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A tentação da Igreja Participação ativa Um porto seguro para casais, sacerdotes e religiosos(as) Chamados para uma missão Comitê de Bacia investe em saneamento

A tentação da Igreja

Carlos Scheid

Uma rápida varredura na História da Igreja permite identificar a tentação permanente que ronda o “pessoal da Igreja” – expressão de Jacques Maritain – quando a missão parece difícil, as barreiras se multiplicam e a solução aparente est…

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Participação ativa

Um dos princípios orientadores da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II foi o da “participação ativa”, como lemos no número 14 da Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium [SC]: “É desejo ardente na mãe Igreja que todos os fiéis cheguem à…

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Um porto seguro para casais, sacerdotes e religiosos(as)

O EMM nos dá um presente, que é viver o FDS, um verdadeiro encontro consigo, com o outro e com Deus, que nos mostra o caminho para a conversão com mudanças de atitudes, a escuta com o coração e com a decisão de amar sempre. Isto tem sido um porto seg…

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Chamados para uma missão

João da Silva Resende, SDN*

 

“Eu te segurei pela mão, te formei e te destinei para unir meu povo e ser luz das nações. Para abrir os olhos aos cegos, tirar do cárcere os prisioneiros e da prisão os que moram nas trevas.” (Is 42,6-7.) Assim …

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Comitê de Bacia investe em saneamento

CBH-Manhuaçu conclui 16 Planos Municipais e agora acompanha sua implantação.

Passam-se os anos, trocam-se governos, novas políticas públicas são anunciadas e o saneamento básico segue um descalabro no Brasil. Embora seja um direito previsto na Const…

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Revista O Lutador 3861 Capa 3

A solidão tira-te o espinho, mas não te sopra o olho.

A solidão tira-te o espinho, mas não te sopra o olho.
“Ulika ukupangaosongo, kawukuefelivisso”

Pe. Renato Dutra Borges, SDN — Pároco da Paróquia Santo António de Nana Candundo, Moxico, Alto Zambeze, Angola (África)

Tornar visível, palpável e concreta a esperança cristã

eficácia da evangelização no continente africano mede-se pela capacidade de tornar visível, palpável e concreta a esperança cristã do Reino de Deus. É a Igreja como manifestação visível do Corpo de Cristo que está no mundo e para o mundo, transformando-o em sinal do Reino de Deus, formando a “Família de Deus”. Ao ser batizada, a pessoa diz não à solidão, ela é mergulhada no amor de Deus e do próximo e para o próximo, ama e sente-se amada, acolhe e sente-se acolhida… “Este é meu irmão, minha irmã, minha mãe, meu pai”, são os que sopram os olhos.

Na cultura africana-angolana coexistem muitos pais, muitas mães, muitos irmãos e irmãs, todos se responsabilizam no cuidado e na ternura, quer na proteção, quer na insegurança, na alegria e na tristeza, na vida e na morte. É uma vivência radical da solidariedade. Ninguém canta só, ninguém dança só, ninguém chora só.

O “individualismo” é algo incompatível com a cultura africana, onde tudo deve ser articulado em busca de uma coesão sempre maior de todo o grupo. Na conversa, na dança, no canto, no nascimento, na doença, todos e tudo estão mobilizados em favor da vitória da Vida sobre a Morte. Assegurar esta vitória é participar da Vida Total, numa comunhão sempre mais intensa entre os vivos, os que já partiram – antepassados – e a inteira Criação, cuja fonte é o próprio Deus.

Assistimos a um grande conflito cultural entre o pessoal e o comunitário. A força da tradição remete a pessoa para o comunitário-coletivo, no risco de perder a identidade pessoal pela massificação cultural, mas as exigências da pós-modernidade lançam as pessoas na solidão do eu e do só meu, com risco de supervalorizar o individual, caindo no individualismo.

A vivência cristã na África deve trabalhar num equilíbrio das relações, Eu–Eu, Eu–Deus, Eu–Outro e Eu–Mundo. Estas relações amadurecem a identidade pessoal e alargam a identidade social. A vida comunitária não resolve tudo, nem sequer a solidão, dado que, na realidade, a solidão não é causada pelo viver sozinho, embora estas duas situações se sobreponham. A solidão é mais fruto do que existe em nossa cabeça, do que o resultado de qualquer estilo de vida.

Quando vivemos sozinhos, a vida prega-nos mais peças na nossa cabeça, e pensamentos de desespero e impotência podem facilmente assediar a nossa alma. Quando vivemos no medo, vivemos isolados. Com o espírito que procede de Jesus, ousamos viver juntos. Um dos primeiros e grandes Padres da Igreja, Tertuliano, expressou sua sabedoria ao afirmar: “Solus christianus, nullus christianus” – o cristão solitário não é cristão.

