igreja que todos os fiéis cheguem à…

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Um porto seguro para casais, sacerdotes e religiosos(as)

O EMM nos dá um presente, que é viver o FDS, um verdadeiro encontro consigo, com o outro e com Deus, que nos mostra o caminho para a conversão com mudanças de atitudes, a escuta com o coração e com a decisão de amar sempre. Isto tem sido um porto seg…

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Chamados para uma missão

João da Silva Resende, SDN*

 

“Eu te segurei pela mão, te formei e te destinei para unir meu povo e ser luz das nações. Para abrir os olhos aos cegos, tirar do cárcere os prisioneiros e da prisão os que moram nas trevas.” (Is 42,6-7.) Assim …

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Comitê de Bacia investe em saneamento

CBH-Manhuaçu conclui 16 Planos Municipais e agora acompanha sua implantação.

Passam-se os anos, trocam-se governos, novas políticas públicas são anunciadas e o saneamento básico segue um descalabro no Brasil. Embora seja um direito previsto na Const…

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Olutador Charlie

Não me identifico com Charlie. Je ne suis pas Charlie!

Rosinha Martins *

A chacina recentemente acontecida em Paris contra o Charlie Hebdo tem-me dado uma coceira na língua e uma vontade inquieta de usar a minha liberdade de expressão para dizer o que penso sobre o ocorrido, que é, a meu ver, sintomático.
Primeiro, gostaria de recordar como fui educada: dentro de uma cultura católica tradicional mineira, pais católicos, dez irmãos. Fato é que aprendemos a andar e a falar com papai e mamãe ao nosso lado, sempre nos instruindo sobre o que é preciso para ser feliz: A fé, valores humanos como o respeito pelo outro, limites, honestidade, a verdade, gestos de delicadeza e educação como “a sua bênção” “bom dia”, “por favor”, “obrigada”, “desculpe-me”… Não quero dizer que esse jeito mineiro de educar é o melhor, mas verdade é que meus irmãos e eu somos muitos felizes, devido, com certeza, à educação que tivemos.
O que quero dizer com isto? Que é na família, base fundamental da sociedade para o nosso bem-viver, que se aprende a ser humano. Não nascemos humanos, nos tornamos humanos, e valores e limites vêm de berço.

Liberdade de expressão
para quê e para quem?
Confesso que não contive as lágrimas diante da notícia de que colegas de profissão foram mortos, sendo chamados pelo nome, sem o direito de defesa. Duro de aceitar, não muito difícil de entender o que levou a um assassinato tão cruel. E a imprensa em geral se perguntou sobre a liberdade de expressão.
Pensei com meus botões: interessante, todos os jornais do mundo inteiro expressaram um único ponto de vista em relação ao massacre do Charlie. Nenhum jornalista, nenhum meio de comunicação teve a ousadia de usar sua liberdade de expressão para ajudar a sociedade a pensar nos 6,2 milhões de muçulmanos que, na sua maioria, vivem à margem da sociedade na França, mantidos como segunda classe, numa situação que tende a piorar cada vez mais; não foi usada a liberdade de expressão para exaltar o respeito ao outro e à religião do outro, a ética, os valores.
De acordo com Plínio Zúnica “um relatório do Observatório Europeu do racismo e xenofobia aponta que, na França, a chance de alguém de origem árabe/muçulmana conseguir um emprego é cinco vezes menor do que um caucasiano com as mesmas qualificações. Além disso, eles possuem menos acesso à educação formal, vivem nas áreas mais sucateadas das cidades e estão sujeitos a todo tipo de discriminação e violência física. O relatório aponta o sentimento de desespero e exclusão social do jovem muçulmano, que vê sua possibilidade de progressão social dificultada por racismo e pela xenofobia”. Sofrimento à parte, seria um momento excelente para chamar a sociedade à tolerância, ao respeito às diferenças. Que maravilhoso seria se Charlie fizesse charges apontando os pontos positivos do Islã, do cristianismo, do judaísmo e de todas as religiões que sempre foram seu alvo, aspectos que levam à igualdade, à liberdade, à fraternidade, à justiça, à convivência fraterna!