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O que os Sacramentinos podem oferecer à Nova Evangelização no contexto africano?

Dizem nossas Constituições: “Nossa espiritualidade é missionário-eucarístico-mariana. Ela é inspirada no seguimento de Jesus, o missionário do Pai, à imitação de Maria…” (Constituições SDN nº 6.) “Uma espiritualidade que se alimenta da Eucaristia é uma espiritualidade forte e missionária para os homens – para todos e cada um –, uma espiritualidade de amor e sacrifício que desinstala e coloca em contato com o sofrimento do mundo. Quando se participa da Eucaristia, Jesus Cristo age pessoalmente e atualmente, assim se torna natural que a pessoa eucaristizada comunique aos outros a inquietação redentora que recebe do próprio Cristo.” (Pe. Paschoal Rangel, SDN)

“O que ouvimos,

o que vimos com nossos próprios olhos,

o que contemplamos

e o que nossas mãos apalparam…

Isso vos anunciamos”. (1Jo 1.3)

A Eucaristia cria comunidade, lança a pessoa ao encontro de outros para ser e celebrar a alegria do amor de Deus. Não há solidão eucarística, a comunhão se faz com a Igreja e pela Igreja. Somos devedores da presença eucarística e real na história dos povos africanos. Ter uma compreensão desta presença viva e eficaz de Jesus Eucarístico, possibilita uma segurança no amor universal que a Igreja oferece a todo ser humano, tornando-o povo de Deus, família alargada no contexto africano.

Partilhar o amor e sacrifico é tirar a coroa de espinhos cravada na cabeça de Jesus e da humanidade, mas não podemos fazer tudo sozinhos, devemos partilhar a missão de soprar os olhos da humanidade para ver melhor e interagir com a cultura que nos circula e também nos sopra os olhos.

Como Sacramentinos, somos um pequeno rebanho, enviado para o meio de “lobos”, de uma nova cultura, nova forma de ser e suscitar Igreja. Devem consolar-nos as palavras de São João Crisóstomo: “Enquanto somos ovelhas, vencemos e superamos os lobos, ainda que nos rodeiem em grande número; mas se nos convertemos em lobos, somos vencidos, porque perdemos a proteção do Pastor. O Pastor não apascenta lobos, mas ovelhas; por isso ele te abandona e se afasta de ti, porque não lhe permite manifestar o seu poder”.

Ao assumir esta missão no continente africano, estamos partilhando de nossa pobreza e de nossa maturidade missionária, pois só é madura uma Igreja que envia seus membros além de suas fronteiras (a cultura é um lobo pronto a nos devorar). Devemos, portanto, ser simples como as pombas e prudentes como a serpente. Conhecer, penetrar na cultura e nas estruturas sociais às apalpadelas, confiando e vivenciando a Providência do Bom Pastor.

Não estamos aqui para tirar espinhos na solidão, mas para soprar os olhos dos que conosco partilham a vida e deixar que nossos olhos sejam purificados pelo sopro do Espírito Santo, que sopra onde quer. Como o salmista, devemos nos perguntar: “Que é o homem, Senhor, para que cuides dele com tanto carinho?” (Sl 8.)

Complexidade da pessoa no continente africano

A pessoa humana na tradição africana é uma realidade extremamente complexa, é o momento do encontro de todas as ondas de vida que percorrem o universo material; ela traz em si a totalidade do gérmen da história, é o traço de união entre os antepassados e as gerações futuras, traz em si a humanidade total, é homem e mulher, pai-mãe-filho; sociedade, povos e nações, ela é parceira de Deus, aquela que leva consigo a voz de toda a Criação diante do seu Criador, aquela a quem Deus pode falar e ela responde.

Tudo aquilo que fazemos e somos não tem razão de ser em si e por si mesmo, mas para a missão. Bem disse o Papa Francisco: “Eu sou uma missão nesta terra, e para isso estou neste mundo”. (EG, 273.) “Por isso, é necessário continuar a anunciar a Palavra de Jesus Cristo que venceu a morte conferindo à humanidade a esperança da ressurreição. Contudo, é preciso que hoje esta Palavra de Deus seja anunciada fora dos sinais sagrados, fora dos muros da Igreja, em lugares não institucionalizados, numa provisoriedade e projeção abertas, na simplicidade e na pobreza.”

“A chuva cai sobre a pele do leopardo, mas não elimina as suas manchas.” A descoberta cultural de Jesus é como esta chuva, incapaz de inundar completamente a psique cultural tradicional da África. Numerosos africanos temem as maldições mais do que confiam nas bênçãos, e transferem seus “problemas” a antigas “maldições intergeracionais”. É preciso evangelizar em profundidade a alma africana. Não podemos nos acomodar com uma evangelização de verniz.