O pensamento da Igreja
Eu esperava ansiosamente um pronunciamento de Francisco e respirei aliviada quando li o que disse aos jornalistas, numa conversa informal em uma viagem aérea na Ásia: “É aberração matar, mas não se pode insultar a religião dos outros”. Por assim se manifestar, o Papa já foi criticado em uma matéria da “Folha de São Paulo”, intitulada “Francisco, porque não te calas?”
Vale, aqui, ter a capacidade de captar o que Francisco quer dizer: acima de tudo, na face desta terra, o amor ao próximo, o respeito pelo outro, tão esquecidos em nossa sociedade atual.
Em nome da liberdade de imprensa pode-se passar por cima do outro e eliminá-lo e colocá-lo à margem com uma caneta, porque é diferente, pensa diferente. Ou por outro lado, também, por se sentir ofendido, elimina-se o outro, faz com que se cale para sempre à base das armas. Tudo errado.
O ser humano é uma criatura muito especial, feita por Deus com muito amor, e essa delicadeza exige respeito e amor mútuo, caso contrário a convivência no planeta fica insuportável. As diferenças precisam ser vistas como riqueza, como beleza que faz deste mundo um espaço dinâmico, colorido e agradável de viver, graças à grandeza e sabedoria do Criador. A mensagem de Francisco é de suma importância neste momento. A meu ver, ele deu um simples e fundamental recado aos jornalistas para o exercício de suas profissões: ‘Sejam éticos’.

Je ne suis pas Charlie. Eu não sou Charlie!
Eu não sou a favor do terrorismo, sou a favor do direito de viver de qualquer criatura elaborada pelo Criador, de maneira tão carinhosa e delicada. Defendo a vida até das baratas, embora me causem horror, imagine de um ser humano!
Je ne suis pas Charlie. Não sou Charlie. Não posso negar a minha crença, nem os valores ensinados com tanto esforço pelos meus pais, pela minha fé católica. Para mim, as charges de Charlie, todas elas relativas à religião e ao diferente, manifestam a incapacidade de criatividade, pois sempre o tom é de ofensa, de brincadeira sem graça. […] A quem tem feito rir a sátira do Charlie? Ela anda na esteira de qualquer piada racista. Aliás, toda piada tem fundo preconceituoso e incita a intolerância, ainda que sutilmente.
Como gostaria, parafraseando o historiador Antonio Piber, que Charlie evoluísse, se tornasse mais criativo, trouxesse à tona charges que fazem as pessoas se sentirem felizes, valorizadas, amadas, charges que incitem o respeito, a tolerância, a paz.
Vale lembrar que a Igreja Católica da França, várias vezes, processou Charlie por se sentir desrespeitada por sua sátira. Os extremistas, por sua vez, arranjaram outra forma de denunciar a ofensa. Como diz Piber, “ninguém é obrigado a ser ofendido calado”.
Ao dizer que não sou Charlie, quero dizer que me causa espanto uma mídia seletiva que consegue sensibilizar o mundo todo com o sofrimento de um grupo de cartunistas franceses, de classe média, mas não conseguem ajudar a sociedade, os governos a lutar pela cura do Ebola, que tira a vida de milhares de africanos. Mídia que não consegue sensibilizar e fazer o mundo se voltar para os haitianos, que não conseguiram reconstruir nem o país nem as pessoas desde 2010. Mídia que não consegue, com o seu poder de formar opinião, movimentar o mundo para que acabem as guerras no Oriente Médio, que dizimam as famílias aos milhares e milhões, deixando tantas crianças mortas e milhares de outras desestruturadas psicologicamente.
Voltemos nossos olhares para o Brasil: que lugar ocupam as populações ribeirinhas, as pescadoras artesanais, os sem teto, os doentes, as mulheres, as crianças sem escola, os migrantes, os pobres do nosso país? A mídia não favorece à sociedade brasileira pensar na juventude, que é assassinada e excluída, na população indígena que sofre e morre na defesa da natureza e do seu habitat natural, numa televisão totalmente branca em um país onde 70% da população é afrodescendente. Onde estão os jornalistas negros? Onde estão os artistas negros?
Por estas situações, a mídia não gera choro nem indignação coletiva, nem leva a população às praças. Ao dizer que não sou Charlie, quero dizer: eu não sou “Jornal Nacional”, eu não sou “Folha de São Paulo”, eu não sou “Record”, eu não sou “Band”, Je ne suis pas “Rede Globo”. Essa mídia não me representa.