Emergem tendências de um novo despertar de uma experiência continental na África que vão além da consciência de Jesus Cristo, como Ele era descrito aos africanos e como é por eles conhecido. Surge o interesse de ver Jesus como Salvador concreto, que rompe com os jugos e realiza milagres. Esta noção deriva de antecedentes históricos de uma crença segundo a qual a humanidade se encontra em guerra com as forças espirituais invisíveis, contra males presentes em toda a parte. O “dedo do diabo” deve ser extirpado, e este ministério constitui uma parte integrante da função da religião numa terra de desagregação, perigo, enfermidade e pobreza. As pessoas buscam na Igreja lugar de refúgio e de integração espiritual e social.

A missão na África tem o dever de confrontar a problemática do mal que impede a Vida Total da pessoa, seja o mal preconizado como feitiços, possessões, encantos… Para que a missão seja promissora, ela deverá estudar e compreender não somente a história e as problemáticas africanas, mas inclusive ver a existência com os olhos dos africanos. O missionário não pode querer tirar os espinhos na solidão. O desejo de se libertar da escravidão, em todas as suas formas, nunca abandonou a psique dos africanos. Se os espíritos malignos dominam a vida, o espinho na carne africana, então é necessário fazer tudo para alcançar a liberdade e assim livrar-se dos laços do mal. Toda e qualquer forma de servidão, espiritual ou natural, deve ser evitada, até em nível subconsciente. Limpar os olhos do corpo e da alma.

A teologia missionária tem necessidade de tomar conhecimento deste fato e estudar esta tendência à luz do Evangelho. A missão deve encontrar, compreender e abrir-se à África tal como ela é; só assim se verá o coração sanguinolento da África e conseguiremos oferecer-lhe a cura do Evangelho numa Boa Nova integral, caso contrário, será uma notícia preparada externamente.

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Educação e catequese chaves para a missão

A educação e a catequese são chaves importantes para uma missão positiva na África. Comprometer-se na educação intensiva e em programas de assistência à saúde nas áreas mais desfavorecidas significa propagar o amor de Cristo. As Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora do Amparo tem marcado esta presença educativa e curativa, tirando espinhos e abrindo os olhos da mente e da alma, favorecendo a vivência concreta do amor universal de Cristo por toda a Criação e em especial pelo gênero humano.

  • “Por isso,  necessário continuar a anunciar a Palavra de Jesus Cristo que venceu a morte conferindo à humanidade a esperança da ressurreição. Contudo, é preciso que hoje esta Palavra de Deus seja anunciada fora dos sinais sagrados, fora dos muros da Igreja, em lugares não institucionalizados, numa provisoriedade e projeção abertas, na simplicidade e na pobreza.”

Seguindo os latino-americanos na teologia da libertação, a teologia africana da missão pode dedicar mais esforços à Doutrina Social da Igreja, dado que os espíritos malignos nada podem contra pessoas que se encontram num padrão de vida mais elevado. É necessário realçar o aspecto de Jesus triunfante e vitorioso como libertador. Salientar demasiado a teologia da Cruz e do sofrimento não melhora muito a situação africana. E ajudar o africano a sentir o cristianismo como uma parte de sua própria carne e de seu próprio sangue, da sua alma e do seu amor. O encontro com Jesus histórico faz romper com o jugo do mal para alcançar um nível de vida feliz.

Como Sacramentinos, devemos viver a Eucaristia como espelho histórico da presença de Jesus. “Nossa vida fraterna, vivida em comum, fundamenta-se na vivência do amor entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, modelo e fonte geradora de fraternidade. Torna-se o sinal que revela ao mundo o mistério da Igreja e a presença de Deus na história.” (Constituições SDN, nº 42.) A revelação se faz por palavras e atitudes (Dei Verbum, 4), e a Eucaristia é o maior gesto de amor que Deus oferece à humanidade: ninguém tem maior amor do que aquele dá a vida por seu amigo.

A presença Sacramentina na África deve pautar-se por:

– ser testemunha da Eucaristia como missão-comunhão, centro irradiador de nossas ações;

– aprofundar o conhecimento da Palavra de Deus na catequese e nas equipas de reflexão bíblica;

– ser presença que inquieta missionariamente nossas lideranças;

– valorizar o contato pessoal como caminho de evangelização.

Maria, mãe de Jesus e nossa mãe, pedimos vossa intercessão em nossas ações missionárias, ajudai-nos a superar a tentação das decisões na solidão individualista, abri nossos olhos para vermos com olhos novos a cultura na qual estamos inseridos. “Contemplamos o seu sim sem reservas a Deus, sua solicitude pelos necessitados, sua fidelidade até a cruz, sua alegria pelas maravilhas operadas pelo Senhor, sua presença entre os discípulos, Senhora da Eucaristia, Rainha dos missionários.” (Constituições SDN, nº 61.) Ajudai-nos a proteger a Vida Total dos povos africanos.]

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