Não nascemos humanos,
nos tornamos humanos,
e valores e limites
vêm de berço.

Um mundo carente
da ética da alteridade
Nascido em família judaica, o filósofo Emmanuel Lévinas viveu os horrores do campo de concentração e ali desenvolveu a teoria da alteridade.
Parece-me especial esta expressão do filósofo ao tratar do respeito ético pelo “outro-aí-comigo”: “O rosto é significação, e significação sem contexto. Quero dizer que outrem, na retidão do seu rosto, não é uma personagem num contexto. […] Ele é o que não se pode transformar num conteúdo que o nosso pensamento abarcaria; é o incontível, leva-nos além. Eis por que o significado do rosto o leva a sair do ser enquanto correlativo de um saber. Abre-se, em definitivo, a dimensão metafísica do rosto: o rosto é o que não pode ser conhecido, o que não pode ser contido, mas o que, ainda assim, significa”. (E. LÉVINAS, Totalidade e Infinito, p. 176). Isto quer dizer que o outro é diferença e mistério que exige de mim uma reverência e uma capacidade de constante busca de conhecimento deste mistério que se me revela de diferentes maneiras e gera um encanto pela beleza escondida que a minha abertura deixa revelar.
Para Lévinas, no rosto do outro está contido um imperativo categórico que a cada instante me provoca: “Não matar”. Ao não aceitar a diferença, pelo simples fato de sê-lo, e não respeitá-la, já estou matando-a, assassinando-a. Se trazemos esse pensamento de Lévinas para as relações humanas atuais, encontraremos uma relação capenga, submersa na intolerância com o outro, perceptível a cada momento em que deixo de empregar uma pessoa porque não condiz com o padrão de beleza imposto, porque porta alguma deficiência, por causa da sua cor, quando excluímos do nosso convívio o negro, o favelado, tirando-lhes oportunidades, quando fazemos piadas com a loira, com o padre, com o gay, com o judeu, com o muçulmano… Imaginem quantos assassinatos cometemos, sem sermos punidos. Punidos são os humilhados e ofendidos porque não têm voz nem vez.

Pecado de omissão
Foi um verdadeiro horror. Lamento pelos meus colegas na profissão, que morreram de forma tão brutal. Porém, a justiça francesa poderia ter evitado esse massacre desde os primeiros processos abertos contra o Charlie. Que a França reconheça isso e leve a sério o respeito às diferenças para evitar que sangue e mais sangue seja derramado por pecado de omissão. Com uma caneta, não se mata da forma física, como estamos acostumados a assistir em nossos tempos, mas uma caneta tem grande poder de matar e de incitar o ódio e a violência.
Por fim, concluo dizendo que je ne suis pas Charlie, e faço um apelo aos meus colegas do jornalismo: sejamos éticos no nosso fazer, incentivemos a paz com a nossa liberdade de expressão, pois não somos sozinhos no mundo e a liberdade tem limite, sim. J’ai fini.]

*Rosinha Martins é jornalista, missionária scalabriniana e assessora executiva da Conferência dos Religiosos do Brasil.
E-mail: rosinhamarketing@hotmail.com

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